Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A reunião

O que não pode ser questionado é que um encontro pacífico ocorreu

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2017 | 04h00

Sou de um tempo em que não havia torcidas organizadas. Nem se viam torcedores com camisas dos clubes nos estádios. Não se sabia se a pessoa ao lado era palmeirense ou corintiana. Em outras palavras, não havia sinais exteriores de predileção clubística. Na rua, na praça Charles Müller, todos se confundiam na mesma retirada apressada rumo à condução mais próxima. Não lembro quando eles começaram a aparecer. Como quase todas as modificações, levam tempo para se efetuar e trabalham lentamente na escuridão e silêncio. Um belo dia levantamos da cama e estão lá. 

Desde o começo causaram problemas e desde o começo a imprensa pedia providências. Sucederam-se governos autoritários neste País, dos quais se esperava ordem, e porrada para mantê-la. E eles deram porrada a valer, mas não resolveram o problema, ao contrário. De vez em quando alguma autoridade tomava providência aparentemente drástica e era apoiada pela população. Mas pouco depois eles reapareciam e faziam as mesmas coisas. 

Foi tentado tudo contra eles. Tudo não, sempre a mesma coisa. Isto é, mais porrada, e mais porrada... 

A PM dá sem dó e eles retrucam na mesma moeda. E os problemas se repetem com uma monotonia exasperante. Todos os anos há mortos, durante uns dois ou três dias ouve-se a costumeira indignação enquanto correm no vídeo as imagens de costume, que, aliás, poderiam ser aproveitadas de anos anteriores. Jovens se enfrentando vestindo camisas de praticamente todos os clubes do Brasil. 

A violência neste País é contagiosa e se propagou, de modo que não há mais clubes tão pequenos que não tenham uma torcida capaz de causar dor, danos e sofrimento. Em todos esses anos nunca vi surgir uma única ideia nova para substituir a mediocridade da porrada e da prisão. Sim, porque há prisões, embora não pareça. 

Aposto que há integrantes de mais de uma torcida cumprindo pena. Não pena alternativa ou de reeducação, mas pena, como qualquer preso comum. Esse método ineficiente deveria ter sido questionado faz muito. Mas não é. Sobretudo no Brasil atual, onde a violência e agressividade aumentaram largamente. Onde a intolerância quanto à aceitação de ideias e procedimentos alheios chegou a um ponto realmente selvagem, quando as estatísticas da criminalidade e da delinquência assombram o mundo inteiro. 

E nesse preciso momento, violento de causar vergonha, há, pela primeira vez que eu saiba, uma reunião surpreendentemente pacífica entre dirigentes de um clube em crise, torcedores exasperados e jogadores. Não importa o motivo pelo qual ela ocorreu. Não importa se se trata de oportunismo de dirigentes, ou se os torcedores não deveriam estar lá, nem reivindicar o quer que fosse, não importa, repito, os motivos, que podem ser questionados à vontade. O que não pode ser questionado é que uma reunião pacífica ocorreu. Com todos os defeitos estabeleceu-se um diálogo, pessoas diferentes conversaram, pessoas acostumadas a quebrar portões falaram e ouviram. Jogadores acostumados aos mimos dos nossos tempos, aos salários milionários e proteção de agentes, estiveram cara a cara com seu torcedor. Sem que se espancassem. Não sei o que falaram. E acho que isso pouco importa. 

Essa reunião deveria ser saudada como um momento, talvez involuntário, que contrariou um costume velho de 70 anos. Ouvi um dia de um oficial da PM algo que me marcou profundamente. Disse ele: “Eles (os torcedores) são tratados como animais, e reagem como animais”. Nessa reunião do São Paulo não foram tratados como animais e reagiram como seres humanos. Ela deveria ser celebrada por esse resultado. Não foi. Foi massacrada.

Tudo o que sabemos sobre:
futebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.