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Antero Greco
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A seleção não é a CBF

Não se envergonhe de curtir as apresentações da seleção, ela é brasileira e não da CBF

Antero Greco*, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 04h00

Dias atrás, falei a respeito de estatísticas que apontavam desinteresse do brasileiro pelo Mundial. Escrevi que era tema surrado, pauta inevitável nos períodos que antecedem o torneio. Alertava para a guinada assim que a bola começasse a rolar. Dito e feito. Basta ver a expectativa pelo País nos dias de jogos da seleção. Índices de audiências de televisão e internet, além de bolões, rojões e agrupamentos, confirmam a insustentável leveza das enquetes. Fácil de entender: antes, muitos sentem vergonha de assumir gosto pelo futebol, essa coisa vulgar, ópio do povo etc. e tal. Bastam alguns gols e vitórias e até os mais renitentes dão um bico no preconceito e vibram. Ainda não há carreatas, mas daqui a pouco aparecerão.

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Há os que torcem com pudor – a turma do “a seleção é da CBF, sabe como é?”. Concordo. Jogadores e comissão técnica estão a serviço da entidade hoje sob as ordens do pujante coronel Nunes, providencialmente eclipsado de compromissos oficiais. Porém, não são a CBF. Necessário peneirar uns de outra. Num mundo ideal, seria bacana ver Tite, colaboradores e jogadores terem zero ligação com a cartolagem daqui.

No entanto, não faria ligação generalizada e imediata entre aceitar a missão de vestir a amarelinha e compactuar com Marcos, Ricardos e Josés que por lá passam ou passaram. Claro, sempre há apaixonados como Zagallo ou Parreira, este até entusiasta demais, a ponto de declarar, em 2014, que a CBF era exemplo do Brasil que deu certo. Talvez a dona Lúcia, aquela da cartinha pós 7 a 1, concordasse. Ela e outros poucos.

Separemos as coisas e façamos exame de consciência: quantas vezes não divergimos da visão de mundo das empresas para as quais trabalhamos? Seja qual for a atividade. No entanto, a elas nos dedicamos com seriedade e correção, por profissionalismo e princípios morais. Vende-se mão de obra e não necessariamente a alma.

 

O mesmo raciocínio se aplica à seleção. Gostamos dela por causa de um sentimento abstrato, mistura não muito clara de magia pelo joguinho de bola, autoconfiança, superioridade (se formos campeões, estufaremos o peito e olharemos de esguelha para os vizinhos). Até por patriotismo, embora quadrienal. Resumo da conversa: não se envergonhe de curtir as apresentações da seleção, ela é brasileira e não da CBF. Não pense que você será confundido com puxa-saco.

Fosse assim, não deveríamos torcer nem para nossos clubes do dia a dia. Ou acha que a cartolagem paroquial é diferente da nacional? Com exceções louváveis, fazem parte da mesma roda que se autossustenta. Também não vibraríamos com medalhas de nenhuma modalidade esportiva, se associarmos os atletas ao COB. Por favor, não me tome como hipócrita ou com valores maleáveis. Evidentemente, meu sonho é igual ao seu: transparência e lisura no esportes, em todos os níveis. Assim como na Política... mas evitemos esse terreno, que é conversa pra mais de metro.

Você pergunta: “E amanhã? Dá pra passar?” Dá. O México será franco-atirador, como diante da Alemanha. O desafio é atraí-lo, proporcionar-lhe falsa sensação de domínio e golpeá-lo com contra-ataques rápidos. Mais do que nunca serão necessários lançamentos de Coutinho, chegadas de surpresa de Paulinho e dribles de Neymar e Jesus. Se avançar, nas quartas é outra história.

*COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E COMENTARISTA DA ESPN

 

 

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