A sétima arte mostra os tesouros de Pelé

Pelé chegou atrasado e se atrapalhou para encontrar o melhor caminho até o palco, onde era esperado nesta quinta-feira por diversos jornalistas brasileiros e estrangeiros, no Hotel Unique. Foi, porém, seu único momento de vacilo ? durante quase duas horas, o Rei do Futebol comentou com precisão sobre os detalhes da elaboração do documentário Pelé Eterno, que finalmente estréia em circuito nacional no dia 25 de junho. ?Com o filme, espero relembrar diversos fatos que estavam esquecidos ou nem eram sabidos?, comentou Pelé, que, durante a entrevista coletiva, anotava sistematicamente o nome e o órgão de imprensa do entrevistador. ?Espero que os torcedores que já estão acostumados a assistir aos gols de Pelé conheçam também o trabalho que ele fez fora dos gramados, principalmente os sociais?, comentou. ?Espero também que seja ressaltado um detalhe, pouco divulgado: na Copa da Suécia, em 1958, o Brasil era a única seleção (ao menos entre as que tinham condição de conquistar o título) a contar com jogadores negros. Hoje, isso é comum em qualquer seleção.? Pelé Eterno é um projeto acalentado pelo diretor e produtor Aníbal Massaini Neto há vários anos. Em 82, quando Pelé foi eleito o Atleta do Século pela revista francesa L?Equipe, ele esboçou um primeiro projeto, que seria dirigido por Jayme Monjardim. ?Mas a falta de recursos tecnológicos, que hoje são abundantes, impedia que realizássemos um documentário diferente dos que já existiam?, conta Massaini, que retomou a idéia em 99, trabalhando incessantemente desde então. Foi uma verdadeira garimpagem de imagens e fotografias, desde em locais mais prosaicos, como o próprio arquivo particular de Pelé, até em arquivos da televisão do Afeganistão. Por conta das novas descobertas, o filme transformou-se em um trabalho em constante produção, o que adiava sempre a data de estréia ? até 25 de junho, por exemplo, Massaini pretende fazer alguns ajustes finais. O cuidado, porém, é justificável: o documentário exibe tesouros que surpreenderam o próprio Pelé. Ele contou que, ao ver um jogo que tinha um combinado Santos e Vasco, no Maracanã, surpreendeu-se com o gol marcado por um ?crioulinho magrinho e feinho?, que vestia a camisa da Cruz de Malta. ?Mas esse é você!?, falou Massaini. ?Fiquei emocionado de rever o primeiro gol que marquei no Maracanã e do qual não me lembrava mais?, disse Pelé. Outra raridade foi um jogo de março de 1961, também no Maracanã, onde o Santos enfrentou o Fluminense. Nas arquibancadas, a figura inconfundível do jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues que, encantado pelas jogadas de Pelé, escreveu um artigo em que provavelmente foi o primeiro a tratá-lo por rei. Pelé contou que chora todas as vezes em que revê o documentário e sente orgulho de fatos como aquela partida do Santos na África, que só foi realizada porque o governo local conseguiu suspender momentaneamente a guerra civil que dizimava o país. ?Ainda é emocionante rever aquelas pessoas gritarem o nome do Pelé.? Edson Arantes do Nascimento continua a tratar Pelé como uma outra entidade, aquela que, em 21 anos de carreira, marcou 1.281 gols. Assume a primeira pessoa, no entanto, quando fala do único entrave surgido durante a pesquisa de material: deveria ou não mencionar as duas filhas que teve fora do casamento? ?Como, no futuro, alguém poderia perguntar sobre isso ao ver o documentário, achei melhor não esconder o assunto.? Ao selecionar as imagens, Massaini conta que teve de excluir um material também precioso, mas que não será totalmente ignorado ? em 2006, ano da Copa da Alemanha e marco dos 50 anos de carreira de Pelé, o documentário vai se tornar uma minissérie para a televisão. Depois do Brasil, Pelé Eterno vai seguir carreira na América Latina e Europa. Trata-se da primeira co-produção de dois grandes estúdios de Hollywood, a Universal e a United International Pictures. Perguntado sobre sua expectativa de reação do público argentino, que prefere Maradona, Pelé marcou um gol de placa no cavalheirismo além de espetar o rival com elegância. ?Espero que Maradona se recupere o quanto antes de seus problemas de saúde e que possa ver o documentário. Depois disso, ele que tire as próprias conclusões.?

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