A solidão do craque Rivaldo

O maior jogador do mundo no ano de 1999,campeão mundial e um dos melhores jogadores da Copa de 2002,atual titular incontestável da seleção de Carlos AlbertoParreira está isolado em sua solidão. O pernambucano Rivaldo,aos 31 anos, tem hoje um só sonho: quer ir para um clube no qualpossa dar seus chutes mortais com a perna esquerda, suasarrancadas espetaculares. Enfim, o craque que se desiludiu nofutebol italiano quer hoje apenas jogar bola. Rivaldo está de volta ao Brasil depois de romper seu contratocom o Milan, dia 29 de novembro. A iniciativa foi sua. Foi eleque procurou o presidente do clube, o todo poderoso SilvioBerlusconi, para pedir para sair. Esquecido pelo técnico CarloAncelotti, Rivaldo não aguentou mais ficar sem jogar. Seu pedidofoi aceito, as duas partes se despediram de modo altamentecivilizado. Ancelotti elogiou o profissionalismo do atleta. Oporta-voz do Milan deu a desculpa de que ele não se encaixava noesquema tático da equipe. Rivaldo curte agora o sossego da pacata Mogi Mirim, nointerior paulista, cidade que o revelou para o futebol. Foi nosimpático "Sapão", o apelido do Mogi Mirim Esporte Clube, queele formou trio inesquecível com Valdo e Leto, no "carrosselcaipira", em 1993. Depois vieram Corinthians, Palmeiras, LaCoruña, Barcelona, Milan, o mundo, enfim. Encerrado o ciclo deglórias, tudo leva a crer que Rivaldo vai partir para uma novafase em sua carreira. Os dias que está passando em Mogi Mirim,ao lado dos filhos Rivaldinho e Thamyris, certamente servirãopara que ele decida o seu destino. É provável que Rivaldo seaventure no futebol inglês, mas também pode voltar ao Brasil. Osdois antigos Palestras ? Cruzeiro e Palmeiras ? estariaminteressados em repatriá-lo. Um sonho? Na verdade, um mistérioque talvez seja revelado pelo próprio Rivaldo, que promete,ainda nesta semana, quebrar seu isolamento e falar à imprensa."Ele vai se pronunciar sobre seu futuro nos próximos dias",prometeu o procurador e advogado José Carlos Lages, que tratados negócios do craque junto com Carlos Arime. O próprio Lages explicou as informações dadas, na semanapassada, pelo empresário português Jorge Gama, de que Rivaldoestaria negociando com clubes da Inglaterra. "O Jorge apenasrepresenta dois clubes ingleses, que manifestaram interesse pelofutebol de Rivaldo." Futuro ? Rivaldo muitas vezes já manifestou a vontade deencerrar a carreira. Não se dá muito bem com as críticas. Suasexibições pela seleção brasileira nem sempre receberam elogios.Nessas horas, escolhe o silêncio como resposta. Nas poucasocasiões em que fala é monossilábico. Segue na contramão dosastros de futebol: não tem assessores pessoais, como a maioriados jogadores e dá pouca importância a ações de marketing. Deixaseus negócios nas mãos de Carlos Arime e José Carlos Lages. Entre esses negócios estão as propostas dos clubes ingleses,que desta vez pode não hesitar em aceitar. Em 1999, recusousalários de US$ 413 mil para defender o Manchester United. Hoje,por menos, pode defender Chelsea, Liverpool, ou o próprioManchester. Além da perda financeira, passaria a atuar em umcampeonato sem grande visibilidade como o Espanhol ou oItaliano. Mas para quem agora está mais interessado apenas em jogarfutebol, a estratégia pode não ser a mais certa. O Liverpool,grande potência inglesa em anos passados, tenta retomar ocaminho de grandes títulos. A cobrança seria grande. NoManchester, estaria em um clube acostumado a conquistas erecheado de estrelas. Poderia acabar na reserva, repetindo anovela recente vivida no Milan. No Chelsea, do multimilionárioRoman Abramovich, Rivaldo faria parte de um projeto semelhanteao do Palmeiras na era Parmalat. Teria bons companheiros, comoPetit, Makelele, Verón, Crespo e a chance de retomar o caminhode conquistas. Resta saber se sem ser muito pressionado. Talento precoce ? Os primeiros chutes a gol de Rivaldo foramdados no futebol de várzea, nos times da Vila Chesf e noPaulistano, da pequena Paulista, vizinha de Recife. Aos 11 anos,seu pai o levou para fazer testes no Santa Cruz. Mário Santana,sargento reformado da PM foi seu primeiro técnico. Atuando decentroavante, acabou bicampeão do time de juniores. O salário naépoca: R$ 50,00 por mês, o que dava apenas para ajuda de custo. Suas atuações pela equipe de juniores do time pernambucano naTaça São Paulo de 1992 chamaram a atenção dos dirigentes do MogiMirim. Transferiu-se para o interior paulista. Fez parte do"carrossel caipira", ao lado de Leto e Valdo, sob o comando deOswaldo Alvarez, o Vadão. No ano seguinte, defendeu oCorinthians. Depois de belas exibições, queria umreconhecimento. Entenda-se aumento: R$ 40 mil mensais. Não houve acordo e ele acabou no Palmeiras de VanderleiLuxemburgo e da Parmalat. Seu futebol cresceu. Colecionou gols,títulos e acabou sendo recompensado com a ida à Europa. ODeportivo La Coruña, para o qual foi negociado em 1996, foi odestino inicial. Na verdade, apenas trampolim para a seleçãobrasileira e o poderoso Barcelona. Dono de dribles variados, arrancadas poderosas e passesperfeitos, virou sinônimo de conquistas: Copa do Rei,bicampeonato espanhol e melhor jogador do mundo. Rivaldo fez detudo para apagar a mancha pela perda do título de campeão daCopa do Mundo para a França, em 1998. A recompensa viria quatroanos mais tarde, em 2002, diante da Alemanha. Precisamente namanhã de 30 de junho no Brasil ? ou noite em Yokohoma, no Japão.Os dois gols de Ronaldo não ofuscaram uma campanha impecável,digna de um astro de primeira grandeza. Mas depois da Copa, Rivaldo começou a viver seu infernoastral. O Barcelona resolveu recontratar o técnico Louis VanGaal, seu antigo desafeto. Foram meses de discussões, trocas deacusações, que culminaram com a rescisão de contrato. O acerto com o poderoso Milan parecia resolver de vez seusproblemas, mas Rivaldo novamente teve se caminho bloqueado porum treinador, Carlo Ancelotti. Apesar de se mostrar simpático,bem diferente de Van Gaal, Ancelotti também não se entusiasmoucom o futebol do craque brasileiro. Depois de um início detemporada como titular, foi perdendo espaço no time. Acontratação do jovem Kaká indicava que seus dias no Milanestavam contados. Chegou a anunciar sua saída do clube, no fimde setembro. Dias depois, mudou de opinião. Mas a solidão dareserva falou mais alto. Deixou Milão, passou por Barcelona,onde reviu seus amigos, e voltou ao Brasil. Um ciclo secompletou.

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