Kenzo Tribouillard/AFP
Kenzo Tribouillard/AFP

A seleção brasileira recuperou o seu respeito

Zagueiro fala sobre o resgate da autoestima do Brasil após os 7 a 1 e diz que o caminho é vencer e vencer

Entrevista com

Miranda

Ciro Campos e Gonçalo Junior, O Estado de São Paulo

06 de abril de 2015 | 07h00

O zagueiro Miranda esteve em todas as oito vitórias de Dunga no processo de reconstrução da seleção brasileira após o vexame na Copa. Além dele, só Neymar conseguiu essa frequência. Depois de ficar fora dos dois últimos Mundiais, o beque de 30 anos do Atlético de Madrid tem lugar praticamente certo para a disputa da Copa América, mas ainda acha que tem de matar um leão a cada amistoso.

Nesta entrevista exclusiva ao Estado, explica como ganhou espaço, as dificuldades de encarar Messi e Cristiano Ronaldo e que o único jeito de virar a página dos 7 a 1 para a Alemanha é vencer jogo após jogo.

Juntamente com o Neymar, você esteve em todos os oito jogos da seleção após a Copa. O que pensa sobre essa fase?

A seleção recuperou e está recuperando o respeito no cenário internacional. Nesses oito jogos, nós enfrentamos grandes seleções, conseguimos fazer grandes exibições e também sofremos em algumas partidas, mas vencemos. Isso faz com que a seleção volte a ser respeitada. Esse é o nosso objetivo. Recuperar a autoestima.

O que foi fundamental nessa sequência de oito vitórias?

A seleção já adquiriu um padrão de jogo. É uma seleção em que todos participam da marcação, a defesa é sólida e o contra-ataque, muito rápido.

Qual foi a sua contribuição pessoal nessas oito vitórias?

A minha contribuição principal é a questão tática. Procuro estar sempre bem colocado taticamente e cobrar dos meus companheiros a mesma coisa. Com a orientação do Dunga, estamos conseguindo fazer partidas brilhantes e ganhando até com facilidade de algumas equipes. Quando não conseguimos ganhar com facilidade, ficamos bem posicionados taticamente e esperamos a oportunidade de fazer o gol. Foi assim que aconteceu com o Chile (vitória por 1 a 0, em Londres). Foram poucas finalizações do adversário e conseguimos vencer no contragolpe.

O que pensa sobre os 7 a 1?

Para mim, como para todo torcedor brasileiro, foi desastroso. Tomar uma goleada em uma Copa do Mundo, jogando em casa, é um desastre. A melhor maneira de esquecer ou tirar proveito disso é buscar a vitória em todos os jogos. 

Como virar a página?

A melhor maneira de virar a página é ganhar o próximo jogo. É um processo longo. A melhor maneira de manter o bom ambiente é ganhar o próximo jogo, fazendo com que o respeito dure muito tempo. 

Quem é o Miranda?

Um grande zagueiro. Tenho uma técnica boa, sou veloz e sempre estou bem colocado taticamente. Tenho um pouco de cada qualidade, mas não tenho uma de grande destaque.

Como é o treinador Dunga?

Ele cobra o melhor de cada um e sempre prioriza o grupo. Ele não vê diferenças entre um jogador e outro e sempre trata todo mundo igual.

Você percebe que conquistou seu espaço na seleção?

Ninguém é dono da posição na seleção. Cada jogo é uma oportunidade para cada um fazer o melhor e demonstrar que tem condições de estar ali, vestir aquela camisa. Não tem nenhum dono de posição. Cada jogo tem uma história diferente. Em cada jogo, você precisa estar 100% para ter continuidade na seleção.

Você esteve muito perto de participar de dois Mundiais. Ainda fica frustrado?

A primeira Copa que eu tive chance de disputar, o Mundial de 2010, acabei expulso no último jogo das Eliminatórias. Foi uma partida contra a Venezuela, no Brasil, em 2009. No julgamento, eu peguei duas partidas de suspensão. Como a primeira fase do Mundial tem três jogos, eu ficaria fora de dois. Nesse caso, eu entendo o fato de não ter ido.

E o que aconteceu em 2014?

Eu estava em grande fase. Acho que numa fase ainda melhor do que estava quatro anos antes. Aí é a opção do treinador. A gente respeita essas opções. Mas eu estava em uma forma muito boa. A prova disso é que estou fazendo grandes jogos. Para mim, é passado e serve de aprendizado para aproveitar cada momento em que eu vestir a camisa da seleção brasileira.

Essa última ausência foi mais dolorosa?

Foi mais porque eu me sentia em condições até de ser titular. Fiquei triste de não ir, triste com a eliminação, mas isso ficou para trás. Não podemos ficar pensando na eliminação e na derrota.

Como foi essa evolução?

Sou mais preparado nos aspectos tático, técnico e também psicológico. Eu percebo uma evolução grande na parte tática. Na Europa, no Atlético de Madrid, eu melhorei muito. A gente treina bastante a parte tática. Isso facilita muito.

Pode dar a um exemplo?

O melhor exemplo é a compactação. Quando o ataque está com a bola, temos de aproximar a linha de defesa para não dar espaço para o adversário. Quando estamos na defesa, temos de estar próximos, um do outro, para não dar espaço de se criar situações de gol.

Qual sua expectativa para a Copa América?

Minha expectativa é ganhar. Vamos enfrentar grandes seleções sul-americanas. Todas são competitivas e todas estarão bem preparadas. Mas meu objetivo é entrar para ganhar.

Acredita que o Brasil terá dificuldades na Copa América e nas Eliminatórias para 2018?

Acho que o caminho será difícil, mas prazeroso. Vamos enfrentar grandes seleções, que fizeram boas campanhas no Mundial. Por outro lado, a seleção brasileira é a seleção brasileira. Todos devem respeitar e vamos demonstrar isso dentro de campo.

A convocação para a seleção decorre do desempenho no clube. Falando sobre o Atlético de Madrid, quais são as chances no Campeonato Espanhol?

Nós nos distanciamos um pouco da liderança, com nove pontos de diferença do Barcelona. Temos um enfrentamento direto, e a diferença pode cair. Mas acho difícil brigar pelo título. Nosso objetivo maior é chegar em segundo ou terceiro para conquistar a vaga na Liga dos Campeões.

Sobre esta edição da Champions, como serão os jogos contra o Real Madrid?

Serão muito difíceis. O Real Madrid tem um elenco muito forte e são os atuais melhores do mundo. Mas não são invencíveis. Nós somos muito competitivos e já os enfrentamos seis vezes nessa temporada e não perdemos nenhuma.

Qual é a melhor maneira de marcar o Cristiano Ronaldo?

Para enfrentá-lo, é preciso muita atenção, estar sempre bem organizado. Quando atacarmos, é importante manter uma ordem defensiva. É preciso ter sempre um jogador perto dele. Se a gente perder a bola, temos de recuperá-la o mais rápido possível.

E o Messi?

Com o Barcelona é a mesma coisa. A diferença é eles têm um jogo de toque de bola. Os jogadores são mais dribladores, como Neymar e Messi.

Você despertou o interesse de clubes como Manchester United e o Manchester City. Essas notícias chegam para você?

As notícias chegam, sim, e fico feliz. É sinal que estou fazendo um bom trabalho. Eu vejo isso com orgulho. Meu pensamento é permanecer no Atlético. Ainda tenho um ano e meio de contrato.

O que te deixaria mais feliz no final da temporada?

Conquistar o título da Champions. Esse título escapou por pouco na temporada passada. Terminar em alto nível, sem lesões.

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