Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

'A seleção tem de jogar para o Neymar decidir', afirma Zico

Ex-craque do Flamengo diz que o novo astro do Barcelona sabe de sua responsabilidade

Leonardo Maia, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2013 | 07h50

RIO - Zico disputou três Copas do Mundo (1978, 1982, 1986). Nelas, viveu todo tipo de experiência. De um garoto que começava a despontar como craque à grande esperança do time. Foi herói e foi vilão, como no pênalti perdido no tempo normal contra a França, em 1986, um estigma até hoje. Zico sabe bem, portanto, o que é carregar a expectativa de todo o País sobre os ombros, de ser aquele que deveria decidir os jogos, e viver a frustração de ser cobrado por falhar. Mais do que ninguém, Zico tem gabarito para decretar: "A seleção tem de jogar para o Neymar. Você tem um fora de série, tem de explorar. Tem gente que diz que não se pode jogar essa responsabilidade para ele. Tem que jogar porque ele já mostrou que está preparado".

 

Nesta entrevista ao Estado, o Galinho comenta a importância de Neymar disputar uma temporada na Europa antes da Copa do Mundo, sua aposta na Argentina como grande adversário do Brasil, as escolhas de Luiz Felipe Scolari e o novo Maracanã.

 

ESTADO - Qual é sua visão sobre a transferência do Neymar para o Barcelona?

ZICO - Acho que vai ser importante para ele e a seleção brasileira. Vai disputar as grandes competições. Cresce um pouco mais a responsabilidade, pois se espera muito dele. Ele vai enfrentar o tipo de marcação que terá na Copa. Estava precisando se redescobrir. Acho que, num time com jogadores de alto nível, a tendência é o crescimento dele.

 

ESTADO - Confia no sucesso de Neymar por lá? Como será a adaptação dele ao futebol espanhol? Ele passa por um momento ruim no Brasil.

ZICO - Ele tem uma coisa que poucos têm, que é talento, qualidade, futebol. Muitas vezes é uma questão de adaptação ao time, aos jogadores, à vida por lá. Eu acho que foi um momento bom. Aqui, ele estava com muitos compromissos além do futebol. Por mais jovem que você seja, é muito desgaste. Lá, vai acabar isso. O Barcelona sabe resguardar bem o atleta. Lá, ele vai estar mais dedicado aos treinamentos e à condição física. Vai ser benéfico para ele e a seleção.

 

ESTADO - O que espera da parceria dele com Messi?

ZICO - A gente espera grandes jogadas, grandes gols, porque eles sabem fazer o que a gente quer ver, que é jogar bola. No Barcelona, eles jogam muito de primeira, jogam mais simples, prendem menos a bola e sabem usar o drible no momento certo. Não adianta sair driblando todo mundo no meio e chegar cansado na hora de definir. Quando o Neymar começar a jogar mais simples, vão começar a dar mais espaços para ele.

 

ESTADO - Cobram mais brilho do Neymar na seleção. Acha que a Copa das Confederações será a competição para ele estourar de vez com a amarelinha?

ZICO - O Messi só agora começou a ter melhor rendimento na Argentina. Quando você tem esse tipo de jogador, você tem de fazer o jogo para eles. Quando a Argentina começou a entender que se jogasse em função do Messi seria beneficiada, passou a fazer isso. Tem que jogar para o Neymar decidir. Se você tem um fora de série tem que explorar, deixá-lo para o momento certo. No basquete, para quem vai a última bola? Para o fera. Você tem um fera no futebol, você tem que ir nele. Tem gente que diz que não se pode jogar essa responsabilidade para ele. Tem que jogar, porque ele já mostrou que está preparado. Pedir para jogar com a 10 mostra que ele sabe a responsabilidade que tem.

 

ESTADO - O que espera do time de Felipão nas Confederações?

ZICO - Vai ser um período de observação do Felipão para a Copa do Mundo. Ele vai tentar formar uma base para a seleção brasileira. Ele pode ter os mesmos jogadores, mas um conceito diferente do que aquele que o Mano (Menezes) tinha. Agora tem que dar um passo atrás.

 

ESTADO - Essa seleção da Copa das Confederações será a mesma da Copa do Mundo?

ZICO - Eu não vejo condição de fazer muitas mudanças, não. Dessa seleção que foi convocada não tem um que você possa dizer que foi injustiçado. Eu não vejo injustiça nenhuma (taxativo). Eu vejo preferência. Talvez alguém tenha preferência por um ou dois, mas a convocação é isso que está aí.

 

ESTADO - O que você acha da concepção de jogo do Felipão, que prioriza a marcação?

ZICO - É uma concepção que já o levou a vitórias. É normal que você mantenha. Não vejo nada para contestar. Ele tem aquela coisa da união do grupo, é muito justo, muito correto, dá força para o pessoal, mas tem um conceito de futebol e procura encaixar os jogadores nessa filosofia.

 

ESTADO - O Hulk foi muito vaiado no amistoso com a Inglaterra...

ZICO - Realmente, eu não entendi. A única coisa que eu acho é que o Hulk joga pelo lado direito. O Oscar joga mais pelo meio no Chelsea. O Neymar joga pelo lado esquerdo. Houve uma mudança. Você sente falta do espaço. Você costuma jogar com uma visão de campo, cortar para um lado. Você tem que saber aproveitar as características desses jogadores que estão o ano inteiro fazendo isso. No meu time, o Hulk é titular. Eu o vi ainda garoto no Japão fazendo coisas do arco da velha. Ninguém desaprende. Talvez seja o problema do peso. Ele precisa ganhar explosão, velocidade.

 

ESTADO - Qual adversário tem mais chances de tirar o título de 2014 do Brasil?

ZICO - A Argentina, por causa do Messi. O retrospecto dos europeus na América do Sul, fora da Europa, não é dos melhores. Então, eu acho que a Argentina, por causa do Messi e por ter encontrado um estilo de jogo que o favoreça. Os jogadores entenderam que é ele que vai decidir as partidas. Depois, a Alemanha e a Espanha. Tenho minhas ressalvas à Espanha porque os rivais começaram a entender como é que eles jogam. E eu não os vejo conseguindo encontrar uma solução. O Barcelona sem o Messi é a seleção da Espanha. Toca para lá, toca para cá, ninguém dribla. No Barcelona, você dá no Messi, ele dribla e abre tudo. Sem o Messi, ninguém dribla, aí o adversário monta uma barreira e ninguém entra. A Espanha é isso. Eles têm que encontrar alternativas para sair dessas marcações.

 

ESTADO - No jogo contra a Inglaterra, o torcedor carioca demonstrou apoio à seleção. Sempre existiu o temor de o Brasil atuar em casa por causa da pressão do torcedor brasileiro. Acha que a torcida já abraçou o time e entrou no clima de Copa do Mundo?

ZICO - Você tem que criar a situação para que a torcida venha contigo. Entrar realmente para ganhar, para fazer um jogo que agrade. Na nossa época nunca foi preciso fazer assim (levantar os braços) para o torcedor te apoiar. Ele vai na sua gana, sua vontade, sua marcação. O torcedor ficou exigente com as muitas conquistas do Brasil.

 

ESTADO - O que achou do novo Maracanã?

ZICO - Era necessária (a reforma). O Brasil precisava de uma remodelação. A Fifa tem suas exigências. O Maracanã ficou mais bonito, mais confortável. Em todo lugar do Maracanã você vê o jogo bem. A única coisa que eu não gostei foi a diminuição do campo. (O antigo) viveu o tempo dele. Vai continuar a ter sua magia. Daqui a pouco as torcidas começam a ocupar seus espaços e fazer uma nova festa. Padronizou? Padronizou. Mas, daqui a pouco, o ingresso vai baixar e não vai ficar coisa de elite, de bacana.

 

ESTADO - Você concorda com o Estado do Rio gastar R$ 1,2 bilhão na reforma do estádio e cedê-lo à iniciativa privada?

ZICO - O importante do Maracanã é você ter alguém para administrar e administrar bem. Ali tem que ter eventos, ser palco de alguma coisa. Se o governo gastou, ele pode recuperar isso. Eu não vejo nada demais em privatizar.

 

ESTADO - E a classificação do Japão para a Copa do Mundo?

ZICO - Era mais do que certa, né? O Japão está bem acima dos outros na Ásia. Os jogadores estão nos grandes centros. Dos 23 (convocados), 12, 14 estão na Europa e jogando. Na minha época eles estavam lá, mas jogavam poucos minutos. Hoje são titulares, chegam para a seleção em grandes condições. Eu espero que façam uma boa Copa do Mundo. Ainda os vejo com dificuldades contra seleções sul-americanas, pela velocidade, os dribles.

 

ESTADO - E com respeito à organização do Brasil para a Copa? Você viu de perto o Japão organizar uma Copa.

ZICO - O Japão (não precisou) organizar Copa do Mundo nenhuma. Eles só fizeram os estádios. A gente só sabia que tinha Copa do Mundo no estádio. A questão é que no Japão tudo funciona: o hotel, o aeroporto... Eles não mudaram a vida deles por causa da Copa. Quem quisesse que fosse de ônibus. No aeroporto, você não sabia que tinha um jogo de Copa do Mundo.

 

ESTADO - E o Brasil?

ZICO - O grande problema do Brasil, e eu tenho viajado muito, é não estar preocupado com a parte turística, em se mostrar ao mundo. Porque as pessoas vão vir para o Brasil não só para ver jogo, mas para conhecer o País. Para conhecer o Pantanal, a Amazônia, Brasília, conhecer Copacabana, Lençóis Maranhenses. Eu não estou vendo condições para esse translado todo. Acho que podemos não estar preparados com hotéis, aeroportos, tecnologia. Minha preocupação é essa, quando não tiver jogo.

 

ESTADO - Em outros países, existia um presidente da confederação nacional e um presidente diferente do Comitê Organizador. Aqui no Brasil temos essa unificação, também para as Olimpíadas. Não acha isso prejudicial?

ZICO - Isso é muito, muito prejudicial. O presidente da CBF já tem uma responsabilidade grande. O cara tem que ceder. Eles poderiam tentar trazer a população para junto, para estar feliz com a Copa do Mundo. O que eu não vejo na rua é a satisfação de você realizar uma Copa do Mundo. Na hora que escolhe (o País) é aquela festa, depois vem uma série de situações que entristece, decepciona as pessoas. Aí vem o tal do "imagina na Copa". Você não vê o povo otimista. Em razão desses gastos, desses problemas. Parece que (a Copa) foi uma vitória só do Ricardo Teixeira. Na França (o presidente do COL) foi o Platini, na Alemanha, era o Beckenbauer. Eram pessoas respeitadas que colocavam a cara à tapa. Aqui era o Ricardo Teixeira e já tem um desgaste desde cedo.

 

ESTADO - As articulações para a sucessão do Marin já começaram. Como vê esse cenário da CBF no momento?

ZICO - Uma entidade que controla a paixão do torcedor brasileiro, que é o futebol, tem que ser sempre limpa e transparente. Não estou a par do que está acontecendo. A forma como é feita é que não me agrada. Para ser candidato você tem que ser levado por não sei quantas federações. Então é só aquele pessoal que pode se candidatar. Uma pessoa de fora, que tem boas ideias, que pode trazer credibilidade, não pode (se candidatar) porque vai ter que fazer um monte de acordos. Não dá liberdade para outras pessoas surgirem, para haver uma candidatura livre.

 

ESTADO - Alguém já o procurou para buscar apoio?

ZICO - Não, não.

 

ESTADO - Cogita presidir a CBF em algum momento futuro?

ZICO - Até foi feita uma enquete na internet que me apontou como o preferido, mas não, não. Na minha situação de vida hoje, ainda estou pleiteando ser um profissional de futebol, não estou com um tipo de vida que me levasse a me candidatar a um cargo como esse.

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