Nilton Fukuda/Estadão
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A função da base

Os clubes pensam de forma equivocada: ganhar torneios não interessa nesta idade

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2018 | 04h30

Quando era criança, joguei em dois times de várzea: São Jorge e Roque de Morais. Éramos garotos que adoravam jogar futebol. Queríamos ganhar todas as partidas que disputávamos para poder contar sobre nossas vitórias aos nossos pais. Claro, sempre aumentando um pouco a parte que nos cabia em campo.

Jogar era o que nos movia e nos motivava, mas por trás do futebol havia duas outras missões dos nossos treinadores com a garotada do bairro. A primeira era, junto com os treinos e jogos dos nossos campeonatos, nos forçar a estudar, porque só podia disputar o campeonato quem tinha todas as notas azuis – nota vermelha era gancho. Tínhamos de mostrar os boletins da escola regularmente. Havia até um ditado popular: bom de bola, bom na escola.

A segunda missão daquele nosso futebol comprometido de infância era nos divertir, fazer amigos, respeitar e ganhar o respeito dos colegas, crescer com alguma disciplina, comungada por um objetivo único. É claro que não sabíamos nada disso, nem dávamos valor algum para essas coisas. Queríamos mesmo é começar o jogo como titular, ou então pelo menos entrar durante a partida e ganhar, sempre alimentando o sonho de um dia virar jogador profissional, de um grande clube do futebol brasileiro, o que, como podem imaginar, não aconteceu comigo.

Naquela época, os clubes de futebol eram algo distantes da nossa realidade. Éramos apenas os meninos da rua Ventura Rangel, na Vila Palmeiras, zona norte de São Paulo, pertinho do Bairro do Limão. O que tínhamos mais próximo do futebol de verdade era o Gouveia, filho do seu João do Bar, que conseguiu jogar na Portuguesa. Chegou a marcar Sócrates num jogo contra o Corinthians.

Hoje, as bases dos clubes trabalham para ganhar partidas, erguer taças e festejar as conquistas com suas torcidas, que são as mesmas dos seus respectivos times profissionais. Isso é um tremendo equívoco dos responsáveis pela formação da garotada. Dinheiro jogado fora. Não é essa a função.

As bases deveriam trabalhar para formar jogadores profissionais. Só isso. Servir o time de cima. Entregar para as categorias subsequentes, até bater no profissional, jogadores prontos em todas as posições, com todos os fundamentos ensaiados. Por isso sempre defendi que essa garotada fosse treinada por nomes de peso do nosso futebol, como Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Telê Santana... profissionais detalhistas, com responsabilidade em formar e capazes de ensinar.

Jogar para ganhar antes do profissional não interessa. Quando Vinicius Junior chegou ao Real Madrid, o ex-flamenguista foi mal avaliado. Não sabia chutar com os dois pés, era ruim de cabeceio, nada entendia de tática e corria errado no gramado. Se tivesse feito a base como manda a cartilha, teria subido mais bem preparado.

É inadmissível um time profissional ter de ir ao mercado sem antes perambular pelas bases do clube à procura de suas próprias joias. Meu pai me dizia que muitos corintianos iam mais cedo ao Pacaembu e ao Morumbi para ver um garoto jogar no time de aspirantes, antes das partidas oficiais do time. Seu nome era Roberto Rivellino. Os Rivellinos estão por aí, só precisam ser encontrados e lapidados. Os ‘professores’ das bases precisam ensinar os fundamentos do futebol e não montar equipes de meninos para ganhar títulos.

É muito bom ganhar, todos sabem. Aqueles meninos do São Jorge e do Roque de Morais ganhavam alguns campeonatos, festejavam em uma pizzaria, mas, com exceção do Gouveia, nenhum outro conseguiu virar um jogador de futebol profissional. Os meninos que estão nas bases dos grandes clubes do Brasil precisam ter foco no que querem. Os técnicos têm de treinar para formar. Os dirigentes devem cobrar mais entrega, de modo a subir jogadores mais bem preparados, de todas as posições, o ano inteiro. Por isso que os clubes precisam ter um jeito de jogar e apostar neste jeito em todas as divisões. Nosso futebol precisa amadurecer nesse sentido. E tem de ser em 2019.

 

 

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