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A um passo do Brasileirão e da Libertadores, Flamengo pode igualar feito do Santos de Pelé

Clube rubro-negro pode conquistar as duas competições em um mesmo ano, algo que aconteceu com o time alvinegro em 1962 e 1963

Marina Aragão, Especial para o Estado

23 de novembro de 2019 | 09h00

Em tempos de Gabigol, Bruno Henrique e Filipe Luís, o Flamengo pode igualar o Santos de Pelé, Pepe e Lima na década de 60. O time paulista foi o único a ganhar o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores da América em um mesmo ano - em 1962 e 1963. Na época, a competição nacional não era o Brasileirão como conhecemos, de pontos corridos e com 38 rodadas. Os times disputavam a Taça Brasil, campeonato que durou de 1959 a 1968 no sistema mata-mata.

Em 1962, o Santos ganhou a Taça Brasil em cima do Botafogo e a Libertadores, do uruguaio Peñarol. Já em 1963, a equipe conseguiu o título nacional ao derrubar o Bahia e ganhou a Libertadores sobre o argentino Boca Juniors. Neste sábado, o Flamengo  pode ganhar o título continental, depois de 38 anos, em cima do também argentino River Plate - a decisão será realizada a partir das 17h, em Lima, no Peru. No domingo, o time rubro-negro pode ser campeão antecipado do Campeonato Brasileiro caso o vice-líder Palmeiras não vença o Grêmio.

Para entender o que há de semelhanças e diferenças entre Flamengo e Santos e os contextos das duas décadas, o Estado conversou com especialistas em gestão de futebol e com os craques Pepe e Lima, ídolos do time alvinegro e da Seleção Brasileira. Eles ressaltaram uma semelhança importante entre o time paulista bicampeão e o Flamengo de 2019: um elenco bom. “A qualidade dos jogadores que o time tem é muito alta. O único time com essas condições hoje no Brasil é o Flamengo”, disse Lima.

Independentemente da formatação dos campeonatos, os ex-jogadores afirmaram que ter titulares e reservas em alto nível é o principal fator para as conquistas em sequência. Como prova da qualidade do time do Santos naquela época, Pepe relembrou que o elenco alvinegro era a base da Seleção Brasileira. “Pelas condições que o time do Santos tinha, os treinadores da época da Seleção sabiam que, levando oito ou nove, teriam um conjunto forte, com mais um ou dois de outros clubes”, contou Pepe, o famoso "Canhão da Vila".

Assim como o Santos, o Rubro-negro carioca tem um elenco de peso. Com 40 anos de experiência e passagens por Vasco, Flamengo, Cruzeiro e Guarani, o gerente de futebol Isaías Tinoco avalia que, dentre titulares e reservas, o técnico português Jorge Jesus tem a possibilidade de trocar peças-chave sem prejudicar o desempenho do time dentro de campo. “O Flamengo fez contratações importantes, pontuais e que estão dando certo. O treinador está de parabéns porque tem conseguido tirar o máximo dos atletas e eles estão absorvendo toda a parte tática”, analisou.

E como se consegue qualidade do elenco? “Com um potencial financeiro por trás. O do Flamengo é muito diferente dos demais clubes e isso influencia na qualidade dos jogadores”, afirmou o especialista em Gestão do Futebol Luiz Antonio Ramos. Ele pontua que a venda de direitos de transmissão para a TV e o tamanho da torcida do Rubro-negro carioca são quesitos que o diferenciam dos outros clubes.

Assim como o Flamengo, o Santos da década de 60 também se sobressaía financeiramente em relação aos outros clubes. De acordo com Lima, os adversários da época não tinham condição de manter um grupo com diversos jogadores importantes. “Você tem que ter um elenco bem qualificado e, para isso, é preciso gastar e não é todo mundo que pode”, opinou.

Desgaste físico e calendário apertado são os desafios

Tanto os ex-jogadores quanto os especialistas afirmaram que os principais desafios para conseguir títulos em sequência é o grande número de jogos ao longo da temporada e, consequentemente, o desgaste físico dos jogadores. No caso de Flamengo x River Plate,

Tinoco destaca que o Rubro-negro tem um time forte, mas muito mais cansado em relação ao clube argentino. “O River leva vantagem no físico porque está no meio da temporada, com menos jogos cumpridos, e o Flamengo está numa exaustão, quando o corpo já pede férias”, comparou.

Todas as decisões para o Flamengo vão ocorrer agora no fim do ano: a final da Libertadores neste sábado, as últimas rodadas do Brasileirão, que acaba no dia 8 de dezembro, e, caso ganhe o título continental, a disputa pelo Mundial.  A priorização de competições e o rodízio de atletas ao longo da temporada - comum para equipes com elenco menos qualificado e que disputam dois ou mais campeonatos - é uma alternativa que tenta contornar o problema do desgaste físico. O especialista em Gestão de Futebol Luiz Antonio Ramos afirma que essa é uma prática necessária, já que os atletas brasileiros possuem pouco tempo de descanso entre as partidas e disputam várias competições diferentes ao longo do ano.

Ramos compara o nosso calendário com o europeu e destaca os estaduais como a principal diferença. As disputas regionais acrescentam de 16 a 20 datas no cronograma dos clubes brasileiros. No fim da temporada, somando estaduais, brasileiro e disputas internacionais, os times acabam jogando mais de 70 partidas por ano. Enquanto isso, os europeus disputam de 50 a 60. Até a última rodada do Brasileirão, o Flamengo terá disputado 72 jogos.

Questionado sobre os formatos dos campeonatos nacionais, Lima não titubeou ao dizer que prefere a Taça Brasil do que o Brasileirão. “A gente não viajava tanto, tinha mais tempo de descanso e não deixava de ser um campeonato tremendamente disputado, que todo mundo queria ganhar”, pontuou. A Taça Brasil tinha uma estrutura no formato “mata-mata”. O torneio contava com um representante de cada estado e era disputada de forma regionalizada, com grupos formados de acordo com a proximidade geográfica. Os campeões tinham a oportunidade de já entrar nas quartas de final ou na semi - o caso do Santos -, o que diminuía o número de jogos disputados.

Apesar disso, os ex-jogadores do time paulista criticaram as constantes viagens que eles precisavam fazer para as partidas, como também acontece hoje em dia. “Eram jogos, viagens, e a gente, às vezes, entrava com 60% de condição física, machucado”, contou Pepe.

Comparado com a época atual, ele também afirmou que os atletas de hoje têm melhores condições: mais tempo para descansar, se preparar, ter condição física e jogar em gramados razoáveis. O ex-jogador relembra que os adversários não faziam questão de ter um gramado bom, com o intuito de dificultar a vida dos outros times. “Eles deixavam o gramado com cratera, com falta de grama ou com a grama alta para dificultar o trabalho do Santos. Hoje, os gramados são muitos melhores”, comparou.

Apesar das realidades diferentes e de desafios enfrentados por causa do empilhamentos de jogos e campeonatos, Pepe e Lima destacaram a qualidade dos elencos e a grande possibilidade de o Flamengo igualar o feito do Santos no qual eles brilharam. O Canhão da Vila até deixou a rivalidade de lado e afirmou estar torcendo pelo rubro-negro carioca: “O Flamengo tem um grande time, é um clube de tradição, muito bem organizado. Estou torcendo para eles”. 

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