A multinacional Rússia

No país, a nacionalidade de uma pessoa nada tem a ver com o local de nascimento

Angelo Segrillo*, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 04h00

Uma peculiaridade da Rússia que os brasileiros pouco conhecem é o fato de que ela é um estado multinacional. Se no Brasil (e outros estados nacionais) a nacionalidade de uma pessoa é determinada pelo local onde ela nasce (jus soli), na Rússia (e países eslavos) a nacionalidade de uma pessoa nada tem a ver com o local de nascimento e é determinada pela ascendência familiar: é a mesma nacionalidade do pai ou da mãe. Esse princípio jurídico do jus sanguinis eterniza as diferenças que aqui chamamos de étnicas e faz com que na Rússia convivam mais de cem nacionalidades diferentes. Na língua russa, há duas palavras para “russo”: russkii (russo étnico, de pai ou mãe russa) e rossiyanin (qualquer pessoa nascida na Rússia). Todo rossiyanin tem os mesmos direitos como cidadão, independentemente de ele (por nacionalidade) ser russo étnico (russkii), checheno, judeu, ucraniano ou outro.

Ou seja, o que no Brasil chamamos de diferenças étnicas, lá são consideradas diferenças nacionais e cada uma dessas nações que compõem a Rússia se acha no direito de usar sua própria língua, costumes, etc. Isso cria potencial para conflitos interétnicos (internacionais) internos, mas também gera uma grande riqueza cultural.

Se você for a Moscou ou está em Moscou, poderá entrar em contato com muitas nacionalidades (culturas) diferentes. Aproveite para conhecê-las. Como as nacionalidades se misturam nas cidades russas, aqui vão algumas dicas. Em vez de pagar os olhos da cara comendo nos restaurantes nas ruas principais do centro, procure nas ruas e bairros menores pelos restaurantes azerbaijanos, onde há refeições baratas e boas. Em vez de comprar comida cara nos supermercados, experimente algum rynok (que são como as nossas feiras) nos bairros onde você poderá comprar frutas e verduras frescas e conhecer os georgianos, ucranianos e outras nacionalidades que dominam esse negócio.

É claro que, na capital Moscou, você deverá ir à catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, para conhecer rituais da Igreja Ortodoxa russa. Mas aproveite e vá também à Mesquita Congregacional de Moscou, pertinho do estádio Olímpico, a maior mesquita da Europa. Lá você vai entrar em contato com os costumes de várias das nacionalidades islâmicas da Rússia, principalmente as da região das montanhas do Cáucaso (por exemplo, chechenos, inguches) e originárias dos países que ficam na Ásia Central ex-soviética (cazaques, usbeques, turcomenos, tajiques e quirguizes).

Em suma, quando for à Rússia, explore a riqueza cultural daquele estado multinacional e lembre-se (até para não dar “foras” com os nativos) de que nem todo russo (rossiyanin) que você encontrar será russo (russkii). Aliás, para “treinar”, olhe a foto da seleção da Rússia: você consegue identificar quem ali é russo (rossiyanin), mas não é russo (russkii)? Dica: comece pelos goleiros...

*HISTORIADOR DA USP E AUTOR DE ‘OS RUSSOS E KARL MARX: UMA BIOGRAFIA DIALÉTICA’

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