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Ugo Giorgetti
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A praça de guerra

Todos que acompanham futebol sabem do que aconteceu na frente do Morumbi, depois da derrota do São Paulo para o Atlético Nacional, da Colômbia, pela Libertadores de America. 

UGO GIORGETTI, O ESTADO DE S.PAULO

10 de julho de 2016 | 05h00

Nada do que já não tivesse acontecido antes. As matérias nos jornais, rádios e tevês replicaram outras tantas escritas e produzidas em anos anteriores, talvez com as mesmas palavras. Nada foi feito antes, nada será feito agora. Dada a falta de condições, imaginação e mesmo vontade de mudar as coisas das várias entidades envolvidas na organização do jogo, só nos resta rezar para que o time mandante vença sempre.

Daí tudo acaba bem, todos saem cantando, abraçados, crianças nos ombros, selfies e mais selfies com PMs. O problema é que não aceitamos perder. Não somos sequer avisados que podemos perder. Estabelece-se um clima, ajudado por parte da imprensa, que impede que se pense em derrota. É uma obrigação ganhar como se ainda vivêssemos os belos dias do nosso futebol. 

Está se atribuindo a briga depois do jogo a vários fatores, menos à derrota, pura e simplesmente. E, no entanto, foi ela que desencadeou tudo. Exatamente como aconteceu no Pacaembu há alguns anos, quando o River eliminou o Corinthians da mesma Libertadores que tanto amamos. O fato é que essa competição nos tira do sério. O São Paulo despenca no brasileiro, é derrotado dentro do Morumbi e nada acontece. É verdade que poucas pessoas aparecem para ver um jogo contra o América mineiro, por exemplo. Mas superlotam quando se trata da Libertadores. 

O jogo de quarta era ameaçador. Era o jogo da superação, da volta por cima, que valia por qualquer derrota no Brasileiro. Havia duas semanas que só se falava nesse jogo, só se planejava a equipe para esse jogo. Chegou-se a contratar um jogador só para essa partida. Uma coisa normal, como a derrota, talvez não passasse pela cabeça de ninguém. Muito menos das autoridades. 

A Polícia Militar sabia o que tinha acontecido no passado. Mas não teve a precaução de se preparar em caso de derrota. Tudo foi tratado como se fosse uma noite como outra qualquer. E parecia. O São Paulo já tinha colocado mais de sessenta mil pessoas em jogo da Libertadores antes e tudo tinha transcorrido bem. Desta vez faltou combinar com o adversário, faltou “avisar os russos”, como dizia Garrincha. E os “russos” ganharam. É isso que ninguém espera por aqui. Apresentamos, então, os acusados de costumes, as torcidas organizadas. 

Aliás, falando nas organizadas, precauções em determinados jogos devem ser tomadas por quem de direito, levando-as em conta. Com a recente criação de torcedores privilegiados e rejeitados nos estádios, isso acabou por se espalhar até no interior das organizadas. Alguns receberam ingressos e puderam entrar. Outros tiveram que ficar de fora, e foram os de fora, os rejeitados, que começaram a confusão. Não estou justificando a atitude deles, só averiguando as causas. Começaram a confusão porque estavam fora e viram, abandonando o estádio antes da hora e virando as costas ao time, justamente aqueles que “só sabem apoiar na hora das vitórias”. Isto é, aqueles que só aparecem em jogos da Copa Libertadores. Não sei se o argumento é verdadeiro, mas inegavelmente è ben trovato, como dizem os italianos.

Essas frustrações reprimidas se agravam na derrota. Nessa hora aparecem as diferenças que tinham ficado recalcadas na alma, esperando motivo para sair. O fato, e isso é muito importante, é que ninguém sabe o que fazer com as organizadas. O que devemos fazer? Repressão e porrada? Identificar os culpados e prisão neles? Não sei se isso resolve. No lugar dos presos aparecerão outros para substituí-los. Tentou-se evitar que fossem aos estádios usando o preço dos ingressos. Eles então ficam nas ruas, na frente dos estádios. Nas vitórias tudo bem. Numa derrota mais inesperada, porém, o lugar vira uma praça de guerra. 


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