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A gritaria

Coisas estranhas no futebol sempre aconteceram, desde o tempo em que se falava que “o juiz estava na gaveta”. Eram tempos um pouco mais elegantes, em que se preferia usar a delicada palavra “gaveta” em lugar de expressões como roubo, furto, assalto. Mas na cabeça do torcedor nunca houve dúvida: todos estavam de acordo de que havia mutretas no futebol. 

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2015 | 03h00

Como, com o passar dos anos, ficou bem claro que o problema jamais seria solucionado, num expediente bem brasileiro ele foi absorvido e incorporado às coisas do futebol. A vantagem do futebol brasileiro é que aqui sempre soubemos quem jogava bola, independentemente do time para o qual se torcia. As grandes equipes sempre foram reconhecidas e reverenciadas por torcedores de outros times. 

Dessa forma os erros, mutretas e sacanagens tinham pouco efeito contra os timaços. A sacanagem ficava restrita, digamos, a um plano médio, entre times medianos, quase nas sombras. O futebol jogado entre os grandes parecia maior do que a corrupção. 

Qual arbitragem poderia deter times como o Santos e o Botafogo dos anos 60, o Palmeiras dos anos 70, o Flamengo dos anos 80, o São Paulo dos 90? Fora o Internacional, o Cruzeiro, Vasco e Fluminense, de tantas conquistas durante todas essas épocas? Por muito tempo a dúvida sobre complôs e armações ficou soterrada pela qualidade. Aliás, uma qualidade também dos árbitros. Armando Marques, por exemplo, protagonizou decisões que ultrapassam em muito o que se está vendo no atual Campeonato Brasileiro. Apesar disso ninguém punha em dúvida sua honestidade pessoal.

Seus erros eram apenas erros de um árbitro de primeira classe. É claro que no futebol menos visível continuavam episódios obscuros e pouco explicáveis. Mas quem se importava com o futebol menor, representados por equipes de alguma forma um pouco afastadas dos holofotes da mídia? 

De repente a coisa mudou muito. Já não há grandes equipes, equipes cuja qualidade reconhecida por todos justifica os resultados. As equipes são todas medianas, todas rebaixadas, portanto, àquele segmento no qual as coisas estranhas continuavam acontecendo sem que ninguém desse maior importância. Exemplifico: quando erros começam a acontecer atingindo não as vítimas de sempre, mas algumas equipes com grande presença na mídia, há um alvoroço geral. 

Para ser mais específico, quando qualquer equipe grande é tratada como sempre se tratou a Portuguesa ou Ponte Preta, por exemplo, há uma grita geral, e, claro, surgem as ideias de complô e a velha “gaveta”.

É evidente que se tratam de providências para justificar a fraqueza do futebol atual, que já não tem craques nem times para ser maior do que a corrupção. E nessas circunstâncias o árbitro passa a ser vital. Desse rebaixamento de nível, como causa primeira de toda essa celeuma dos juízes, quase ninguém trata. Parece que tudo começou agora. No entanto, quantas vezes na minha vida vi a Portuguesa ser claramente prejudicada sem que qualquer ideia de complô ou gritaria maior fosse ouvida. Sem falar na Ponte Preta, vítima de decisões discutíveis há muito tempo.

Em relação a equipes como essas, erros repetidos são considerados quase como coisa normal. Na semana que passou, como, aliás, já tinha acontecido ao longo deste ano, a Ponte foi de novo prejudicada, mas o fato só adquiriu importância porque na mesma rodada havia outras equipes de maior representação nacional também prejudicadas. Gostaria de saber se toda essa gritaria geral seria ouvida fosse só a Ponte a prejudicada. Ou o Avaí.

De minha parte, depois de tantos anos acompanhando futebol, a única certeza que tenho quanto a essa questão de arbitragem é que os prejudicados são sempre os mesmos. Enquanto não se começar a fazer justiça a partir deles, tudo continua como sempre foi.

 

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