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A mãe do VAR

O VAR eleva o número de acertos, está claro. Mas terceiriza os erros. Já não sabemos ao certo a cara de quem errou, a quem devemos xingar

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 04h00

Tornou-se febre um vídeo com os melhores momentos da final da Libertadores de 1983, entre Grêmio e Peñarol, vencida pelos gaúchos. Assista. Pelos critérios de arbitragem de hoje, não sobraria ninguém para levantar aquela taça. Eram dias em que se batia muito e os meiões estranhamente não rasgavam. E aqui não vai nenhum saudosismo gremista, que ultimamente não há razões para saudosismo.

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Desde aquela final, a tolerância à rispidez no futebol diminuiu. Mas o torcedor até sabia a quem culpar se a punição aos infratores não fosse equânime. A fúria se concentrava no árbitro e respingava, eventual e injustamente, na mãe dele. Esta relação muda com o árbitro de vídeo (VAR, sigla de “video assistant referee”). O sistema deveria ser usado para esclarecer lances objetivos. Mas está sendo aplicado para decidir jogadas subjetivas, como a existência ou não de um pênalti.

Revisto em câmera lenta, o pênalti cometido em Neymar contra a Costa Rica é menos pênalti. A encenação chama mais atenção do que a mão no peito que o impede sutilmente de chutar. Ao julgar o lance pela repetição dele, em outra velocidade, o árbitro toma uma decisão paradoxal: o que ocorreu vale menos do que a gravação do que ocorreu.

O caso de Neymar e seus meiões rasgados pode até ser uma exceção, pois o sistema em geral pode ajudar o árbitro a tomar a decisão correta em lances rápidos ou distantes. A maior distorção do VAR decorre da falta de critérios claros para seu acionamento. E aí aparece um caráter perverso: não há na prática um responsável pelos erros.

 

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, morto em janeiro do ano passado, criou o conceito de sociedade líquida, pautada pelo imediatismo e a busca da satisfação individual. Entramos na era da arbitragem líquida. Até sabemos os nomes dos árbitros de vídeo, mas a tecnologia de que dispõem para influenciar no resultado dá a eles uma aura de infalibilidade pelo menos discutível.

O VAR eleva o número de acertos, está claro. Mas terceiriza os erros. Já não sabemos ao certo a cara de quem errou, a quem devemos xingar. O VAR não tem mãe.

*RODRIGO CAVALHEIRO É EDITOR DE INTERNACIONAL DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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