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A Grécia, 12 anos depois

O futebol tira e o futebol devolve. O futebol tirou uma Eurocopa de Portugal em 2004, disputada em casa, conquistada por uma valente e retrancada Grécia, que destruiu o sonho e a semente da esperança semeada por Felipão 12 anos atrás. 

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 05h00

Neste domingo, no Stade de France, Portugal era a Grécia da França, não pelo futebol defensivo, embora tenha vencido apenas uma partida no tempo normal durante a competição na França, mas pela improbabilidade da conquista do título, o mais importante da história da seleção.

O time de Fernando Santos não estava entre os favoritos, conseguiu uma classificação sofrida, em terceiro lugar na fase de grupos, graças a empates contra Islândia, Áustria e Hungria. Foi claramente beneficiado pelo inchaço da Eurocopa, agora com 24 equipes. Mas o futebol tem dessas coisas!

A tabela ajudou, enviou os portugueses para o lado mais leve do mata-mata e alimentou a história. Felipão acompanhou a partida na China e enviou mensagem parabenizando os novos campeões europeus e seus 11 milhões de habitantes.

Não existe no grupo francês ninguém com o futebol do tamanho de Cristiano Ronaldo, que deixou o campo contundido no primeiro tempo. O time de Deschamps, porém, é muito bom, deve crescer nas eliminatórias para o Mundial da Rússia, em 2018, e provavelmente será considerado um dos favoritos.

Portugal conquistou o título mais importante de sua história sem seu principal jogador em campo, ao menos na final. A seleção estava a quilômetros de ser vista como potência desta Euro. Cristiano Ronaldo é um dos maiores jogadores da história do futebol, mas dificilmente encontrará um grupo capaz de se aproximar dele. 

O Stade de France não costuma tratar bem os Ronaldos. Na final da Copa de 1998 viu o Fenômeno fora do eixo depois de uma convulsão até hoje muito mal explicada. E agora aconteceu com Cristiano, sem poder participar, transformado em motivador, no banco de reservas.

As dores e a instabilidade no joelho esquerdo do craque poderiam ter arrebentado sua equipe, pela importância técnica e pela liderança. Difícil com ele, impossível sem ele. Mas não foi assim. A seleção portuguesa demonstrou maturidade, reconheceu suas limitações e preparou-se para levar a decisão à disputa de pênaltis, se fosse o caso. Só não poderia permitir que a França se sentisse confortável.

O gol de Éder no segundo tempo da prorrogação é o símbolo de uma conquista épica, não do bom futebol. Portugal venceu quando não merecia, quando as circunstâncias indicavam apenas uma participação, jamais a disputa do título. Mesmo com CR7. A Eurocopa não mudará o time de patamar. Cristiano permanecerá o líder técnico e espiritual de uma geração que agora possui uma enorme conquista, algo que Lionel Messi, seu grande rival em gramados europeus, ainda não conseguiu pela seleção argentina.

Esvaziada de bom futebol, a tarde de domingo no Brasil transformou a final da Eurocopa no melhor programa que poderíamos ter. Claro que isso só acontece por aqui. Nunca a tabela do Campeonato Espanhol se livraria de Real Madrid ou de Barcelona para transmitir a final da Copa América. 

Os ingleses abririam mão de alguns de seus gigantes para acomodar uma disputa tão distante? A resposta é não, até porque o calendário não permitiria essas coincidências. O fuso horário ajuda, e a nossa carência facilita esses arranjos. Queremos bom futebol e não descartamos nenhuma oportunidade de encontrá-lo.

O jogo deste domingo veio com uma boa dose de surpresa e alegria para muitos brasileiros que torceram pela seleção portuguesa, pela proximidade histórica e pelo craque. Ontem, Cristiano chamou a atenção pela ausência e não pela presença.

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