A escolha certa?

Ricardo Gomes deve estar pensando se deveria mesmo ter saído do Botafogo

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2016 | 06h00

Quando Ricardo Gomes saiu do Botafogo, todos ficaram um pouco com pena do glorioso time da Estrela Solitária, mas compreenderam sua decisão. Ricardo ia para o São Paulo. O fato de deixar uma equipe em ascensão para treinar outra em declínio não foi levado em conta. Foi levado o que se imagina sejam São Paulo e Botafogo como entidades recentes do futebol brasileiro. Fosse levada a tradição das duas equipes numa trajetória mais longa e a decisão não seria tão óbvia. O Botafogo é um time cuja grandeza é de longa duração.

De qualquer maneira, Ricardo parece talhado para o que é a imagem exterior do São Paulo. Elegante, educado, escolhe as palavras com cuidado, enfim é socialmente impecável. E, claro, entende muito de futebol. Foi belo jogador e é treinador de nível. Além disso, enfrentou um problema pessoal dos mais graves e retornou ao futebol como vencedor, o que sempre ajuda. 

Quando saiu do Botafogo, deixou uma ponta de ressentimento, não expressa na hora. Todos, ao contrário, reconheciam sua mão na subida técnica da equipe. O Botafogo já estava bem quando Ricardo saiu. E lá foi ele para o São Paulo. Parecia ter sido a melhor escolha, pelo menos do ponto de vista profissional. Ocorre que o São Paulo não parou de cair. De nada adiantaram as providências que Ricardo tomou para melhorar o time.

No começo, foi defendido amplamente até pela critica. Finalmente, todos se renderam a uma conclusão evidente. O time do São Paulo era bem ruinzinho e, naturalmente, milagres não acontecem no futebol. Apesar do status que o São Paulo goza de clube imune a crises, o time foi chegando bem fundo na tabela. Aliás, não sei por que tenho a impressão que a colocação do São Paulo gera certa histeria, mesmo entre comentaristas, que não se justifica.

O que tem esse time que outros não têm? Que posição é essa que lhe dão, tão acima dos outros, que parece vergonha ter crises e fases de obscuridade? O que para outras equipes é motivo até de ironia, para o São Paulo o sentimento é de drama. Prova disso é a invasão do campo de treinamento por torcedores.

A consequência mais óbvia é o desprestígio de Ricardo Gomes. Como se trata de elemento dos mais simpáticos, esse desprestígio é ainda sutil. Mas é claro para qualquer um. Uma palavra colocada aqui, outra ali , quando somadas começam a formar o quadro clássico: treinador em perigo.

Enquanto isso, no Botafogo, que não para de subir na tabela, ocorre o mesmo. Toda a imprensa carioca está embevecida com a campanha do Bota. E só falam num nome: Jair Ventura. O novo treinador é levado às alturas; evidentemente merece. Sobre Ricardo mais nenhuma palavra. 

Isso significa que sua decisão o colocou no pior dos mundos. Não conseguiu se dar bem no São Paulo e desapareceu da memória dos botafoguenses. É claro que isso é momentâneo e pode mudar de uma hora para outra. O São Paulo, aliás, não deve enfrentar maiores problemas até o final do campeonato. Ricardo, porém deve estar pensando no que fez e se deveria ter feito diferente. Talvez não, quem pode dizer? Tudo está na mão do acaso e tudo pode acontecer. 

Mas não custa ler os indícios. Um deles, divulgado esta semana não é nada animador para Ricardo. Volta a surgir nos noticiários a figura de Rogério Ceni, já se declarando preparado para assumir o comando de um time de futebol, leia-se o São Paulo.

Naturalmente já conta com apoio dentro da diretoria atual. Acaba de voltar do exterior onde cumpriu todos os mandamentos do técnico brasileiro moderno. Viu treinamentos e conversou com os grandes internacionais.  Bem, se for por isso, Ricardo Gomes ainda está ganhando. Quando ninguém pensava nisso estava na França jogando e aprendendo. Será suficiente? O fato é que a vida nos coloca diante de decisões a todo instante. Nas sem importância nunca erramos. Quanto às sérias, a história é outra.

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