Paulo Liebert/Estadão
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A paz

Pandemia faz com que seja possível apreciar até jogos antigos entre rivais do time para o qual torcemos

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2020 | 04h00

Sim, é possível atingir o tão desejado estado de inteira pacificação das torcidas. Todos os excessos subitamente anulados, as agressões, reclamações, tentativas de agressão, todos os fatos lamentáveis por um momento desaparecidos. Certamente não passaria pela cabeça de ninguém, como método de pacificação, pensar em uma pandemia, uma doença geral que pudesse atingir a todos. Mas foi o que aconteceu.

Constatei isso dias atrás quando a televisão, desesperada pela falta de jogos, colocou no ar velhas partidas. Me vi assistindo a um São Paulo x Corinthians de uns 15 anos atrás, coisa que jamais teria interesse em assistir. Comecei ver a partida com um sentimento quase de indiferença, mas já achei estranho. Depois de alguns minutos, porém, não pude deixar de notar que o jogo passava a me interessar e em seguida, malgrado eu mesmo, percebi que um sentimento de simpatia tinha se sobreposto ao mero interesse.

Estavam em campo, no entanto, alguns jogadores que eu detestava, pelos quais a última coisa que poderia sentir era simpatia! Com a mesma rapidez, vi também que era alguma coisa mais forte do que eu, contra a qual era inútil lutar. Deixei-me ficar assistindo com grande prazer e simpatia. Não sabia o resultado do jogo nem estava muito interessado nisso. Mas certamente havia nessa partida soterrada pelo tempo encanto especial, talvez um futebol melhor jogado, com a bola sendo tratada melhor, ataques perigosos, etc.

Mas não era isso que me atraia e finalmente as razões para estar vendo essa partida com tanto agrado se tornaram claras diante de mim. É que de certa forma ela fazia reviver não um jogo, mas um mundo que tinha sido o meu. Esses jogadores em campo me eram, apesar de rivais, bastante conhecidos. Faziam, portanto, parte de um meu cotidiano perdido no tempo. Era com eles que eu mantinha o difícil diálogo de torcedor adversário.

Era isso! Aqueles rostos eram conhecidos e me dava muito prazer vê-los de novo. Principalmente vê-los jovens, inteiros, no vigor dos anos, na despreocupação do futuro. Porque muitos dos que estavam em campo eram figuras que ainda apareciam aqui e ali na TV. Muitos não conseguiram largar do futebol e aparecem em programas como comentaristas fixos. Outros se tornaram treinadores e muitos apenas desapareceram completamente. 

O tempo passou sobre todos como passou sobre mim. Mas, naquele momento em que se jogava um São Paulo x Corinthians de tantos anos atrás, eram meus contemporâneos. Como qualquer um que gosta de futebol, eu sabia coisas sobre eles, o que me proporcionava alguma intimidade.

Para minha surpresa, vi que pelo menos um ainda jogava: Tevez. E na sua camisa o nome que estava bordado era Carlitos. Nada do jogador que se arrasta ainda pelo Boca Juniors, mas um jovem Carlitos correndo o campo todo, infatigável. Fiquei observando como o tempo muda, às vezes, mais o caráter do que o físico.

No banco do São Paulo um Muricy Ramalho quase irreconhecível, com os traços de um ex-boleiro comandando uma grande equipe, vigoroso, carrancudo, reclamando de tudo, tão diferente do senhor de meia-idade pacato, sereno que aparece hoje comentando jogos pela TV.

E assim fui reconhecendo praticamente todos os jogadores em campo e o que tinham se tornado, o que a vida tinha feito com eles. Lá estava no gol do São Paulo Rogério Ceni, e na frente dele Lugano e Fabão. No meio de campo do Corinthians aparecia um Ricardinho de cabelo preto e lançamentos precisos, lado a lado com Mascherano.

Enfim, o São Paulo ganhou por 3 a 1, mas isso não me importava. O que me importava é que precisou um vírus desconhecido para me fazer ver uma partida inteira entre São Paulo e Corinthians com grande prazer, me sentindo quase amigo dos jogadores em campo, os que ainda estão no futebol e os que se foram sem deixar vestígio.

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