Eduardo Munoz/Reuters
Eduardo Munoz/Reuters

A grande fonte de talentos do futebol está secando. Por que?

Argentina tem exportado cada vez menos jogadores para o futebol europeu

Rory Smith , The New York Times

10 de outubro de 2020 | 10h00

Ángel Di María nunca voltou para casa. O verão de 2007 foi muito bom. Ele estava com 19 anos e havia passado um mês no Canadá representando seu país no Mundial Sub-20. Seu desempenho foi excelente, marcando três gols, como também o do seu time. Como ocorreu em 1995, 1997, 2001 e 2005, a Argentina venceu aquele torneio.

O sucesso foi tamanho que, quando o avião trazendo a equipe de volta para Buenos Aires, aterrissou, Di Maria mal passou pelo controle de passaportes e “já embarcou em outro para a Europa”, disse o técnico Hugo Tocalli. “Diretamente”.

A primeira parada de Di María foi o Benfica, etapa inicial de uma jornada que o levou para o Real Madrid, o Manchester United e agora o Paris Saint-Germain. Ele não foi o primeiro membro desse jovem time a cruzar o oceano. Três companheiros seus, incluindo Sergio Agüero – já haviam sido contratados por clubes europeus. E também não foi o último: dentro de um ano, nove jogadores da equipe de Tocalli deixaram a Argentina.

“Todas as vezes ocorria a mesma coisa”, disse Tocalli que fez parte das equipes técnicas em todas as cinco vitórias da Argentina em campeonatos naquele período. “Fomos para o Catar e voltamos campeões. Fomos para a Malásia  e vencemos o campeonato,. E depois de cada vitória os jogadores iam para a Europa e acabavam jogando na equipe nacional de seniores.”

Quando ele lista os nomes não é difícil saber a razão: Walter Samuel, Esteban Cambiasso, Pablo Aimar da edição de 1997; Nicolás Burdisso, Maxi Rodríguez e Javier Saviola, em 2001; Fernando Gago, Pablo Zabaleta e, claro, Lionel Messi, da equipe que venceu o Mundial em 2005.  A Argentina, naqueles anos, tinha uma fonte inesgotável de adolescentes tremendamente talentosos prontos para conquistar o mundo.

Tocalli ainda trabalha no desenvolvimento de jovens jogadores, como parte da equipe técnica no San Lorenzo. E ainda está de olho em inúmeros jogadores que prometem, confiante de que a Argentina produzirá jogadores excelentes. “Ainda temos talentos aqui. Ainda há jogadores”.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Ainda temos talentos aqui. Ainda há jogadores
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Hugo Tocalli, técnico campeão mundial sub-20

Pode ser, mas alguma coisa mudou. Há uma década, 47 jogadores argentinos estavam na Série A da Itália. Este ano foram apenas 24. 

Em 2014, a Premier League tinha 23 argentinos; nesta temporada caiu para 11. E, como observou o jornalista Juan Pablo Varsky, cerca de metade deles, - Agüero, Willy Caballero e Sergio Romero entre eles – estão no outono das suas carreiras. Seus herdeiros ainda precisam se materializar. A Europa tem contratado jogadores mais rápido do que a Argentina conseguiu desenvolver. E ao que parece agora sua linha de produção está paralisada.

Julgando o que você não consegue ver 

Há alguns anos, dois olheiros do Copenhague, importante clube dinamarquês, foram para Avellaneda – cidade ao sul de Buenos Aires, para sondar jovens promessas do Racing. O único problema foi que não sabiam exatamente como chegar no estádio.

Na Europa, existe um acordo no sentido de disposições especiais para esses caça-talentos, como ingressos em áreas que dão uma boa visão do campo, normalmente entre seus pares, ou em espaços mais tranqüilos do estádio como os que abrigam diretores ou a imprensa. Na Argentina, essa pesquisa de talentos sempre é um pouco mais complexa. 

No final, os dois olheiros dinamarqueses – cujos telefonemas e e-mails para o clube não tiveram resposta – não tiveram outra escolha senão comprar ingressos e se sentarem entre os torcedores atrás do gol. Que não é de modo nenhum o melhor lugar para avaliar um candidato potencial.

O incidente inspirou o Racing a facilitar a visita dos olheiros, mas o coordenador do clube Diego Huerta diz que ainda é complicado para eles assistirem jogos ao vivo na Argentina. O que contrasta com a Europa e muito mais com seu rival no continente, o Brasil.

O Brasil, em parte por causa da história e em parte devido ao tamanho do território, tem sido um grande exportador de jogadores. Em maio, estudo do CIES Football Observatory mostrou que há 1.535 brasileiros jogando futebol profissionalmente fora do país. A Argentina nunca conseguiu chegar a um número tão alto, mas há pouco tempo chegava perto.

Em 2014, a Argentina vendeu mais jogadores para o exterior do que o Brasil. Nos anos anteriores, o Brasil estava na frente, mas a diferença era pequena. Agora, com a produção da Argentina entrando em colapso, o CIES concluiu que ela exportou apenas 78 jogadores e o Brasil aumentou o número novamente.

As pessoas envolvidas em recrutamento na Europa atribuem isto a duas tendências. Uma é o padrão do treinamento dos jovens no Brasil, que muitos acham que está no mesmo nível do que existe na Europa. O outro é a relativa facilidade para realizar negócios com os clubes brasileiros. “Eles o convidam, mostram a academia, oferecem café, falam a você sobre os jogadores”, disse o encarregado de recrutamentos de um importante time europeu.

Expandindo os horizontes

Muitas diretorias de clubes importantes possuem software de recrutamento codificado, uma lista comparando as forças relativas de dezenas de ligas no mundo. Em muitas listas, a Premier League e La Liga disputam a supremacia. A Alemanha costuma ficar em terceiro lugar.

A lista funciona como algo entre um caderno de notas e uma equação, uma maneira de avaliar os méritos dos jogadores através dos países e contextos. Se um time está examinando dois atacantes, um na França e outro em Portugal, a lista permite comparar o perfil de dados de um jogador com o do outro.

A empresa de analítica 21st.Club – que fornece dados e insights para inúmeros clubes de futebol da Europa – tem seu próprio modelo. O Campeonato Brasileiro está em sexto lugar; o da Argentina em oitavo. “Classificamos os melhores times da Argentina como marginalmente melhores do que os do Brasil, mas existe uma força maior no topo do futebol brasileiro”, disse Omar Chaudhuri, diretor da área de inteligência da empresa.

Para os recrutadores, isso torna o Brasil um mercado mais fácil para trabalhar. “As ligas com um diferencial de qualidade podem ser mais difíceis em termos de recrutamento”, disse ele. “Quando você assiste um Boca Juniors, digamos, jogando contra um oponente fraco, fica difícil avaliar o quão impressionante realmente é o desempenho individual de um jogador”.

Um problema que foi exacerbado em 2015, quando a liga argentina aumentou para 30 equipes. Embora o número tenha sido reduzido agora para 24, deve subir de novo em resposta ao impacto financeiro da pandemia do coronavírus.

“É impossível que o nível não caia”, disse Huerta referindo-se ao tamanho da Liga. “Quando as equipes vêm os jogos aqui, elas têm de ver oito ou 10 clubes e além disto o nível é realmente baixo”.

É como o problema é visto na Argentina, como o resultado, pelo menos em parte, do próprio modo de condução do país. Huerta aponta para vários fatores - que vão dos problemas econômicos que obrigam os clubes a cortarem orçamentos, à perda de Tocalli e do seu mentor José Pékerman, antes dele, no sistema do futebol juvenil do país. Tocalli se queixa da falta de previsão dos times da Superliga.

Ao mesmo tempo, a Europa industrializou seu próprio processo de desenvolvimento de jovens jogadores. “No passado, não havia jogadores alemães, jogadores ingleses, ou espanhóis deste nível”, disse Huerta.

O futebol europeu se voltava para a Argentina e o Brasil em busca da mágica que não tinha. Agora ele tende a se abastecer de jogadores “combativos” na América do Sul. Talento? Ele desenvolve por conta própria.

Huerta espera que a queda nas exportações argentinas seja apenas um declínio temporário, uma lacuna natural antes de novos jogadores começarem a surgir novamente. “Há uma geração interessante de jogadores por aqui, de 15,16, 17 anos”, disse ele.

Tocalli está certo neste sentido: a Argentina nunca parou de produzir jogadores. O fato é que, atualmente, a Europa não necessita tanto deles. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.