Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

A falta do camisa 9 no Brasil

Será que estamos trabalhando bem nossos profissionais e os meninos que chegam para a base?

Muricy Ramalho*, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 04h00

Sem pedir licença ou avisar ao torcedor, enterramos o camisa 9 do nosso futebol, deixando o gol órfão, sem pai. Constatamos na Rússia, contudo, que seleções interessantes pegaram outro caminho e mantiveram a figura do centroavante de área, aquele “encarregado” de fazer os gols e que sempre nos caracterizou em Copas. Os finalistas da competição atuam com esse cara. A França tem Giroud. A Croácia, Mandzukic. Tem mais. A Espanha atuou com Diego Costa. A Bélgica, que eliminou o Brasil, tinha o fortão Lukaku. E a Inglaterra apostou em Harry Kane, que tem seis gols na disputa e mais uma partida para jogar – a disputa do terceiro lugar com os belgas.

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Tite procurou o seu homem de área, como ele mesmo confessou, mas não encontrou. Não achou no futebol um brasileiro sequer que atuasse dessa maneira. Empobrecemos, portanto, nesse sentido. Saudade dos grandes atacantes que vimos fazer história. Eles tinham faro e cheiro de gol. Acredito que a falta do camisa 9 tem a ver também com os esquemas táticos usados no Brasil nos últimos tempos. O que mais mandou o jogador de área para o banco de reservas foi o 4-2-2-2, com dois volantes, dois meias e dois atacantes, que passaram a sair da área, ter outras funções, atuar de forma mais aberta. Esse esquema também foi levado para as bases, matando na raiz o garoto que queria ser 9.

Isso nos levou a usar a expressão “falso 9”, que nada mais é do que renomear o atacante com outras funções. Ele saiu da área e passou a ser chamado de jogador moderno, ora estava na direita, ora na esquerda, às vezes até armando.

Mas aqui cabe a pergunta? Era isso mesmo o que deveríamos ter feito? Será que estamos trabalhando bem nossos profissionais e os meninos que chegam para a base? O fato é que os treinadores abriram mão desse camisa 9 porque os times no Brasil passaram a jogar de outra forma, com os dois atacantes de que falei.

 

Há uma outra situação. Como no futebol de hoje se marca muito forte, o 9 não pode mais ficar somente enfiado entre os zagueiros esperando uma bola para ser acionado. Ele tem de ajudar o time. Precisa sair da área para atrair a marcação e, assim, abrir espaços para os meias e segundo volantes, aqueles que se infiltram. E também para os extremos entrarem em diagonal. O Brasil fez isso algumas vezes na Rússia.

É claro que tudo é uma questão de escolha, refiro-me ao jeito que um técnico monta sua equipe, depois de observar o que o clube lhe oferece na temporada. Alguns treinadores no Brasil, diferentemente do que vimos nas principais seleções do mundo, preferem não trabalhar com o camisa 9, alguns por necessidade, outros por opção. Penso que deveriam insistir nesse tipo de jogador, tanto no profissional quanto na formação, nas categorias de base. Não descarto ainda o receio de muitos camisas 9 autênticos abrirem mão de suas características por temer deixar o time, perder lugar. E aí eles passam a jogar de outra maneira, fora da área. Muitos não conseguem conversar com seus técnicos sobre isso. Uma dica é procurar o auxiliar e explicar sua vontade, convencê-lo de que pode render mais dentro da área, como um tradicional 9. 

*EX-TREINADOR E COMENTARISTA DO SPORTV

 

 

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