Hélvio Romero/Estadão
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Mauro Cezar Pereira
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A Tite o que é de Tite

Separar o técnico da CBF é missão impossível que recheia discursos conformados

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 04h00

Tite faz parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Foi por ela cooptado em junho de 2016 quando aceitou não apenas o cargo de técnico da seleção brasileira, como se dispôs a ser apresentado pelo então presidente da entidade. Ganhou até homenagem de Marco Polo del Nero, cujo nome já integrava lista do FBI. O cartola não deixava o território brasileiro, sob o risco de ser detido, como aconteceu com seu antecessor e vice, José Maria Marin.

Em 2018, Del Nero seria banido do futebol pela Fifa. Ele foi considerado culpado em episódios diversos. Tite sempre driblou o assunto em entrevistas coletivas. Só não se esforçou para desvencilhar-se do beijo que o ex-cartola sapecou em sua face ao entregar uma camisa da seleção com o nome da mãe do treinador, quando aceitou ser apresentado como novo comandante do time “cebeefiano” em cerimônia estrelada pelo dirigente.

Dissesse à época que não, seria prontamente atendido. Não nos esqueçamos do contexto da contratação. A equipe canarinho era sexta colocada nas Eliminatórias Sul-Americanas. Com Dunga, corria risco de não se qualificar para a Copa do Mundo. Temendo não ter seu time na Rússia, a CBF estava de joelhos diante de Tite dois anos antes do Mundial, quando lhe pediu socorro. Uma apresentação sem Del Nero, regalos e ósculos seria simbólica.

Se Tite compôs, como desconectá-lo do organismo ao qual se associou? Ele não tem qualquer participação nas ações que levaram o ex-presidente a ser cuspido pela Fifa, mas é parte da engrenagem que move a CBF. Ao desfalcar times brasileiros por amistosos inexpressivos mais de quatro anos antes da próxima Copa, o técnico foi egoísta. Nem parecia o corintiano que se queixava da lista de convocados 18 dias antes de se transformar em convocador.

Separar Tite da CBF é missão impossível que recheia discursos conformados ou controlados pelo status quo que movimenta a política futebolística nacional. Por que se o calendário é o problema maior, a instituição que o técnico representa é a culpada. Seguimos reféns de uma programação que aperta os times em mais de 80 jogos por ano por causa de estaduais longos, jamais reduzidos para não desagradar as 27 federações que os promovem.

E, não esqueçamos, são essas entidades que elegem o presidente da CBF. Desde 2017 com peso três, enquanto os clubes da Série A têm votos com peso dois e os da B, um. Fácil entender porque não se enxuga tais certames. Apesar da derrota em terras russas, Tite ainda tem peso e lhe sobram ofertas de trabalho. Independência! Seria bacana vê-lo chamar 23 atletas que atuam no exterior para os amistosos sem sal contra El Salvador e Estados Unidos, em setembro.

O técnico perdeu a chance de mostrar coerência com seu discurso dos tempos em que trabalhava em clube e até assinou manifesto pela renúncia de Marco Polo Del Nero, em dezembro de 2015. Apenas meio ano antes de por ele ser contratado. Estaríamos aplaudindo Tite se desse uma contribuição ao futebol jogado no Brasil. Bastaria não mutilar times envolvidos em competições mais relevantes do que esse par de jogos insossos. Opções não lhe faltavam.

Ele não é técnico da Argentina, Usbequistão ou Irlanda do Norte, convoca para a seleção brasileira, trabalha para a CBF e se não é quem monta o calendário, responde e aceita carinhosas homenagens de quem dele se aproveita. Por favor, sem passadas de pano, tentativas de proteger o treinador como se fosse um ser à parte, mesmo trabalhando dentro da suntuosa sede que a confederação mantém na Barra da Tijuca.

A Tite o que é de Tite. 

 

 

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