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A pergunta se repete

Por que o Brasil perdeu sua magia no futebol é uma pergunta feita mil vezes

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2019 | 04h00

É sempre bom ouvir o craque. E nesta semana o craque falou. Roberto Rivellino, numa entrevista a este jornal, não deixou pedra sobre pedra. Analisou cruelmente a situação do futebol atual e não mediu palavras. Do alto de sua autoridade, traçou um diagnóstico impiedoso dos nossos jogadores.

Rivellino foi um dos maiores, e vê o futebol através das qualidades que ele próprio e sua geração desfilavam dentro dos campos. Na minha opinião, se tivesse tido um técnico inventivo e esperto quando começava a carreira e, portanto, em tempo de receber orientação adequada, teria sido melhor que Maradona. Não, não há nenhum exagero nisso. Rivellino foi tido como um meia-armador durante quase toda sua carreira, disputava lugar no campo enfrentando gente como Ademir da Guia, este sim um legítimo maestro e dono da meia cancha. Rivellino era outra coisa. Poucas vezes seu verdadeiro futebol foi aproveitado como devia. Na seleção de 70, certamente, e na parte final de sua carreia, no Fluminense. Nessas ocasiões, pôde partir com a bola dominada, se infiltrar nas áreas com seus dribles diabólicos e desnortear as defesas.

Nesse tipo de jogo agressivo de atacante nato, Rivellino se colocava ao lado de um Maradona, talvez melhor, com seu chute mortífero. Mas desperdiçou tempo e talento fazendo papel de meia-armador clássico, o que não era. Esse grande craque, na entrevista citada, ao analisar a pobreza do futebol atual atribui grande parte da culpa aos trabalhos nas categorias de base, onde os atletas aprendem a competir e não a jogar. Aprendem que futebol não implica em diversão ou arte, mas em tenacidade e esforço. Deixa implícito que, corrigidos os erros que aponta, o Brasil voltaria a seus dias de glória.  

Não sei se isso é verdadeiro. Por que o Brasil perdeu sua magia é uma pergunta repetida mil vezes com inúmeras respostas. Como a maioria dos fenômenos históricos, a tremenda transformação que sofreu o futebol brasileiro tem inúmeras causas que, muitas delas, para não dizer a imensa maioria, jamais saberemos quais são, apenas podemos conjecturar sobre elas. 

Penso às vezes que talvez seja melhor dar como encerrado para sempre o reinado do Brasil no futebol e não procurar mais por seu ressurgimento. 

A meu ver esse ressurgimento jamais vai ocorrer. Há fenômenos que se dão uma só vez na vida dos povos e, portanto, tendo a acreditar que aquele período que vai mais ou menos de 1958 a pouco além de 1970 jamais será alcançado outra vez. Uma ou outra ocasião vai nos dar essa ilusão, como em 2002, por exemplo. Mas rapidamente voltamos para nossa realidade. 

Não proponho entregar os pontos e afundar na mediocridade. Proponho dar por encerrada a busca por um período histórico perdido, não pensar mais nele e em seus craques, senão com saudade. Proponho dar como certo que esperar que se repita o que fizeram é impossível. A história se movimentou para outros cantos. É inútil repetir que o DNA do Brasil exige assombrar o mundo com nossa habilidade. Não existe DNA, e o tempo passou sobre nossos craques.

As hipóteses para quem gosta de futebol, portanto, são duas. Uma delas é parar de ver o futebol atual, cortar seus laços com ele. Outra hipótese é acreditar que se erga de novo, mas sem esperar que o passado ressurja. A história, porem, é misteriosa. Como não sabemos exatamente porque cessou, não sabemos também se alguma coisa não está sendo engendrada no silêncio e nos subterrâneos para nos dar alegrias. Rivellino foi um grande craque. Eu o vi jogar muitas vezes. Só que, quando revejo um daqueles lances antológicos que criou na fase áurea, me ocorre a imagem do corvo no famoso poema, sempre a repetir sem cessar "Never more! Never more!"

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