Acervo/Gazeta Press - 11/12/1982
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A história do Doutor Sócrates muito além das quatro linhas

Biografia do ex-jogador destaca ativismo político e luta pela redemocratização do Brasil nos anos 80

Raphael Ramos e Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2017 | 06h00

Doctor Socrates: Footballer, Philosopher, Legend não é um livro somente para estrangeiros interessados em conhecer mais sobre a vida do icônico ex-jogador da seleção brasileira, Corinthians e Fiorentina, entre outros clubes, morto em 2011. É uma obra também para brasileiros. Ela retrata o ídolo muito além das quatro linhas do campo. Mostra, sobretudo, a militância política que transformou Sócrates em uma lenda.

“Se não fosse a sua participação política na década de 1980, ele seria apenas mais um brilhante jogador brasileiro, como tantos outros. Ele transcende o futebol. O que fez fora de campo o diferencia de todos os outros”, conta o autor Andrew Downie, jornalista escocês correspondente no Brasil da agência de notícias Reuters.

Lançada em inglês pela editora Simon & Schuster, a biografia de Sócrates começou a ser escrita por Downie em 2014. Durante dois anos, o jornalista fez mais de cem entrevistas. Pesquisou os arquivos da revista Placar e dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde. Visitou ainda Ribeirão Preto, Santos, Rio de Janeiro, Florença, na Itália, e outras cidades por onde Sócrates passou durante a sua carreira. O prefácio é de outro gênio da bola: o holandês Johan Cruyff, morto no ano passado.

Radicado no Brasil desde 1999, Downie nunca esteve pessoalmente com Sócrates. Conversou rapidamente com o ex-jogador apenas algumas vezes por telefone e e-mail. Ambos negociavam, na ocasião, uma possível tradução de um livro escrito por Sócrates. O projeto, porém, não foi adiante – como tantas outras ideias do camisa 8.

“Sócrates era um pensador. Criava muitas coisas, tinha várias ideias, mas não conseguia ter disciplina para executar a maioria delas”, diz Downie.

Doctor Socrates: Footballer, Philosopher, Legend mostra três facetas do craque: o seu poder de liderança como atleta, a vida extracampo e o ativismo político. Boa parte da obra é dedicada à primeira metade da década de 1980, auge da carreira de Sócrates como jogador do Corinthians e período em que ele se transformou em um dos principais símbolos da luta pela redemocratização do Brasil.

“Sócrates usou seu poder como jogador de futebol para fazer pessoas que não gostavam de política a se interessar pelo assunto. Ele sabia que, quando um político falava, as pessoas não prestavam nenhuma atenção. Mas, quando ele falava de política, todo mundo parava para ouvir”, relata Downie.

Mas nem sempre foi assim. Quando ainda era estudante de Medicina em Ribeirão Preto, Sócrates pouco se importava pela vida em Brasília. “Ouvi de seus colegas de classe que ele era um alienado. Certa vez, chegou a dizer na turma que política e futebol nunca deveriam se misturar”, informa o autor.

O rumo da história começou a mudar em 1978, quando Sócrates trocou o Botafogo de Ribeirão Preto pelo Corinthians. “Foi somente depois de sua chegada à cidade de São Paulo que ele começou a ser uma voz atuante no futebol em relação à política do País”, diz Downie.

Sócrates chegou a aceitar convite feito por Antonio Palocci para se candidatar a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Dias depois, voltou atrás, interrompendo o projeto. “Só de pensar que teria de defender ideias que não eram suas, ele desistiu. Sócrates era autêntico. Sempre fez questão de ser ele mesmo, sem disfarces. Não gostava de se adaptar a determinadas situações”, lembra. Palocci está preso há cinco meses na sede da superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, acusado de receber propina da Odebrecht e interferir em decisões do governo.

O ativismo político de Sócrates extrapolou as fronteiras do Brasil e, na Copa de 1986, com cabelos compridos, barba e uma faixa branca amarrada na cabeça, o ex-jogador manifestou sua solidariedade ao povo mexicano que estava sofrendo com um terremoto que atingira o país. Ele clamou por justiça em todo o mundo.

Passados quase 30 anos, Downie entrevistou jogadores que disputaram o Mundial ao lado do meia. Nenhum deles sabia da existência daquelas faixas brancas de Sócrates até o momento em que ele as exibiu durante a execução do Hino nacional, antes das partidas. 

Não à toa, Downie escolheu uma foto de Sócrates na Copa de 1986 para ilustrar a capa da biografia. “Sócrates está parecido com Che Guevara”, compara, sem deixar de provocar o maior jogador brasileiro da atualidade. “Hoje, Neymar usa faixa para dizer que é 100% Jesus. Quanta diferença!”

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