Análise: Fifa precisa de um médico. Infantino é, no máximo, um homeopata

Gianni Infantino 'quer superar' recorde' de erros de Blatter

Philippe Auclair*, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2016 | 05h00

Vivemos numa era da inconsciência, quando fatos importam menos que opiniões, ou mesmo preconceitos. Brexit. Os debates Trump-Hillary. A Copa de 48 nações. Quarenta e Oito! O que não posso entender é por que não podemos ter um torneio com todos os membros da Fifa, incluindo Samoa Americana, Montserrat e outros. Assim não haveria discriminação e todos teriam fatia do bolo. Pense em todos os jogos que poderíamos mostrar a esse planeta em transe. Em todo o lindo dinheiro que poderia tirar das emissoras e patrocinadores.

Mas, espere. Não é esse o caso já hoje? Não seria o que chamamos hoje de Eliminatórias? Já não temos uma Copa do Mundo verdadeiramente global? Bem, de acordo com Gianni Infantino, não. O grande escritor britânico de futebol Brian Glanville dizia que Sepp Blatter tinha dez ideias por dia, das quais onze eram ruins. Bom, Gianni deu a si mesmo a meta de superar esse recorde. A Fifa precisa de um médico.

E Gianni é no máximo um homeopata. Ele quer diluir o que já é um evento inchado ao ponto de que não ficará nenhum traço do que o tornou grandioso. E ele fará as pessoas pagarem uma fortuna para engolir uma pílula do nada.

Mas a grande ideia não é o número de países participando da fase  “final” do torneio, mas o número de países onde as partidas podem ocorrer. Politicamente, faz sentido. Para Gianni, pelo menos. Caso contrário, Deus nos ajude.

O nível do futebol já está baixo suficiente. Eu recentemente assisti a uma compilação dos melhores gols de 1986. Ridiculamente incríveis. Compare com 2002, 2006, 2010 e 2014. A queda é clara, já que o padrão do futebol de clube é algo agora que não se pode mais replicar em torneios de seleção. E a resposta de Infantino a isso: vamos ter mais times. Vamos fazer ainda pior.

Expandir a Copa do Mundo tinha sentido em um momento: a Fifa tinha o dever de levar consideração a emergência do futebol africano. Também se pode defender a eliminação de uma ou duas vagas da quota da Uefa quando se vê que, nas Eliminatórias africanas para 2018, um grupo pode ter Argélia, Camarões, Nigéria e Zámbia, todos vencedores da Copa da África, enquanto a Inglaterra tem de lidar com Eslováquia, Eslovênia, Malta, Escócia e Lituânia.

Claro, ao menos que você ache, como eu, que é fantástico ter um grupo preliminar em que temos jogos que genuinamente importam, colocam seleções de primeira grandeza para se enfrentar. Com 48 times, adeus a tudo isso. E adeus à maravilhosa ideia de cada torneio estar associado com um país, com uma cultura de futebol e uma experiência única na vida dos torcedores.

1970 será para sempre sinônimo de México. 1990 de Itália, 2006 de Alemanha e 2014 do Brasil, seja qual for os sentimentos que você tenha sobre o que ocorreu. É uma questão de gosto, de provar diferentes cozinhas a cada vez, e não colocar tudo num pote só e servir a comida  sem gosto. Eu, pela primeira vez, não reservarei uma mesa nessa festa do nada.

*Escritor e colunista francês

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