Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A grande diferença

Por que temos tanta dificuldade em vencer times argentinos, seja aqui ou lá?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2017 | 04h00

Assisti aos dois jogos Corinthians e Racing, o primeiro aqui, o segundo no famoso El Cilindro, em Buenos Aires. Pude observar friamente os jogos, pois não torço para nenhum deles, e minha conclusão em primeiro lugar, sem patriotada ou nacionalismo, é que o Corinthians é muito melhor que o Racing. Tem melhores jogadores e, efetivamente, jogou melhor que o Racing nos dois jogos. 

Por que então não ganhou? Dessa pergunta evoluí para outra: por que temos tanta dificuldade em vencer times argentinos, seja aqui como lá? Sejam times famosos e tradicionais, sejam quase desconhecidos e que assim mesmo nos dão trabalho e nos colocam sempre em dificuldades enormes. 

Tirando explicações racistas, vulgares e sem sentido, que eles, aliás, por vezes utilizam, é preciso reconhecer que o futebol argentino é unanimemente considerado muito bom. Mas será melhor do que o nosso? Eles também sofrem tremendas perdas de jogadores que se vão para a Europa, exatamente como nós. Levamos, ou deveríamos levar, uma vantagem adicional, pois temos um País de tamanho muito maior que a Argentina e sem comparação quando se trata de quantidade de população. Deveriam os times daqui levar alguma vantagem nos confrontos, o que não ocorre. 

De qualquer forma, apesar de nuances significativas entre os dois países, é muito difícil responder à pergunta que eu mesmo me propus. Vou arriscar, no entanto, um palpite, tão válido como qualquer outro, mas, creio, não de todo despropositado. A diferença é o que ocorre fora do campo. Explico: a diferença está nas arquibancadas. 

É só comparar uma arquibancada argentina com uma brasileira. Vamos a esses dois Corinthians e Racing recentes. Havia público quase igual nos dois estádios, mais ou menos quarenta mil pessoas, mas a diferença era impressionante. Não há como descrever exatamente. É preciso estar atento aos sons e imagens desde a entrada em campo dos times. A entrada em campo do Corinthians é um momento animado e festivo, a entrada em campo do Racing em Avellaneda é uma experiência alucinante, virtualmente indescritível. Um imenso barulho não de vozes desencontradas, mas de cantorias previamente elaboradas e possivelmente cantadas há muitas gerações, dá a impressão, e possivelmente não é só impressão, que todo o estádio está cantando a uma só voz. Além disso, os torcedores nunca estão imóveis, estão sempre em pé, pulando juntos, ainda que no mesmo local. Sem nunca parar de cantar.

Mudam apenas quando, de um canto constante, alto e ininterrupto, se erguem até momentos de barulho ensurdecedor quando algum lance parece importante. Nunca estão calados. 

E não é só o Racing, é qualquer torcida de qualquer equipe argentina, grande ou pequena. As maiores torcidas brasileiras, com todo o respeito, não chegam nem aos pés disso. Nem a torcida do Flamengo, nem a do Corinthians, muito menos todas as demais. Essa talvez seja a razão principal das dificuldades contra equipes argentinas. Os jogadores se matam em campo para se mostrar à altura das arquibancadas, para ser dignos do que ouvem e vêm. 

Mesmo longe, quando jogam aqui no Brasil, não se intimidam. Parece que são alcançados por ecos de cantos longínquos que chegam de Buenos Aires, uma espécie de lembrança interior inesquecível que os impele para frente. Mesmo sem ouvir, ouvem. E dão trabalho aqui. Nunca invejei a torcida argentina. Estava satisfeito com a nossa maneira de torcer. Gostava da torcida ranzinza do Palmeiras, sempre ameaçando distribuir vaias a qualquer momento. Ou a torcida altiva e, se preciso, bastante distante do São Paulo, exigindo a bola no chão. Mas aqui, parece, tudo mudou. Na Argentina, não. 

Tudo o que sabemos sobre:
Corinthiansfutebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.