Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

'A expressão 'país do futebol' é só um slogan publicitário'

Se, por uma lado, há mais gente consumindo o esporte pelos diversos meios, há cada vez menos espaços livres para a prática

Rogério Baptistini, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 05h00

Introduzido no Brasil por uma elite e restrito ao seu núcleo, o futebol ganhou popularidade durante o século XX acompanhando a diferenciação social surgida como consequência da modernização econômica. Nos grandes centros urbanos, trabalhadores, muito deles imigrantes europeus, construíram as suas redes de lealdade em torno da prática do esporte. Os campos e os times se espalhavam pelos bairros e se confundiam com a história dos lugares. O esporte bretão cumpriu inegável papel socializador e seu roteiro foi, muitas vezes, o da ferrovia e das fábricas pelo País. 

O problema é que o momento passou. O cenário de oportunidade surgido para durante o século XX, no qual ensaiamos uma nova civilização e o futebol cumpriu importante papel socializador, se encerrou com o rearranjo na economia global e o império de sua dinâmica financeira. A sociedade de afluência do século XX já não existe e, diante da realidade imposta pela nova lógica do dinheiro, o futebol se tornou um negócio e o jogador uma espécie de commodity. As estruturas que permitiram a interiorização e a popularização conheceram o seu limite. Agora, ele é apenas um produto gerido por investidores no nível financeiro, moldado para agradar a um público que o consome como mais um produto de entretenimento.

O futebol se tornou muito caro e passou a ter “dono”, no sentido de que o dinheiro investido no negócio tem um dono privado. Assim, ele deixou de refletir a identidade formada nos lugares e de ser um elemento de socialização, criador de redes de lealdade. 

Pouco a pouco, com a mudança no padrão de desenvolvimento, as lógicas de pertencimento sofreram alterações profundas. O fim dos empregos regulares e das carreiras construídas nas mesmas empresas, as migrações internas e as alterações no perfil dos municípios, devido a esses processos, contribuíram para quebrar a relação cidade-clube.

O fato principal, contudo, é que o próprio futebol, em sua organização, se tornou um produto de entretenimento numa sociedade de consumidores. Os altos investimentos para ofertá-lo na escala compatível com o retorno esperado inviabilizam a existência de equipes profissionais na maioria dos municípios, a não ser como produtores de jogador de futebol como commodity.

O Brasil como país do futebol é cada vez mais um slogan publicitário, uma estratégia de marketing, relacionada ao negócio. Se, por uma lado, há mais gente consumindo o esporte pelos diversos meios, há cada vez menos espaços livres para a prática e, ao que parece, menos praticantes organizados em associações -de bairro, local de trabalho- com existência regular. O fato é que, como tudo em uma sociedade regida obsessivamente pela lógica do lucro, o futebol não escapou ileso.

*Análise de Rogério Baptistini, sociólogo da Universidade Mackenzie

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