Hélvio Romero/Estadão
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A serpente que Tite precisa encantar

Abuso de individualidade do seu principal nome preocupa na seleção brasileira

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 04h00

Em entrevista à ESPN há um ano e meio, Diego Lugano definiu Tite como o “encantador de serpentes”. Para o ídolo uruguaio e são-paulino, o treinador da seleção brasileira merece tal rótulo “porque tem todos da imprensa adormecidos”. Nem todos, aparentemente muitos, o que fica claro na cobertura do Brasil na Copa. Escolhas do técnico praticamente não sofrem questionamentos, o que chama a atenção, afinal, independentemente de sua competência e do bom trabalho, ninguém é perfeito e imune a críticas.

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O decepcionante empate diante da Suíça gerou repercussão maior pelas polêmicas envolvendo arbitragem e o uso, ou não, do recurso de vídeo. Em segundo plano ficaram os problemas da atuação brasileira. Sim, a seleção helvética não é “galinha morta”, tampouco só retranca com o tradicional ferrolho, como mostramos neste mesmo espaço semana passada, três dias antes de o Mundial começar. Mas o Brasil poderia e deveria ter feito mais em Rostov. Afinal, a própria tolerância de parte da mídia, se deve ao que de bom já foi feito.

A marcação de falta, ou não, em Miranda no gol de Steven Zuber divide opiniões. Brasileiros em maioria reclamaram porque a arbitragem ignorou o VAR (sigla em inglês para Video Assistant Referee, o árbitro assistente de vídeo). Mas os homens escalados para auxiliar o mexicano Cesar Ramos acharam que o toque do suíço não foi forte o bastante para caracterizar infração.

E a comissão da Fifa endossou tal postura. Isso evidencia o quão discutível foi a jogada e como é tolo resumir a isso uma peleja que teve aspectos mais relevantes.

 

Entre eles chama a atenção o posicionamento da defesa na jogada decisiva para impedir a vitória brasileira. Todos os jogadores de amarelo estavam na área quando Shaqiri bateu o escanteio. Suíços por ali eram cinco, na pequena área apenas o autor do gol, cercado por nove brasileiros. É evidente que isso tira o sono de Tite, como o posicionamento de Miranda, à frente do adversário, quando deveria estar ao lado ou atrás de Zuber, o que inviabilizaria o empurrãozinho maroto dado pelo meia do Hoffenheim.

Se a defesa preocupou, o restante da equipe idem, pela ineficiência na busca do gol da vitória, pelo descontrole após o 1 a 1, pelo abuso de individualidade do seu principal nome. Neymar sofreu uma dezena de infrações (nenhuma violentíssima), mesma quantidade de Portugal, México, Dinamarca e Rússia com seus times inteiros. Algo amplamente destacado pela imprensa brasileira, mas as razões que levaram a tal número merecem aprofundamento. Ele ignorou o jogo coletivo e “chamou” os adversários para o confronto, mesmo longe da área, em setores do campo onde seu drible não leva a um objetivo maior.

O camisa 10 prendia a pelota em demasia, não dava fluência ao jogo, ignorava as luxuosas presenças de Marcelo e Philippe Coutinho por perto e não criava situações de perigo. Todos os ajustes feitos pelo técnico para aprimorar o conjunto brasileiro ficaram comprometidos pela postura de seu mais talentoso atleta. É necessário que o convençam a mudar de comportamento em campo. E logo, pois a Copa do Mundo não concede muito tempo para correção de erros. Neymar é a serpente que Tite ainda precisa encantar.

 

 

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