Pedro Chavesce/Fortaleza
Pedro Chavesce/Fortaleza

À espera do acesso, Ceni vira manager e opina até em cardápio no Fortaleza

Técnico do time pode garantir vaga na elite neste sábado após trabalho detalhista

Raphael Ramos, Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

03 Novembro 2018 | 05h00

Certo dia, Rogério Ceni visitou o refeitório do centro de treinamento do Fortaleza e notou algo que lhe incomodou: as saladas não eram separadas por itens em cada prato. Havia beterraba junto com brócolis, por exemplo. Pediu para que isso fosse mais bem organizado. Ah, e o azeite deveria estar sempre ao lado, para que cada um temperasse da forma como achasse melhor. Pode parecer uma história tola, mas ela diz muito sobre a sua função, que extrapolou o papel de mero treinador de futebol da equipe, prestes a retornar à Série A do Brasileiro.

Para garantir o acesso neste sábado, o Fortaleza precisa de uma vitória em cima do Atlético-GO e de um tropeço do Londrina. Após um início de carreira frustrante, sendo demitido do clube onde ganhou o apelido de "Mito", o ex-técnico do São Paulo encontrou na capital cearense condições de ser um manager, função popular no futebol europeu da figura que recebe carta branca da diretoria para agir como uma espécie de treinador/diretor e estipular diretrizes de planejamento dentro e fora de campo. 

No caso de Ceni, isso significou pedir ao Fortaleza o que julgasse necessário, da grama bem aparada no CT à privacidade, como treinos fechados à imprensa.

"Constituímos um novo campo auxiliar, qualificamos outros dois campos do CT, construímos uma sala de imprensa, melhoramos cozinhas e refeitórios, montamos uma nova academia, que já está com a estrutura física pronta e os equipamentos comprados", cita o presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, quando questionado pelo Estado sobre o que havia mudado no clube com Ceni.

O treinador fez o Fortaleza alterar até logística de viagens. Antes, o check-in nos aeroportos e hotéis era realizado na chegada da delegação aos locais. Agora, um profissional vai antes para agilizar a burocracia. No ônibus, os jogadores já recebem as chaves dos apartamentos em que ficarão hospedados.

A fama de "chato" acompanha Ceni desde os tempos de Morumbi, devido à personalidade forte e a um espírito de liderança aflorado. Características que ele carregou para o Fortaleza e a diretoria, ao menos por enquanto, considera positivas. 

"É um cara muito exigente, que não deixa passar nada. Se tem algo que não está a contento, ele fala. Porém, nunca é exagero, frescura. É coisa profissional, séria", garante Paz.

O estafe de Ceni conta com Haroldo Lamounier, preparador de goleiros dele durante mais de uma década no São Paulo, o francês Charles Hembert, que o auxiliou no primeiro trabalho como treinador, Nelson Simões, ex-zagueiro tricolor, e Danilo Augusto, preparador físico que trabalhava em Cotia, sede das divisões de base do São Paulo. 

"Desde o início, o Rogério foi muito bem aceito. As causas que ele propôs, a diretoria acatou. O Fortaleza renovou campo, logística, tudo. Ele usufruiu do prestígio para conseguir melhorias", diz Lamounier.

Detalhista, Ceni costuma ficar no pé dos jogadores, mas ninguém reclama. Muito pelo contrário. Eles elogiam. "Corrige coisas simples. Chama de canto e passa a orientação. Todo dia ele cobra, para ninguém se acomodar", conta o meia Dodô, camisa dez do time.

Viciado em trabalho, o técnico dedica boa parte da rotina aos treinos e estudos. Passa horas vendo vídeos e analisando estratégias para sua equipe e capazes de superar adversários. 

Mas tenta aliviar o estresse ao menos duas vezes na semana, normalmente às segundas e quartas, quando vai a um clube chamado Ideal para jogar tênis acompanhado do médico do Fortaleza, Cláudio Maurício, e um grupo de amigos.

Se bem que nas últimas semanas tem sido difícil pensar em algo que esteja fora das quatro linhas. E, no caso de alguém competitivo como Ceni, já não se trata só de conduzir o time à Série A. O acesso sem a taça certamente não terá o mesmo gosto, ainda mais no ano em que o Fortaleza comemora o seu centenário. "A gente está liderando o campeonato há 31 rodadas. Então, é lógico que temos de pensar em título", admite Paz. O contrato de Ceni termina no dia 10 de dezembro. A ideia do Fortaleza é estender por mais dois anos.

 

 

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Raphael Ramos, Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

03 Novembro 2018 | 05h00

Depois de uma passagem apagada pelo Corinthians, Gustavo virou o homem-gol do Fortaleza. O atacante passou a ser a referência ofensiva da equipe, é o artilheiro da equipe na Série B do Brasileiro, com 11 gols, e diz que deve a boa fase a Rogério Ceni. Na temporada, contando todas as competições, ele soma 27 gols. Ninguém no País balançou as redes mais vezes do que Gustavo em 2018.

Como o time se encaixou para fazer uma campanha tão boa?

O time se encaixou desde o primeiro momento. O elenco uniu-se dentro e fora de campo e isso acabou sendo o nosso diferencial para a boa campanha na Série B.

Como explicar a superioridade do Fortaleza em relação aos rivais na Série B?

A união do grupo facilita o trabalho dentro de campo. Também destaco o torcedor do Fortaleza, que passa uma energia sensacional para nós, jogadores. Sem contar, é claro, que a qualidade técnica do time é muito boa. A diretoria soube montar uma equipe com jogadores nivelados em todas as posições.

O que você destacaria no trabalho do Rogério Ceni?

É um profissional fora do comum, tem uma inteligência sem igual. Sempre digo que trabalhei com diversos treinadores, mas o Rogério vem me surpreendo a cada dia. Aprendi muito com ele tanto dentro como fora de campo. Está sendo uma experiência fantástica trabalhar com ele.

Como o Rogério Ceni contribuiu para a sua fase artilheira?

Ele soube armar muito bem a equipe. Ao longo do campeonato, perdemos peças importantes em diversos momentos, mas ele consegue trabalhar o time de maneira muito inteligente. No meu caso específico, em todos os momentos do ano ele foi fundamental. Se sou artilheiro do Brasil hoje é graças aos ensinamentos do Rogério. Todos sabem que tenho um bom aproveitamento em jogadas aéreas, mas com ele até gol de falta eu fiz. Só tenho a agradecê-lo.

Quais são os seus planos para 2019? Pretende voltar a jogar no Corinthians? 

A atual temporada ainda não se encerrou e estou focado apenas no tão desejado acesso do Fortaleza para Série A do Brasileiro. Quero, de certa forma, retribuir o apoio do torcedor para depois pensar em 2019. Muitas sondagens surgiram, mas tenho vínculo com o Corinthians. Vamos esperar encerrar a temporada e estarei à disposição da diretoria e da comissão técnica do Corinthians.

 

 

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