Paulo Liebert/Estadão
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A partida que não acaba

O pênalti leva o jogador à desgraça ou à glória. Mal batido, põe o atleta no inferno

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2019 | 04h00

Parece até que acabou, parece que chegou ao fim, mas nem sempre. Falo da profusão, da enorme quantidade de partidas que terminam com um placar novo, fora dos 90 minutos regulamentares, isto é, partidas decididas por pênaltis.

Como temos várias competições de mata-mata, é normal terminarem dessa maneira. É um jogo novo mais rápido, mais emocionante que o primeiro. O primeiro até pode ter sido um jogo morno, de baixa qualidade. A disputa em pênaltis, jamais. É sempre tensa e inesperada.

Ela leva à desgraça ou à glória jogadores que antes gozavam de status completamente diferente. Um pênalti mal batido pode levar alguém, consagrado momentos antes, ao inferno, às vezes para sempre. O pênalti é o momento das surpresas. Um jogador que sempre bateu de um jeito, resolve mudar, e eis o desastre. É uma falha quase imperdoável, pois ninguém entende.

O que o fez naquele espaço tão curto de tempo, entre dar o primeiro passo e chegar na bola, com que decidisse por um jeito diferente de bater? O que mudou o batedor nesse escasso instante? O olhar do goleiro em que o batedor leu o fracasso? Um pressentimento súbito indicando que o goleiro tinha adivinhado o canto e, então, era preciso mudar? Uma má lembrança de outro dia, talvez já num passado morto, em que tinha perdido outro pênalti e que surge na cabeça do cara sem razão, sem explicação, logo no momento de correr para a bola? Seja o motivo que for, o torcedor não sabe e não perdoa, pois não compreende bem e, na dúvida, condena.

Há, porém, aquelas cobranças que o torcedor compreende perfeitamente, quando não fica dúvida nenhuma, quando o batedor quis ser mais esperto do que o goleiro e de certa forma mais esperto que o próprio torcedor. Quando a cobrança é ofensiva na sua demonstração gratuita de superioridade e enorme autoconfiança. 

A displicência, aparente ou real, ninguém consegue perdoar. Houve gente que teve de deixar o clube depois de uma cobrança tomada como descaso e que acabou produzindo uma tragédia, dessas em que a bola parece ter sido atrasada para o goleiro que, no meio do gol, toma até um susto ao vê-la chegar até ele sem que fizesse qualquer esforço ou movimento para detê-la.

A quase surpresa estampada na cara do goleiro é a sentença de morte do batedor. Vai persegui-lo muito tempo, talvez pela carreira inteira. Vai ter sempre alguém para lembrar o lance grotesco, até quando esse jogador já não estiver mais no time e joga em outro clube.

O pênalti marcado, batido com sucesso, é esquecido em dias ou semanas, o pênalti malogrado ingloriamente não é esquecido nunca. Talvez o pênalti mais fácil de ser perdoado é aquele em que o batedor enche o pé e a bola bate na trave. Como não ser solidário com o batedor? Bateu com força e seriedade e isso é que vale. Medíocre, mas sério. Tosco, mas humilde. Geralmente esse atleta se atira ao chão após o lance e leva as mãos à cabeça. Era a atitude que faltava à absolvição. O desespero de quem tinha feito o possível mesmo errando, mesmo com a derrota. Só depois, vista várias vezes, a coisa começa a ser notada, a falta de competência e controle emocional. Para sua sorte, a maioria dos torcedores apoia a decisão tomada: dar um ponta pé na bola e contar com a sorte. Nada de firula e malandragem. A violência absolve sempre.

Ao contrário do esperto que queria enganar o estádio inteiro, o chute violento aparece como sinal de respeito. Nessas disputas que estão por aí a todo instante, que, aliás, estão se transformando na parte principal do espetáculo, há para todos os gostos. Malandros que não dão certo, sérios que enfiam o pé e seja o que Deus quiser e, felizmente, ainda uns poucos, conscientes, gélidos, calculistas, que põe a bola onde não está o goleiro. São poucos, mas existem.

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