Paulo Liebert/Estadão
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À espera de uma jogada

Não há mais grandes jogos; existem grandes jogadas que nos remetem a outros tempos

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2018 | 17h29

Definitivamente me parece estar vivendo agora em outro país, um país estrangeiro, cujos costumes futebolísticos desconheço completamente. O que conhecia dos costumes de meu antigo país era uma implacável intolerância com a mediocridade, profusão de protestos, vaias, insultos, todos dirigidos contra jogadas toscas, chutões, domínio de bola insatisfatório, enfim contra o que contrariava os fundamentos do futebol brasileiro jogado aqui por décadas.

Todas as torcidas eram mais ou menos iguais nessa questão. Umas mais impacientes, outras um pouco mais tolerantes, mas havia um padrão comum a todas elas que era não aceitar a mediocridade de forma passiva.

Havia as que eram notáveis por se manifestarem logo nos primeiros 20 minutos do jogo, havia as que esperavam um pouco mais, mas a partir de um dado momento ou de jogada particularmente grotesca mesmo as mais tolerantes perdiam a paciência.

Havia até em cada torcida jogadores marcados, que nunca eram poupados desde quando surgiam em campo. Representavam por assim dizer a mediocridade do time inteiro, simbolizavam tudo o que se odiava no futebol.

Às vezes penso se isso ainda existe. Procuro diferentes jogos na TV onde a velha cólera dos torcedores se pronuncie e não encontro nenhum e, entretanto, nunca os jogos foram tão medíocres. Nunca todos os times estiveram tão alinhados pela média, pelo mais ou menos, pelo sofrível, pelo, no máximo, o aceitável. O que mudou? Por que esse silêncio em relação a esses jogos em que se passam minutos e minutos com a bola rondando sempre o mesmo lugar, um time todo recuado, o outro apenas esboçando incertamente o que fazer numa monotonia impressionante.

E ninguém vaia. Todo o estádio parece resignado. É verdade que, pela idade média do brasileiro que frequenta estádios, não devem estar mais acostumados a times cheios de craque. Alguns já conheceram esses times, mas eram ou muito crianças ou iam pouco ao estádio. Mas curiosamente todos sabem que se jogava de outro jeito. Todos têm lampejos de como se jogava neste país.

Às vezes um torneio como a Copa recém-terminada mostra algo do que foi e do que era. Mostra que é possível a jogada individual, sem medo, como faziam times como França e Bélgica, por exemplo. Mas basta recomeçar uma competição no Brasil para a mediocridade dar as caras. O que fazer então? Não torcer mais? Abrir mão do futebol e do prazer de ver seu time jogar? Passar a viver de lembranças que nem são suas, mas de alguém que de repente se põe a contar histórias do passado?

Acho que a tolerância da torcida tem outra razão: descobriram outra maneira de torcer que consiste na espera de uma única jogada redentora, na esperança de que uma solitária grande jogada aconteça. Desse modo toda a monótona troca de bolas passa a ser não mais mediocridade pura, mas apenas a parte mais pobre de um ritual de que faz parte a grande jogada. Pelo menos como possibilidade.

Nesse caso, de fato, não pode haver vaias nem insultos, ao contrário, o suplício é tolerado como meio de atingir o fim. Se um tipo de jogo foi abolido, cria-se outro. Essa a mensagem embutida na tolerante atitude das torcidas. A jogada que justifica tudo pode ser um gol ou lance de classe que expulsa de repente a chatice e a preguiça. Não existem mais grandes jogos, se analisados na sua maneira geral. Existem só grandes jogadas que nos remetem a outros tempos e que às vezes valem a entrada, como se dizia. Essa expectativa de ver um pouco de futebol é que move as torcidas. É como se pensassem: "Vamos esperar sem reclamar que alguma coisa pode acontecer". Quando acontece é uma explosão de alegria como nos velhos tempos. Tenho de aprender a torcer assim.

 

 

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