Juan Mabromata/AFP
Juan Mabromata/AFP

A solução diante de tanta barbárie é uma só: ter apenas um time em campo

Repórter do Estadão acompanha todos os fatos dentro da La Bombonera e relata suas impressões

Rodrigo Cavalheiro, correspondente em Buenos Aires , O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2015 | 17h59

Boca Juniors e River Plate deixaram o campo do Estádio La Bombonera à 0h21, já madrugada de sexta, derrotados. Garrafas plásticas eram arremessadas por torcedores indignados com a suspensão do jogo, anunciada pela Conmebol uma hora e meia antes, quando a partida deveria ter acabado. Cada objeto que atingia o túnel inflável do árbitro, no centro do campo, a esta altura a única saída possível dos visitantes do gramado, era celebrado como um gol. A torcida chamava os atletas do River de covardes e "gallinas", apelido pejorativo dado aos fãs do clube do Monumental de Nuñez.

Alguns torcedores só observavam e coçavam os olhos, atingidos levemente pelo gás. Outros lamentavam que o River acabaria beneficiado com a classificação. Não se ouviam comentários, neste setor chamado plateia, um anel intermediário onde sócios se misturam com jornalistas no lado oposto aos camarotes, de que ali transcorria um fiasco mundial.

Enquanto em partes do mundo, até no Brasil, alguns clubes se atrevem a misturar seus torcedores, a Argentina tomou rumo contrário. Há dois anos, segregou. Quando um clube argentino enfrenta outro argentino, não há torcida visitante. Isso vale não só para clássicos, mas também para um confronto entre Boca e um timeco com mais atletas que torcida. A torcida única é o reconhecimento da incapacidade de convivência, da suspensão do "contrato social", do fim tolerado da civilidade, desde que em um  pedaço grama cercado por concreto. Esse clima de pressão absoluta criado contra o adversário deu a alguém coragem para usar gás de pimenta no túnel em que os jogadores do River saíam para o segundo tempo.

No dia 7, no clássico do Monumental de Nuñez, talvez pelo resultado favorável aos locais, 1 a 0, não houve confusão. Ficou a imagem do espetáculo e até luziu charmosa a superlotação no setor mais popular, sobre o cimento. Havia cinco cordões de revista na entrada, mas ainda assim sobravam tensão e sinalizadores no estádio. Eram arremessados ao som de cânticos contra os "bosteros", apelido depreciativo dado aos boquenses, afirmando que descendem de paraguaios e bolivianos. No ar colorido pelo papel picado, sentia-se o mesmo clima de ganhar de qualquer jeito, de aproveitar a vantagem de 60 mil contra 11.

Se a ideia é não perder a qualquer preço, que jogue um time só.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.