Glyn Kirk/AFP
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A fortuna de Roman Abramovich comprou boa vontade e fez dele um alvo

Os bilhões do oligarca e suas conexões com o Kremlin lhe garantiram favores e status de elite no Ocidente. Agora sua fortuna o colocou na lista de sanções

David D. Kirkpatrick, Isabel Kershner, Rory Smith e Tariq Panja, The New York Times

15 de março de 2022 | 20h00

Enquanto as tropas russas se concentravam perto da fronteira com a Ucrânia no mês passado, o embaixador americano em Israel recebeu um apelo em defesa de Roman Abramovich, o mais famoso dos bilionários ligados ao presidente Vladimir V. Putin.

Líderes de instituições culturais, educacionais e médicas, juntamente com um rabino, tinham enviado uma carta pedindo aos Estados Unidos que não impusessem sanções ao russo – um grande doador – dizendo que a medida prejudicaria Israel e o mundo judaico. Dias depois, Abramovich e o Yad Vashem, o memorial do Holocausto, anunciaram uma parceria que um porta-voz da organização disse incluir uma doação de pelo menos US$ 10 milhões.

O pedido ao diplomata reflete o extraordinário esforço que Abramovich, 55 anos, fez nas últimas duas décadas para transformar sua fortuna russa em status de elite no Ocidente – comprando o time de futebol Chelsea, adquirindo casas de luxo em Nova York, Londres, Tel Aviv, St. Barts e Aspen, colecionando obras-primas modernas e contribuindo para instituições de artes do mundo todo. Com dois superiates, vários carros esportivos Ferrari, Porsche e Aston Martin e um jato particular 787 Boeing Dreamliner, Abramovich queria que todos soubessem que ele tinha chegado.

Mas agora a reação contra a invasão russa da Ucrânia está manchando o status que Abramovich e outros oligarcas gastaram tanto para alcançar. Na quinta-feira, as autoridades britânicas o colocaram em uma lista cada vez maior de russos sob sanções por seus laços estreitos com Putin.

Abramovich, cuja fortuna é estimada em mais de US$ 13 bilhões, foi impedido de entrar na Grã-Bretanha ou fazer qualquer negócio na ilha – interrompendo seus planos de vender seu time de futebol, proibindo-o de vender ingressos para jogos e até mesmo o impedindo de pagar para manter a eletricidade em sua mansão no oeste de Londres.

Oligarcas como Abramovich “usaram seus ganhos ilícitos para tentar lavar suas reputações no Ocidente”, disse Thomas Graham, estudioso da Rússia no Council on Foreign Relations. “Mas a mensagem dessas sanções é que nada disso vai protegê-los”.

Na sexta-feira, o Canadá anunciou suas próprias sanções contra Abramovich. Os Estados Unidos não impuseram sanções ao bilionário – até agora, pelo menos. Em comunicado explicando suas ações, o governo britânico disse que o empresário lucrara com transações com o governo russo e incentivos fiscais especiais. A declaração também sugeriu que uma empresa siderúrgica controlada por Abramovich poderia contribuir para a guerra contra a Ucrânia, “potencialmente” fornecendo aço para tanques russos. A empresa, chamada Evraz, disse em comunicado que a alegação não procede. Um representante de Abramovich não respondeu a um pedido de comentário.

“As mãos deles estão sujas de sangue do povo ucraniano”, disse Liz Truss, secretária de Relações Exteriores britânica, sobre os oligarcas sob sanções. “Eles deveriam abaixar a cabeça de vergonha”.

Michael McFaul, embaixador americano em Moscou durante o governo Obama, lembrou que, enquanto o governo Putin dizia desprezar os Estados Unidos e seus aliados, seu Ministério das Relações Exteriores estava sempre tentando ajudar os oligarcas ao seu redor, entre eles Abramovich, a obter vistos para que pudessem ingressar na elite ocidental.

“Do nosso lado, nós vínhamos jogando o jogo”, disse ele, ignorando os laços dos oligarcas com Putin e dando as boas-vindas a eles e a seu dinheiro.

Órfão ainda criança em uma cidade às margens do rio Volga, no norte da Rússia, Abramovich abandonou a faculdade e saiu do Exército Vermelho no final dos anos 1980, quando o líder soviético Mikhail Gorbachev estava abrindo novas oportunidades para a iniciativa privada. Abramovich mergulhou no comércio de tudo o que podia: bonecas, chocolates, cigarros, patos de borracha e pneus de carro.

Sua grande chance veio em meados da década de 1990, após o colapso da União Soviética, quando ele e um sócio persuadiram o governo russo a vender a empresa estatal de petróleo Sibneft por cerca de US$ 200 milhões. Em 2005, ele vendeu sua participação de volta ao governo por US$ 11,9 bilhões. Outros negócios se seguiram, entre estes a formação de uma gigantesca empresa de alumínio. Muitos envolviam o estado russo e alguns terminaram em litígios amargos.

Depois que assumiu a presidência em 2000, Putin rapidamente passou a dominar os empresários bilionários que haviam lucrado com as privatizações, mandando uma mensagem ao prender o oligarca mais rico e poderoso. Abramovich é um dos poucos pioneiros da elite que continua em seu círculo.

Enquanto Putin consolidava o poder, Abramovich foi governador de uma desolada província do nordeste de 2001 a 2008.

“Comecei cedo nos negócios, então talvez seja por isso que estou meio entediado”, disse ele ao Wall Street Journal em 2001 sobre seu interesse na região, dizendo que queria liderar uma “revolução rumo à vida civilizada”.

Mas, assim como outros oligarcas receosos do poder que o novo presidente tinha para criá-los ou destruí-los, Abramovich também começou a procurar pontos de apoio fora da Rússia.

A demonstração de força de Putin “aumentou o incentivo para os oligarcas serem aceitos no Ocidente”, disse Stephen Sestanovich, professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia e ex-embaixador geral na antiga União Soviética. “Quem sabe quando você vai brigar com Putin e precisar de um outro lugar para viver?”

Na primavera de 2003, Abramovich estava em Manchester, na Inglaterra, e viu o lendário atacante brasileiro Ronaldo marcar um hat-trick pelo Real Madrid. O russo nunca tinha demonstrado muito interesse pelo futebol, mas, naquela noite, ele se apaixonou.

Logo depois, ele foi às compras para adquirir um time – procurando na Espanha e na Itália antes de se decidir pela Inglaterra e, finalmente, pelo Chelsea. Sua aquisição de US $ 180 milhões – concluída em conversas rápidas e furtivas com o financista britânico Keith Harris em um único fim de semana – transformou o clube. No seu primeiro verão, ele fez a maior farra de compras de jogadores que o futebol inglês já tinha visto.

Dois anos depois de sua chegada, o Chelsea foi campeão inglês pela primeira vez em meio século e, desde então, o time conquistou mais quatro campeonatos. Uma bandeira russa tremula diante do estádio há anos, estampada com as palavras “O Império Romano” (alusão ao primeiro nome do magnata) e uma imagem estilizada do rosto de seu dono. (A Grã-Bretanha disse na sexta-feira que está avaliando propostas para a venda do time de futebol sob condições especiais).

Em uma coletiva de imprensa quando a Rússia ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2018, Putin elogiou Abramovich pelo desenvolvimento do futebol russo e sugeriu que ele poderia desempenhar um papel importante em “uma parceria público-privada” para organizar o torneio. “Ele tem muito dinheiro em ações”, observou Putin, sorrindo.

Enquanto cuidava de seu time de futebol em Londres, Abramovich conheceu e se casou com sua terceira esposa, Dasha Zhukova, filha de um magnata do petróleo russo, que tinha passado parte da juventude em Los Angeles, estudado literatura russa na Universidade da Califórnia e tentado carreira em design de moda em Londres.

Em 2011, Abramovich comprou uma elegante mansão de 15 quartos perto do Palácio de Kensington por um preço calculado em mais de US$ 140 milhões. A mansão foi reformada anos depois para incluir uma enorme piscina subterrânea.

Em 2014, ele voltou suas atenções para Manhattan, pagando US$ 78 milhões por três casas adjacentes na East 75th Street, dentro de um distrito histórico do Upper East Side. Ele propôs combinar as três casas de estilos diferentes em uma única megamansão, com elevador, uma nova fachada de vidro e bronze e uma piscina no nível inferior. O Historic Districts Council, um grupo de defesa, qualificou o plano como “um nível totalmente novo de consumo ostentatório”. Mas, no fim, Abramovich conseguiu a aprovação da cidade comprando uma quarta casa adjacente por quase US$ 29 milhões e revisando seus planos de reforma.

Zhukova desenvolveu um crescente interesse por arte e, em 2008, ela e Abramovich fundaram o Garage, um centro de arte contemporânea em Moscou. (Amy Winehouse se apresentou na abertura, e as primeiras exposições exibiram obras de Cindy Sherman e Jeff Koons). Ele passou a integrar a diretoria do Teatro Bolshoi. E começou a ganhar reputação como um dos maiores esbanjadores do mundo da arte, conhecido por comprar peças de artistas de primeira linha. Ele gastou quase US$ 120 milhões em leilões na mesma semana, adquirindo um tríptico de Francis Bacon e o quadro ‘Benefits Supervisor Sleeping’, de Lucian Freud.

A uma figura do mundo da arte de Nova York a compra mais pareceu “uma compra de troféu para colecionar”. “É como quando você vai à casa de um caçador”, disse Todd Levin, consultor de arte. “Aí tem o elefante na parede, o rinoceronte, o tigre, o leão”.

Embora raramente tenha dado entrevistas, Abramovich foi fotografado muitas vezes ao lado de ricos e famosos em lugares da moda do mundo todo. Suas festas de Ano Novo em sua propriedade na ilha francesa de St. Barts – avaliada em US $ 90 milhões, com cerca de 30 hectares — viraram manchetes de tabloides. Certa vez, Paul McCartney se juntou aos Killers para cantar o clássico dos Beatles ‘Helter Skelter’. Entre as atrações musicais de outros anos se encontravam Red Hot Chili Peppers e Prince.

Abramovich e Zhukova se divorciaram em 2019, e ele transferiu para ela as casas em Nova York, além de dois apartamentos próximos, por US$ 92 milhões, segundo registros públicos. Ela mora na cidade com seus dois filhos – ele tem sete ao todo. Zhukova é membro do conselho do Metropolitan Museum, uma das principais posições na filantropia de Nova York, e marca presença constante nas cenas de arte e moda da cidade. Na sua rede de amigos se encontram Ivanka Trump, filha do ex-presidente Donald J. Trump; Jared Kushner, genro e conselheiro do ex-presidente; Josh Kushner, irmão de Jared e investidor; e a esposa de Josh, a modelo Karlie Kloss.

Na quinta-feira, Zhukova se distanciou de Abramovich. “Dasha seguiu em frente com sua vida e está feliz no novo casamento”, disse um porta-voz de Zhukova em comunicado. Ela emitiu uma segunda declaração, mais pessoal, denunciando a invasão russa como “brutal”, “horrível” e “vergonhosa”.

“Como pessoa nascida na Rússia, condeno inequivocamente esses atos de guerra e me solidarizo com o povo ucraniano”, disse Zhukova.

Abramovich vem se esforçando para escapar do estigma da associação com Putin. Em 2018, depois que espiões russos envenenaram duas pessoas na Grã-Bretanha, as autoridades britânicas atrasaram a renovação de seu visto, supostamente buscando revelações adicionais sobre seus negócios.

Ele então se voltou para Israel, onde seu status de judeu lhe garante cidadania. Abramovich agora é dono de mansões em Tel Aviv e na cidade litorânea de Herzliya. O jornal Haaretz o classifica entre as pessoas mais ricas do país.

Também em Israel os grandes gastos de Abramovich ganharam destaque. Ele doou US$ 30 milhões para a Universidade de Tel Aviv em 2015 e, desde então, doou dezenas de milhões de dólares ao Sheba Medical Center, segundo um funcionário do hospital.

Ele também doou mais de US$ 100 milhões para uma organização de colonos israelenses. No ano passado, uma investigação do serviço árabe da BBC News descobriu que empresas controladas por Abramovich haviam doado esse dinheiro para a City of David Foundation, que compra propriedades palestinas e transfere judeus como parte de um esforço para reforçar a reivindicação de soberania de Israel.

Em novembro passado, o presidente de Israel, Isaac Herzog, voou para Londres para a abertura de uma exposição sobre o Holocausto que Abramovich financiou no Imperial War Museum. Ele disse que o russo era “um exemplo reluzente de como times e esportes podem ser uma força do bem”, citando as faixas “Diga Não ao Antissemitismo” que o Chelsea exibe nos jogos.

Quando surgiram relatos do recente apelo aos Estados Unidos para não sujeitar Abramovich a sanções, Dani Dayan, presidente do Memorial do Holocausto Yad Vashem e ex-diplomata, inicialmente defendeu a carta.

“Não vejo nenhuma razão para rejeitar a doação de um judeu, um cidadão israelense, uma pessoa que há uma década está comprometida com causas muito nobres”, disse ele. Ele “não era juiz” e não estava ciente de qualquer irregularidade de Abramovich, acrescentou Dayan.

Mas, depois que a Grã-Bretanha impôs sanções contra Abramovich, o memorial israelense do Holocausto disse que estava suspendendo seu relacionamento com ele. Um porta-voz se recusou a dizer se o memorial recebeu alguma doação multimilionária. “À luz dos desdobramentos mais recentes”, disse a organização em breve comunicado, “o Yad Vashem decidiu suspender a parceria estratégica com Roman Abramovich”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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