Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão
Imagem Robson Morelli
Colunista
Robson Morelli
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A falta que a torcida faz

É muito triste e sem graça ver uma partida de futebol sem ninguém nos estádios

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

A retomada do futebol em algumas partes do mundo, após a paralisação devido à pandemia, escancarou a falta que a torcida faz. Os estádios vazios tornam a disputa fria e sem graça, muito mais parecida com um coletivo em dia de treino do que com uma disputa acirrada pela vitória. Basta ver os jogos do Campeonato Alemão, o primeiro na Europa a ser jogado após a covid-19, ou acompanhar neste mês os retornos das partidas em Portugal, Itália e Inglaterra, todos torneios nacionais com datas já marcadas de volta.

Não existe futebol sem torcida e isso está bastante claro nesse momento. Aos que defendem a segurança no futebol e as punições pelas brigas dos torcedores, como hooligans, barra bravas e torcidas uniformizadas, o recado atual que essa retomada nos mostra é que os jogos, de qualquer tamanho, precisam de público. Nunca a falta dos aplausos e das vaias foi tão sentida durante os 90 minutos como agora.

Decididamente, a torcida compõe a santíssima trindade do futebol, formada ainda pelos jogadores e arbitragem. Não há futebol sem essa composição. Daí a certeza de que é necessário prestar reverência a essa instituição que alegra e participa do espetáculo. Entoando seu gritos muito antes de as equipes entrarem em campo, tremulando suas bandeiras de tamanhos diversos e vestindo as cores do time do coração, os torcedores dão às partidas o sentimento que elas despertam nas pessoas, e não somente naquelas que estão dentro dos estádios. O som vindo da boca de cada um desses seguidores ecoa pelas transmissões de rádio e TV, é descrito nas páginas dos impressos e retratado nos sites noticiosos esportivos às vezes em tamanho igual ao de um gol.

Quem mais sofre com sua ausência nesse “novo normal” do futebol é o jogador, aquele que sempre soube que um gesto, um drible, uma tabela e, claro, um gol sempre mexeu com os sentimentos dos torcedores da sua equipe e disparou a ira dos oponentes, numa mistura de inveja (no bom sentido) e revanche. Quem não se lembra, por exemplo, do dia em que Ronaldinho Gaúcho foi aplaudido de pé dentro do estádio Santiago Bernabéu pela torcida do Real Madrid após levar seu Barcelona à uma vitória inconteste?

Pule os últimos 20 anos no futebol brasileiro, em que as torcidas uniformizadas caminharam na contramão de sua alegria, com brigas, confrontos e mortes, fazendo com que as autoridades tomassem medidas duras e de mais confrontos, com prisões e novas mortes, e regresse aos tempos em que os estádios do País eram divididos em cores diferentes, cada qual empurrando seu time para vitórias memoráveis, e se tem um futebol muito melhor. É preciso ainda entender melhor o ato de ontem dos uniformizados contra o governo que acabou em conflito.

A falta de solução e de controle para essas brigas burras e incompreensíveis tirou parte dessa torcida dos campos em São Paulo e ainda afastou muitas pessoas de bem das arenas.

Em 2018, a final da Libertadores entre dois rivais argentinos, Boca Juniors e River Plate, teve de ser disputada na Espanha porque foi impossível organizar a partida no país.

Mesmo os mais críticos à presença de torcedores nos estádios após tantas mortes, é preciso repensar a posição e encontrar alternativas. O caminho do confronto, rixas e vidas perdidas nunca foi o correto, muito menos agora, quando o mundo passa por uma nova realidade, enterra diariamente milhares de pessoas e acompanha unido a busca por uma cura do coronavírus que possa beneficiar a todos indistintamente. Se havia algum sentido brigar no futebol, certamente não existe mais. O futebol precisa ser repensado. As torcidas devem se respeitar pelo bem delas próprias, de sua existência e tradição, das pessoas comuns, mas, principalmente, pelo bem do esporte.

Tudo o que sabemos sobre:
futebolcoronavírustorcida

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.