Maurício de Souza
John aguarda uma oportunidade no gol santista Maurício de Souza

A dura vida de terceiro goleiro no Brasil

Reservas do reserva só atuam em situações improváveis

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2016 | 17h00

Romário iniciou a carreira de jogador como terceiro goleiro do Boa Vista, do Rio. Passou pelo Duque de Caxias, Tigres e Laranjeiras do Espírito Santo. No ano passado, ficou tão desanimado com a falta de oportunidades para jogar – terceiro goleiro é o reserva do reserva – que decidiu largar o futebol. Virou vendedor de cosméticos e roupas na Vila Aliança, em Bangu. Ele saía pelas ruas oferecendo seus produtos, ficou um ano nessa vida. A grana era razoável, mas decidiu voltar. No Campeonato Carioca deste ano, foi terceiro goleiro do Bangu. Não jogou nenhuma vez, mas jura que não vai mais desistir.

 O jargão do futebol tem uma definição crua, quase maldosa, para a função que persegue Romário. “Terceiro goleiro é aquele que treina, mas nunca joga”. Essa expressão foi usada por vários profissionais ouvidos pelo Estado. Sua escalação só acontece em situações improváveis, quando os dois que estão à sua frente – o titular e o primeiro reserva – têm problemas.

Na semana passada, no jogo entre Corinthians e Grêmio, esse improvável aconteceu. Caíque França, quarto goleiro do clube paulista, estava se preparando para ir ao shopping com a namorada no domingo quando o telefone tocou. A avó do titular Cassio morreu; Matheus Vidotto sentiu um lesão nas costas durante o aquecimento – os exames mostraram uma hérnia e ele teve de ser operado. Com isso, Walter foi para o gol e Caíque chegou aos estádio faltando 40 minutos para o início do jogo. Ele não atuou, ficou apenas no banco de reservas. “A gente tem de estar sempre preparado. Uma hora a chance aparece”, diz o arqueiro de 20 anos.

 A chance de Fábio demorou quatro anos para aparecer no Palmeiras. Formado nas categorias de base de um clube que se destaca pelos grandes goleiros, Fabio conseguiu uma sequência de 25 jogos em 2014, durante uma lesão do titular Fernando Prass. Depois disso, Prass voltou. “Essa fase de terceiro goleiro é uma espécie de preparação, um estágio para coisas maiores”, diz o ex-goleiro Waldir Joaquim de Morais.

Limão. No período em que seu nome não era relacionado para os jogos, Fabio foi estudar e se formou em Educação Física. Foi um jeito de fazer do limão limonada, outra frase bastante citada entre os goleiros. Estudar foi a mesma saída encontrada por Jefferson Paulino, terceiro goleiro do Audax, vice-campeão paulista. Beneficiado por um convênio entre o clube e a Universidade Paulista (UNIP), que oferece bolsas de estudo para os atletas, ele já está no 3º semestre, também na Educação Física.

Aos 20 anos e com a mulher grávida, John Victor quer esperar sua vez no Santos. E começa a construir sua história. No ano passado, ele conta orgulhoso que defendeu todos os pênaltis que o time sofreu – foram seis defesas. E ele gosta mais ainda quando acham que ele é parecido com o pentacampeão Dida.

 O preparador de goleiros do Santos, Arzul, afirma que tem gente que não aguenta esperar. Simples assim. Nesses casos, o empréstimo para outro clube é a melhor solução. Fábio, por exemplo, pediu para ser emprestado para o Oeste.

Faltou explicar a origem do nome de Romário Azeredo Fraga. Não é por causa do ex-jogador e hoje senador. “Meu avô e meu pai tinham o mesmo nome. E meu filho também vai ter”, diz o arqueiro do Bangu. “E vou dar um forçada para ele ser goleiro também. Não vou deixar ele se desmotivar quando não for para um jogo”.

EXCEÇÃO À REGRA

A trajetória do goleiro Alisson, que deverá ser titular da seleção brasileira na disputa da Copa América, é uma exceção quando se trata de um terceiro goleiro. Ele assumiu o gol do Internacional no 12 de outubro de 2014. Depois de um ano, tornou-se titular da seleção brasileira.

Para completar a ascensão incomum, o arqueiro de 23 anos, que era conhecido apenas como o “irmão do Muriel”, goleiro cinco anos mais velho, fez sua despedida no Campeonato Gaúcho e será o reforço da Roma na próxima temporada. Foi contratado por ¤ 5 milhões (R$ 20 milhões).

Para ser titular do Inter, então comandado por Abel Braga, Alisson Becker contou com a expulsão de Dida na goleada de 5 a 0 sofrida para a Chapecoense e com a lesão de Muriel. Ele entrou na partida contra o Fluminense, fez defesas importantes e segurou a vitória por 2 a 1. Virou titular.

Com a seleção, a sequência de fatos foi semelhante. Foi chamado como o terceiro goleiro para as Eliminatórias. Jefferson, do Botafogo, era o titular, e Marcelo Grohe, do Grêmio, o seu reserva imediato. Jefferson não foi bem na derrota para os chilenos, por 2 a 0, em Santiago, e já vinha sendo contestado por atuar na Série B. Grohe sofreu uma lesão no ombro em meio aos treinos e foi cortado. Uma vez mais, sobrou para Alisson. Ele atuou em jogos fáceis, contra Chile e Venezuela, depois segurou a Argentina em Buenos Aires. Na Copa América, seu grande concorrente será Diego Alves, do Valencia.

De acordo com a comissão técnica do Inter, Alisson tem grande qualidade técnica e física, além de personalidade forte, características que foram valorizadas por Claudio Taffarel, atual preparador de goleiros da seleção brasileira. Ele não é espalhafatoso e evita declarações polêmicas, o que agrada ao técnico Dunga.

Waldir Joaquim de Morais, um dos maiores goleiros da história do Palmeiras, afirma que ele ainda precisará de novos testes para se firmar. “Seria importante vê-lo em jogos com uma grande pressão por mais tempo”, diz o ex-goleiro. “Mas tem grande potencial técnico.”

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