Andrew Teste/ The New York Times
Andrew Teste/ The New York Times

A equipe que o Liverpool esqueceu

Em tempos de rápida ascensão do futebol feminino na Europa, pelo menos uma ex-jogadora acusou o Liverpool de 'brincar' com a modalidade

Rory Smith, The New York Times

25 de junho de 2020 | 10h00

Por alguns minutos, logo no início do segundo tempo, Vicky Jepson tentou se sentar. A técnica do Liverpool estendeu um cobertor sobre as pernas para evitar o frio do inverno, espremeu-se ao lado de suas jogadoras no banco de reservas e ficou quieta o máximo que pôde.

Podia ser uma bela maneira de passar o tempo, uma tarde tão relaxada quanto qualquer outra da temporada. Seu time estava acabando metodicamente com o adversário, o Blackburn Rovers: quatro, cinco, seis a zero. Mas Jepson não conseguia ficar quieta.

Ela se levantou mais uma vez, começou a andar pra lá e pra cá. Jepson é uma treinadora ativa e atenciosa, não é daquelas que ficam berrando e gesticulando. Em vez das frases motivacionais sem sentido, ela dava conselhos diretos e precisos – para onde correr, quando avançar, onde ficar. Suas instruções eram surpreendentemente detalhadas e só às vezes caíam no jargão do futebol. Suas jogadoras ouviram com atenção e assimilaram tudo.

Aquela tarde de janeiro deveria ser o trampolim do Liverpool. Na semana anterior, a equipe de Jepson vencera seu primeiro jogo da temporada na Women’s Super League (WSL). Vencer o Blackburn dava a sensação de que as coisas estavam entrando nos eixos. Jepson depois falou que a vitória poderia ter restaurado o moral das jogadoras, aliviando a ansiedade que se instalara.

Mas, no fim das contas, o dia acabou não sendo mais que uma trégua. Quando a temporada da WSL foi encerrada em março, o Liverpool estava na lanterna do campeonato. Tinha vencido apenas um jogo. Em maio, várias jogadoras estavam no fim do contrato, de saída do clube.

Muitos delas – inclusive a meia escocesa Christie Murray e a atacante inglesa Courtney Sweetman-Kirk – explicaram a decisão de partir sugerindo que queriam estar em algum lugar onde pudessem “voltar a gostar de fazer o que amo”. A indireta pouco disfarçada dizia, é claro, que ficara impossível ter prazer e orgulho de jogar no Liverpool.

E, então, na primeira semana de junho, anunciou-se que a temporada da WSL seria decidida com uma fórmula de pontos por jogo. O Chelsea foi coroado campeão. O Liverpool, que tinha oito jogos restantes, foi rebaixado. As pessoas lamentaram por Jepson e suas jogadoras, mas não pelo clube. Para muitos, Liverpool teve o que mereceu.

Em tempos de rápida ascensão do futebol feminino na Europa, com interesse e investimentos crescentes – até mesmo da parte de algumas equipes, como o Manchester United e o Real Madrid, que demoraram a montar departamentos femininos – pelo menos uma ex-jogadora acusou o Liverpool de “brincar” com o futebol feminino. Até mesmo algumas pessoas de dentro do clube se perguntavam se “era para levar a sério ou não”. Depois de ir embora, Sweetman-Kirk falou não apenas sobre a falta de investimento do clube, mas também sobre a falta de importância atribuída à equipe feminina.

O contraste com a equipe masculina era nítido e vergonhoso. O Liverpool de Jürgen Klopp é o campeão mundial e europeu. Quando a Premier League recomeçou, na semana passada, o Liverpool precisou de apenas duas vitórias para encerrar os trinta anos de espera pelo campeonato inglês. O clube paga US $ 392 milhões por ano em salários aos seus jogadores.

As mulheres do Liverpool, por outro lado, mal recebiam salários proporcionais ao status de atletas de elite. Até uma ex-treinadora reclamar, elas viviam alojadas em acomodações precárias. Apenas dez membros da comissão técnica trabalhavam em período integral, num ano em que o clube como um todo havia registrado recordes de receita e lucro.

Ambas as equipes do Liverpool fizeram turnê de pré-temporada nos Estados Unidos, mas seu tratamento foi tão diferente que muitas das jogadoras se perguntaram por que haviam sido convidadas. Quando as mulheres do Liverpool voltaram à Inglaterra, começaram a mandar seus jogos em Tranmere, um campo que a técnica do Chelsea, Emma Hayes, descreveu como uma vergonha para o clube.

O que pareceu capturar melhor a dicotomia, porém, foi o fato de que, quando o Liverpool divulgou os planos para as novas instalações do centro de treinamento, não havia provisões para a equipe feminina. Peter Moore, executivo-chefe do clube, disse que o Liverpool eram “duas equipes, um clube”. A realidade fez com que o lema parecesse vazio.

À medida que as críticas ao tratamento da equipe feminina se acumulavam ao longo da temporada – suas dificuldades ainda mais nítidas contra o sucesso da masculina – o Liverpool só dava evasivas. O clube argumentou que seu orçamento, apesar de inferior ao de Chelsea, Manchester City e Arsenal, era compatível com o dos principais times da WSL.

O clube também disse que fornecera a Jepson médico, fisioterapeuta e analista em tempo integral, o que ainda não era comum entre as equipes de primeira linha na Inglaterra. E, embora os problemas com o campo de Tranmere tenham causado constrangimento e consternação, o clube insistia que se tratava de instalações melhores do que muitas equipes femininas tinham acesso.

Mas o Liverpool também pede que a equipe feminina seja – até certo ponto – autossustentável. Enquanto o orçamento da equipe feminina for subsidiado pela renda da masculina, o Fenway Sports Group, proprietário do Liverpool, deixou claro que, para gastar mais, será preciso ganhar mais.

Talvez seja uma filosofia consistente – que a FSG também aplica aos homens – mas aponta para o cerne de uma questão crucial para o futebol feminino na Europa: como chegar ao ponto de existir confortavelmente, independente do apoio financeiro de equipes masculinas estabelecidas há muito tempo?

A teoria, porém, cai por terra quando confronta a realidade. Há uma diferença não apenas de escala, mas de contexto. O futebol masculino está no auge. O futebol das mulheres ainda está em ascensão: é preciso apostar para ganhar. Além disso, um aumento no orçamento que mal faria diferença para a equipe masculina pode ter um efeito considerável no lado feminino.

A maioria dos rivais do Liverpool já percebeu isso. Jepson disse que a WSL “subiu para outro nível”.

“Sam Kerr, uma das melhores atacantes do mundo, veio para o Chelsea por uma montanha de dinheiro”, observou Jepson. “Muitas jogadoras que jogaram na Copa do Mundo entraram na liga. É isso que você precisa fazer quando quer competir com as melhores”.

Mas o Liverpool, disse ela, decidiu que seu futuro não seria comprar estrelas e, sim, formá-las. Foi assim que ela definiu seu trabalho: “Criar um caminho para que possamos estar onde queremos estar”.

Stephen Nelson estava junto com seu pai, Stan, no meio da torcida daquele dia contra o Blackburn. Stephen Nelson é guia turístico na casa de John Lennon e, nos últimos anos, transferiu para o time feminino grande parte do carinho que sempre teve pela equipe masculina do Liverpool. Agora, ele diz que, sempre que puder escolher, verá a equipe feminina, por todas as suas lutas, e não a implacável e vitoriosa máquina de Klopp.

“Vi grandes jogadores jogando pelo Liverpool”, disse ele. “Times com identidade, com alma de verdade. O que aconteceu foi de partir o coração”.

Naquele dia, Nelson estava confiante de que o pior poderia ser evitado. Jepson também. Ela reconheceu que passara por frustrações nos últimos meses, mas achou que o clube finalmente havia tomado um rumo mais claro. “Fizemos muito para nos perguntar para onde estamos indo”, disse ela.

Alguns meses depois, veio a resposta. E é mesmo surpreendente que não a tenham previsto. / Tradução de Renato Prelorentzou

 

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