Nilton Fukuda/Estadão
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A dor de uma derrota

Nossa segunda Copa em casa teve um dissabor igual, ou pior, ao da primeira, em 1950

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h30

Os ecos de uma derrota esportiva podem durar para sempre. O fracasso do Brasil diante dos uruguaios no Maracanã, em 1950 parecia eterno e insuperável até 8 de julho de 2014, quando a seleção tomou a maior surra de sua vida numa Copa. Dentro de casa de novo. Aqueles 90 minutos em que a Alemanha triturou o time brasileiro no Mineirão vão nos acompanhar para sempre, feito um fantasma.

Brasil e Alemanha tinham tudo para fazer uma semifinal em alto nível, dada a tradição das equipes e seus elencos. Mas apenas uma seleção jogou naquela tarde em Minas. E não foi a nossa. O Brasil amargou sua maior goleada em Copas desde 1930, quando a Fifa organizou seu primeiro Mundial: 7 a 1. 

Nunca antes na história do futebol brasileiro uma derrota fez tanto barulho. Muitas explicações foram formuladas. Cada brasileiro tinha a sua. Todas elas poderiam explicar o que o mundo viu, até incrédulo. Nenhuma serve isoladamente, no entanto. Nem mesmo os alemães imaginavam poder fazer tanto estrago em uma nação sem pegar em armas, sobretudo na brasileira, anfitriã, que a recebeu de braços abertos e a que mais taças coleciona em Copas.

Aqueles 90 minutos representaram a falência de uma década de futebol no Brasil, ou mais, com suas mazelas, seu conservadorismo, o caráter amador que ainda predomina nos centenários clubes brasileiros e entidades esportivas, a pobreza de um esporte que já foi rico, que já encantou o planeta com tamanha leveza e talento ímpar, com a bola de Pelé para Garrincha, passando por Zico, Sócrates, Falcão, na conclusão de Romário e Ronaldo, nos dribles de Rivaldo e Gaúcho, e ainda Neymar e tantos outros jogadores brasileiros.

Tudo foi para o fundo do poço naquele 7 a 1. Tudo virou lembrança feito um filho que cresce. Buscamos explicações e não a encontramos. Meninos e meninas choraram. Passamos a viver de migalhas. O futebol era a alegria do nosso povo. Fé. Mas o fez chorar.

Parece que foi ontem. O torcedor, após muita desconfiança gerada pelos mandos e desmandos de Brasília, com aumento de tarifas do ônibus que levou o trabalhador às ruas um ano antes, comprou a Copa em casa, passou a cantar o Hino a capela, acreditou. 

Mas afundamos em nossas angústias. Empobrecemos em espíritos. Tivemos de aceitar em campo o que nos recusávamos a enxergar. A paixão nos cegou, pela seleção e pelos clubes. Há quem defenda que se tratou de resultado isolado. Não penso em culpados. 

Apontar esse ou aquele seria o mais fácil a se fazer, mas não nos colocaria em um patamar diferente. Era preciso pensar, planejar, reorganizar de modo a não sofrer mais o que sofremos. Aquela derrota foi um divisor de águas. Continua a nos assombrar de quatro em quatro anos. Passados seis anos, tenho dúvidas se aprendemos alguma coisa com ela. Continuamos a exportar os melhores jogadores ao mundo, para equipes da Europa, mas não somos capazes de montar uma seleção para voltar a ganhar Copas.

Nos misturamos à multidão. Voltamos mais cedo da Rússia e não temos um caminho definido para o Catar. No jogo jogado, onde éramos mestres, caímos de produção. Não temos tática e nos contentamos com pouca técnica. Chegamos a entregar a bola ao rival como estratégia. Que volante marcador é a salvação. Que pontas não têm função. 

Antes mesmo dos 7 a 1 o futebol brasileiro já vinha rateando. Então, o resultado que para mim marcou a década nada mais foi do que uma consequência inevitável da nossa mediocridade, excesso de confiança, escolhas erradas e evolução que nunca chegou. Nossos técnicos, de modo geral, pararam no tempo. Nosso futebol foi pelo mesmo caminho.

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