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Antero Greco
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A grande rivalidade

Não há o que se compare à emoção de um Corinthians x Palmeiras, o dérbi centenário

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 03h00

A Ponte mereceu chegar à decisão do Paulista. Esse aspecto nem entra em discussão agora, mesmo se a situação lhe tenha ficado escalafobética, após a trombada da semana passada, com os 3 a 0 que levou em casa. Admito que vi com simpatia a possibilidade de enfim chegar a taça inédita, que em contrapartida abunda pelos lados do Parque São Jorge (27 vezes). Mas a final, na tarde de hoje, seria mais emblemática se, além de Corinthians, dela participasse Palmeiras.

De novo: nenhuma restrição ao sonho da Macaca, que a esta altura parece um bocado distante. Que não esvoace dúvida a respeito. Um dérbi que valesse título viria a calhar, um dia após completar 100 anos de existência. Isso: há um século, desde 6 de maio de 1917, que Sport Club Corinthians Paulista e Sociedade Esportiva Palmeiras (nascida Palestra Itália) esparramam emoção para milhões de torcedores toda vez que se encontram.

A primeira foi num domingo, valia pelo Campeonato Paulista e terminou com vitória palestrina por 3 a 0. As duas equipes eram crianças: o Corinthians estava com 7 anos, o Palmeiras tinha 3. Dali em diante, foram centenas de duelos, cada um especial, único, memorável. Até aqueles que ficaram em 0 a 0 chinfrim mexeram com as pessoas.

O encontro de alvinegros e alviverdes no início bulia só com a cidade, uma São Paulo que ensaiava sair do provincianismo e que tinha forte sotaque italiano. Depois, estendeu-se para o Estado, enveredou pelo Brasil e ganhou mundo. Ambos decidiram torneios domésticos, nacionais e, em capítulos mais recentes, até travaram batalhas épicas na Taça Libertadores. Como esquecer, para o bem ou para o mal, o pênalti de Marcelinho Carioca que Marcos defendeu, na semifinal de 2000 do campeonato sul-americano? 

Não importa a idade, cada palmeirense, cada corintiano tem suas lembranças de ao menos um dérbi. Bisavôs divagam em torno da final do Paulista do 4.º Centenário, vencido pelo Corinthians no comecinho de 1955. Há avôs que se lembram do gol de Ronaldo, em 1974, que fez a alegria do Palmeiras e aumentou para 20 anos o jejum do rival. 

O Palmeiras fechou secura de títulos em 1993, com 4 a 0 no Corinthians, com shows de Evair, Edmundo, Edilson e outros astros. Houve a decisão de 1995, com o gol coroado de Elivelton, na prorrogação, que deu a vitória por 2 a 1 ao Corinthians e o direito da volta olímpica. Entre um Paulista e outro, ocorreu a final do Brasileiro de 1994, com predomínio verde. E por aí vai. Cada um puxe um dérbi pela memória – certamente voltarão à tona episódios intensos.

Santos e São Paulo são extraordinários, e não por acaso completam o quarteto gigante do futebol paulista. Fora a rivalidade entre si, também têm epopeias nos pegas com Corinthians e Palmeiras. Ficou famoso o tabu dos anos 60, em que o Santos de Pelé sobrava diante do Corinthians. Como também eram lindos os clássicos entre santistas do Rei com os palmeirenses do divino Ademir. Nas últimas décadas cresceu – até fora do bom senso – o atrito entre tricolores e alvinegros.

Santos e São Paulo não devem sentir-se diminuídos, nem excluídos. Mas nada se compara a Palmeiras x Corinthians. Porque trazem diferença de origem, de raiz. Irmãos separados, com ciúme um do outro. Porém, este não vive sem aquele; se respeitam, têm necessidade da existência recíproca. O que seria do Corinthians sem o Palmeiras? Qual a graça do futebol para o palmeirense, se não houvesse mais corintianos? Seria o vazio, o caos. A noite eterna e escura cairia sobre o futebol.

Reverência carinhosa aos milhares de atletas que entraram em campo no dérbi. Obrigado às duas equipes por fazerem nosso sangue ferver. E, palmeirense, sei não, hoje está com todo jeito de festa corintiana. Você sabe... e ainda assim vai secar?!

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