JF Diorio/Estadão
Transmissão das partidas no Campeonato Brasileiro passa por imbróglio JF Diorio/Estadão

A menos de dez dias do início, Brasileiro tem pelo menos 38 jogos fora da TV aberta

Campeonato deve começar com lacuna nas TVs aberta e fechada e inclusive no pay-per-view

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2019 | 04h30

A menos de dez dias para o início do Campeonato Brasileiro 2019, o torcedor começa a encarar a possibilidade real de não ter como acompanhar todos os 380 jogos ao vivo pela televisão. A nova forma de negociação de contratos e a falta de acordo entre a Globo com Palmeiras e Athletico-PR forçam o surgimento de uma lacuna na programação.

O primeiro impacto poderá ser sentido já na segunda rodada. O duelo entre CSA e Palmeiras, em Maceió, não tem contrato de transmissão em nenhum canal. A tendência é a situação se repetir com essas equipes em outros seis confrontos nas noves primeiras rodadas indicadas até agora pela CBF.

A partir desta temporada, os clubes passaram a fazer negociações individuais pelos direitos de transmissão para os anos de 2019 a 2024 e não mais em acordos coletivos. A entrada da Turner no mercado nacional, responsável pelos canais TNT e Space, alterou a concorrência. Sete times optaram pela empresa para os contratos na TV fechada e recusaram o SporTV.

Essa decisão repercutiu nas outras duas plataformas de negociação: TV aberta e pay-per-view. Palmeiras e Athletico-PR não aceitaram os valores da Globo, que ofereceu contratos com redução de até 20% para quem havia fechado com a Turner. A medida foi adotada como forma de compensar o impacto do acordo dessas equipes nos negócios da emissora do Rio.

Para transmitir uma partida no Brasil é necessário que os dois times em campo tenham contratos com a mesma emissora, de modo que o Brasileiro 2019 pode entrar para a história como o primeiro a ter buracos na programação nos últimos 30 anos. Afinal, desde 1987, com a criação do Clube dos 13, a negociação dos direitos de transmissão entre clubes e Globo nunca havia passado por abalos.

O buraco na grade começa pela TV aberta. O Palmeiras é o único dos 20 clubes a não ter fechado com a Globo. A situação é um pouco diferente no pay-per-view. Além do Palmeiras, o Athletico-PR também não fechou contrato ainda. Já na TV fechada, só 52% dos jogos serão transmitidos. A cobertura vai contemplar apenas partidas entre adversários que estejam sobre o mesmo contrato.

Procurados pela reportagem, Athletico, Palmeiras e Globo não se manifestaram. Mas o Estado apurou que os acordos continuam distantes. Dirigentes ligados às negociações consideram mais provável o Brasileiro começar com o impasse e ter uma possível resolução apenas nos próximos meses.

A situação já começou a mexer com os torcedores. Nas últimas semanas, o Procon-SP, órgão de direito do consumidor, recebeu reclamação de que os pacotes de pay-per-view oferecidos por algumas operadoras deveriam ter valor menor por oferecer menos jogos na programação.

O órgão notificou cinco empresas para cobrar esclarecimentos e agora analisa essa informações. As operadoras foram procuradas pelo Estado e algumas lamentaram o impasse sobre o s direitos de transmissão. "Esperamos que as negociações cheguem a um bom termo, que permita atender aos interesses de todos os envolvidos, clubes e programadoras de canais de TV e, principalmente, viabilize o acesso dos torcedores", informou, por nota, a Claro.

A Vivo explicou que oferece aos consumidores pacotes flexíveis e afirma não ter sido avisada pela Globo sobre a lacuna. "A Vivo reforça que não recebeu nenhuma comunicação expressa sobre a limitação de jogos."

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Sem TV, torcedor terá de acompanhar Brasileiro pelo rádio e internet

Falta de acordo na transmissão leva público a ter de recorrer a outras alternativas

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2019 | 04h30

As transmissões ao vivo pelo rádio e o acompanhamento dos jogos em tempo real pela internet são até agora as únicas alternativas para o possível buraco na transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro. A situação do momento é de o torcedor precisar recorrer a outras soluções para saber do andamento das partidas.

Ainda não há, pelo menos para esta temporada do Campeonato Brasileiro, outras alternativas para cobrir a lacuna, como redes sociais ou YouTube. Isso só seria possível caso os clubes acordassem individualmente entre si cada um dos contratos.

Embora Palmeiras e Athletico-PR pretendam fechar os contratos restantes, os clubes adotam a postura firme de só assinar com valores considerados adequados. No caso da TV aberta, o time alviverde contesta a forma de divisão do contrato, com 30% do total a ser repassado de acordo com a quantidade de jogos exibidos, algo que é determinado exclusivamente pela emissora.

O Palmeiras, inclusive, elaborou a previsão orçamentária para 2019 sem incluir a cota de televisão nas finanças. O clube estima uma receita de R$ 561 milhões ao longo da temporada.

A Globo também tem se mostrado interessada em resolver o problema e promoveu nas últimas semanas uma nova rodada de negociações com os dois clubes. Uma das preocupações da emissora é diminuir o faturamento com o pay-per-view, responsável por render cerca de R$ 1,4 bilhão no ano passado. Parte desse valor vem da quantidade de pacotes assinados pelos consumidores com as operadores.

IMPACTO

Para o professor de marketing esportivo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Ivan Martinho, o desafio dos canais de televisão no momento é mais do que fazer negócios e sim avisar ao público que o antigo formato, canal e horários de transmissão serão mudados depois de muitos anos.

"É uma questão de hábito, de contar com o jogo de quarta-feira à noite e de domingo à tarde na TV. Vejo toda essa situação como uma curva de aprendizagem. As pessoas vão se acomodar e se ajeitar ao novo modelo. Não vejo isso como um problema", afirmou.

Ele considera que a situação nova no mercado de transmissão representa uma mudança positiva. "Tudo isso mostra uma hegemonia sendo quebrada. O mercado se fortaleceu, com novos cenários e formas de se consumir o conteúdo", explicou Martinho.

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