UEFA / AFP
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A Superliga Europeia pensou que tinha um sócio silencioso: a Fifa

Publicamente, a entidade máxima do futebol criticava a dissidente Superliga Europeia. Reservadamente, porém, manteve meses de negociações com os fundadores da competição a respeito de endossá-la

Tariq Panja, The New York Times

28 de maio de 2021 | 20h00

Escondidas entre páginas e mais páginas de jargão financeiro e jurídico que constituem o contrato de fundação da Superliga Europeia — o projeto fracassado que ameaçou brevemente as estruturas centenárias e a economia do futebol europeu no mês passado — havia referências a um requisito “essencial”.

A condição era tida como tão importante que os organizadores concordavam que o plano dissidente não poderia ser bem-sucedido sem satisfazê-la e, ainda assim, era tão secreta que recebeu um codinome mesmo nos contratos compartilhados entre os fundadores.

Esses documentos, cujas cópias foram analisadas pelo The New York Times, se referem à necessidade de os fundadores da Superliga alcançarem um acordo com uma organização disfarçadamente qualificada como W01, mas facilmente identificável como Fifa, a entidade máxima do futebol mundial. Esse acordo, afirmam os documentos, era “uma condição essencial para a implementação do projeto SL”.

Publicamente, a Fifa e seu presidente, Gianni Infantino, se juntaram a outros dirigentes do futebol, fãs do esporte e políticos nas críticas ao projeto — de vida curta — da Superliga, que teria possibilitado a um pequeno grupo de times europeus, que incluía o espanhol  Real Madrid, o italiano Juventus e os poderosos ingleses Manchester United e Liverpool, entre outros, acumular uma fatia ainda maior da riqueza gerada pelo esporte.

Reservadamente, porém, de acordo com entrevistas com mais de meia dezena de dirigentes do futebol, incluindo o dono de um dos clubes da Superliga, Infantino estava ciente do plano e sabia que alguns de seus mais próximos assessores haviam mantido conversas por meses — pelo menos até o fim de janeiro — a respeito de conceder o apoio da Fifa à liga dissidente.

A Superliga foi talvez o mais humilhante fracasso na história do futebol moderno. Anunciado por 12 dos mais ricos clubes do mundo, no fim de uma noite de domingo, em abril, o projeto foi abandonado menos de 48 horas depois, em meio a uma tempestade de protestos de fãs, ligas, times e políticos. Desde então, seus clubes fundadores se desculparam — alguns deles várias vezes — pela participação, e alguns ainda poderão enfrentar significativas consequências financeiras e esportivas.

Mas as discussões de bastidor que levaram a uma semana de drama público deixaram transparecer latentes tensões entre a Fifa e a Uefa, a entidade que representa o futebol europeu, a respeito do controle de bilhões de dólares de receita anual; expuseram uma série de desgastes nas relações entre alguns dos mais altos dirigentes do esporte, que podem não ter mais volta; e levantaram dúvidas a respeito do papel da Fifa e de Infantino no projeto que abalou as fundações do futebol.

A Fifa recusou-se a responder questões específicas relacionadas ao envolvimento de Infantino ou seus assessores no planejamento da Superliga. Em vez disso, a entidade apontou para declarações anteriores e seu comprometimento com processos nos quais “todas as principais partes envolvidas no futebol foram consultadas”.

As negociações da Superliga com a Fifa começaram em 2019. Foram conduzidas por um grupo conhecido como A22, um consórcio de conselheiros liderado pelos financiadores Anas Laghrari e John Hahn, que vivem na Espanha, encarregado de formular o projeto da Superliga. Os integrantes do A22 se reuniram com alguns dos assessores mais próximos de Infantino, incluindo o vice-secretário geral da Fifa, Mattias Grafstrom.

Em pelo menos uma dessas reuniões o grupo dissidente propôs que, em troca do endosso da Fifa ao projeto, a Superliga concordaria com a participação de até 12 de seus principais times na atual Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Os times também concordaram em destinar à Fifa até US$ 1 bilhão ao ano dos pagamentos que receberiam para participar do campeonato, o que representaria um potencial lucro extra para a entidade. Após as reuniões iniciais, os conselheiros relataram que haviam sido recebidos por ouvidos atentos.

Obter o apoio da Fifa não era meramente uma salvaguarda; o consentimento da organização era necessário para evitar que o projeto afundasse em litígios custosos e duradouros — e para impossibilitar qualquer punição a jogadores que participassem do campeonato.

Mas isso era também uma apólice de seguros para os jogadores. Em uma discussão anterior sobre uma liga similar, em 2018, a Fifa fez ameaças aos esportistas, afirmando que jogadores que participassem de um campeonato não aprovado pela entidade seriam banidos de suas seleções nacionais — e, consequentemente, da Copa do Mundo.

Em meados do ano passado, os conselheiros do A22 diziam aos clubes que “a Fifa estava no barco”, de acordo com o dono de um time da Superliga. Outros entrevistados, incluindo várias fontes com conhecimento direto a respeito das reuniões que falaram sob condição de anonimato porque seriam processadas na Justiça se revelassem publicamente essas informações, em razão de contratos de confidencialidade, afirmaram que a Fifa estava pelo menos aberta à ideia da nova liga. Mas disseram que a organização e seus líderes não se comprometeriam — pelo menos não oficialmente — até que mais detalhes a respeito da estrutura do projeto fossem colocadas.

Confiantes de que conseguiriam obter o apoio de que necessitavam, os organizadores discutiram variados conceitos para a nova liga antes de chegar ao que apresentaram ao mundo quando revelaram sua intenção, em 18 de abril. A Superliga, como viria a ser conhecida, teria 15 membros permanentes, mas permitiria acesso a outros cinco times europeus a cada temporada de competição.

O A22 estava trabalhando em iterações de uma superliga há três anos. Laghrari, executivo da firma de consultoria Key Capital Partners, que conhece desde a infância o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, seria o primeiro secretário-geral da entidade. Pérez era, havia muito tempo, a força por trás de uma superliga, mas agora, enquanto ficava mais confiante a respeito do endosso da Fifa, os astros se alinhavam sobre ele e o amigo.

O plano dos fundadores era atrelar a Superliga à Copa do Mundo de Clubes da Fifa, afirmou o dono de time. Assim, até 12 dos maiores times da Europa se comprometeriam a participar do ambicioso campeonato de Infantino, em troca do endosso da Fifa para sua nova liga. Para facilitar o acordo, eles consideraram destinar US$ 1 bilhão em ganhos potenciais para a Fifa, para que a entidade usasse a quantia, denominada de pagamento solidário, para desenvolver projetos de fomento ao futebol em todo o mundo.

Não é sabido se mais negociações ocorreram entre a Fifa e os clubes da Superliga nas semanas que os times acabaram com o disfarce e anunciaram o projeto. Mas a Fifa foi a última das principais organizações do futebol a emitir um comunicado oficial a respeito da liga proposta após os clubes virem a público — e só o fez após a Uefa, ligas de primeira divisão e políticos deixarem clara a sua oposição.

O comunicado da Fifa, emitido enquanto Ceferin chamava os líderes da liga dissidente de “serpentes mentirosas”, foi muito mais comedido. Qualquer insinuação de excluir jogadores da Copa do Mundo foi discretamente abandonada, em vez disso, a Fifa optou por termos moderados e conciliatórios. A Fifa declarou que se mantinha “firme em favor da solidariedade no futebol e de um modelo de redistribuição equitativo capaz de ajudar a desenvolver o futebol enquanto esporte, particularmente em nível global”.

A entidade também reiterou que somente “expressaria sua desaprovação a uma ‘liga dissidente fechada na Europa’ que estivesse fora das estruturas do futebol internacional”.

Para os envolvidos na Superliga, as palavras — como em janeiro — eram vagas o suficiente para sugerir que ainda haveria esperança ao projeto, que a Fifa poderia ainda estar aberta para dar seu apoio.

Dois dias depois, porém, a esperança deles se esvaiu. A oposição ao plano havia se espalhado. Fãs no Reino Unido — lar de seis dos 12 membros fundadores — estavam protestando nas ruas, e políticos tinham ameaçado propor leis para banir a liga.

Infantino, como em janeiro, foi pressionado novamente por Ceferin a se distanciar desses planos. E o fez durante um discurso ao congresso da Uefa, em 20 de abril, no qual se afastou efetivamente do projeto da Superliga.

“A única coisa que podemos fazer é desaprovar veementemente a criação da Superliga”, afirmou Infantino. “Uma superliga que é um estabelecimento fechado, dissidente em relação às atuais instituições, ligas e associações, em relação à Uefa e à Fifa. Há muito do que abrir mão para o benefício financeiro imediato de alguns. Eles têm de refletir, têm de assumir sua responsabilidade.”

Horas depois, ao dar-se conta de que o requisito “essencial" para que o projeto funcionasse não ocorreria, os primeiros clubes começaram a se afastar. No fim da tarde, todos os seis clubes ingleses tinham anunciado que estavam fora. À meia-noite, três outros fundadores haviam feito o mesmo.

Hoje, apenas três times — o Real Madrid, de Pérez, o Juventus e o Barcelona — continuam com essa esperança e se recusam a assinar a carta de desculpas exigida pela Uefa como condição para serem reintegrados ao futebol europeu. Se não assinarem, os três clubes sofrerão penalidades significativas, incluindo o possível banimento da Liga dos Campeões. / Tradução de Augusto Calil

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