Pilar Olivares/Reuters
Pilar Olivares/Reuters

A história por trás de um espetacular gol de Copa do Mundo

De voleio, o francês Pavard marcou contra a Argentina e virou herói. Um ano antes, jogava na segunda divisão alemã

Christopher Clarey, enviado especial / Kazan, The New York Times

10 Julho 2018 | 05h00

Foi um dos gols mais espetaculares da Copa do Mundo, e o que tornou mais marcante a jogada de voleio de 20 metros de Benjamin Pavard contra a Argentina foi que poucos imaginavam que isso fosse acontecer. 

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Há cerca de um ano, Pavard, de 22 anos, jogava no Stuttgart, na segunda divisão alemã. Convocado para a seleção da França pela primeira vez em novembro, não se previa que ele iria integrar a lista dos 23 eleitos pelo técnico Didier Deschamps para a Copa do Mundo na Rússia. Certamente, não se esperava que ele substituísse o titular Djibril Sidibé.

Pavard lançou-se com os bleus vencendo a Argentina por 2 x 1 no segundo tempo, marcando não apenas seu primeiro gol pela França, mas o primeiro gol de sua carreira com o pé. “Eu fiz dois gols de cabeça, mas, quero dizer, eu nunca faço gols”, disse ele, depois da vitória por 4 a 3 da França ter garantido um lugar nas quartas de final contra o Uruguai. “Mas a bola veio e eu não me fiz muitas perguntas. E funcionou.”

A Argentina comandou o embalo ao assumir a liderança aos 57 minutos. Pavard estava cobrindo Gabriel Mercado quando Mercado redirecionou um chute a Lionel Messi, passando pelo goleiro francês Hugo Lloris, para fazer o 1-0. Mas Pavard compensou de forma memorável nove minutos depois.

 

O cruzamento do novato francês Hernández, da esquerda, bateu duas vezes pelo centro da defesa argentina. Pavard acertou a bola no ar com o lado de fora do pé direito. “Peguei como veio”, contou. “Eu disse a mim mesmo que tenho de bater bem, e esse foi o movimento mais natural. E eu também disse a mim mesmo que preciso manter a bola baixa, então tenho de levar meu peso para frente.”

Pavard provavelmente não estaria em papel tão proeminente se não fosse por uma lesão no joelho direito de Sidibé, sofrida em 15 de abril, quando o Paris Saint-Germain derrotou o AS Monaco, de Sidibé, por 7 a 1.

Sidibé estava em dúvida quanto à Copa do Mundo e, depois de garantir seu lugar, quase foi para casa depois que o joelho inchou novamente na Rússia.

Sidibé começou o terceiro jogo da fase de grupos contra a Dinamarca, depois de a França já ter conquistado uma vaga na fase eliminatória. Pavard entrou desde o começo nos jogos da França. “Eu não pedi explicações ao treinador”, disse Sidibé em entrevista coletiva na Rússia. “Neste contexto, você tem que colocar sentimentos pessoais de lado.”

Pavard, que tem cabelo encaracolado, foi apelidado de “Jeff Tuche” por seus colegas franceses, numa referência ao pai de cabelo encaracolado da série de comédia francesa Les Tuche (Os Tuche). Pavard confessou estar cansado do apelido, mas ele continuou no mesmo ritmo, assim como quando seus companheiros lhe dizem, que, com suas raízes francesas de cidade pequena e seu gosto antiquado em música, ele pertence a outro tempo.

Mas seu jogo é totalmente compatível o século 21, e suas jogadas na Rússia começam a atrair o interesse de clubes de elite da Europa, incluindo o Bayern de Munique. 

ESCOLHAS

Para alcançar este nível, Pavard sentiu que tinha de deixar a França. Depois de jogar pelo Lille na temporada 2015-16, ele aceitou a oferta do Stuttgart, que havia caído para a segunda divisão na Alemanha. Alguns disseram que era um erro. Pavard afirmou que o risco e a necessidade de se adaptar a outra cultura o ajudaram a amadurecer.

O Stuttgart conquistou o retorno à Bundesliga em sua primeira temporada. Ele jogou em várias posições, incluindo meio de campo, mas após a chegada do novo técnico Tayfun Korkut, no final de janeiro, Pavard começou a jogar exclusivamente como zagueiro central. Ele jogou todos os minutos de todos os 34 jogos, e o Stuttgart terminou em sétimo no campeonato.

Mas Deschamps chamou-o à seleção, o que faz um paralelo histórico com Lilian Thuram, companheiro de equipe de Deschamps quando a França ganhou sua única Copa, em 1998. Thuram preferia a posição de centro, na qual jogava no Parma, mas o técnico da França na época, Aimé Jacquet, colocou-o na lateral direita. Thuram marcou duas vezes durante a vitória da França na semifinal sobre a Croácia naquele ano.

Como Pavard foi sábio em apontar, não tem sentido fazer comparações demais em muito pouco tempo. Thuram foi um dos melhores defensores que a França produziu. Pavard está apenas começando. No entanto, poucos vão esquecer seu gol contra a Argentina. Pavard brincou dizendo que ele havia “matado um pombo” com uma tentativa similar em treino, mas desta vez ele deixou os pombos em paz.

Mas os argentinos, não. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

 

 

 

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