A volta

Nem sempre jogador que foi ídolo num clube retoma a antiga condição ao regressar

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2018 | 04h00

Torcedor é nostálgico; por isso, fica à espera do retorno do ídolo e festeja quando isso acontece. Põe-se a imaginar que o jovem de ontem, depois de andar pelo mundo, voltará hoje para casa com disposição idêntica à anterior. E honrará o manto sagrado etc., etc. Até se defrontar com a realidade.

Há casos nos quais, de fato, a segunda chance – às vezes, a terceira – dá certo. O atleta maduro lidera a trupe e se impõe pela experiência. Mais comum é a passagem morna, muitas vezes breve, que serve só para desmoronar ilusões. Não me fascina essa situação. Prefiro guardar na memória afetiva a primeira impressão.

Esta conversa por quê? Por causa de alguns casos de “eu voltei, voltei para ficar, porque aqui, aqui é meu lugar”, como cantou o rei Roberto. Os mais ilustres são os de Emerson Sheik, Julio Cesar e Fred, apresentados como novidades de começo de ano num trio de clubes de peso. Os dois primeiros com contratos curtíssimos; o atacante com a missão de derrubar balizas adversárias. Todos pra lá dos trinta, balzaquianos da bola, à espera de sair de cena. 

Sheik teve participação importante na campanha do título do Corinthians na Libertadores de 2012; é rodado e controvertido. Assinou por um semestre e fica a dúvida: para quê? Para jogar o Paulistão e ter aparições esporádicas na largada do torneio sul-americano e do Brasileirão? Depois, se aposenta. Em que medida será útil para a estratégia do técnico Fábio Carille? Veio para encorajar o grupo? Vale o salário?

Caso semelhante é de Julio Cesar, que há quase década e meia trocou o Flamengo por equipes europeias. Disputou três Copas, ganhou fama e fortuna e, aos 38 anos, fechou acordo por três meses. Ou seja, o suficiente para participar do Estadual do Rio. Após esse período, se estiver bem, se a idade não pesar, quem sabe estende o compromisso. Parece coisa de contrato de trabalho por experiência. Soa mais como homenagem rubro-negra. Se bem que goleiro tem carreira longeva. 

Fred teve o Cruzeiro como vitrine na juventude, viveu na França por um tempo, construiu reputação sólida no Flu, aventurou-se pelo Atlético-MG e regressa ao ponto de origem. A torcida do Palestra mineiro o acolheu como astro e o clube se vê às voltas com uma multa salgada cobrada pelo rival. Fred desencantou na última rodada, embora se mantenha a reticência: terá fôlego para suportar desafios de 2018? 

O risco está na fantasia do fã, na expectativa criada de ver o atleta calejado com o pique do recém-promovido. E depois, com frequência, sobrevém a decepção. Você, amigo leitor, pode alegar que nem sempre é assim. Concordo. Jô esteve aqui para comprovar. No ano passado, deu as caras no Corinthians, depois de uma década, e não se apostava um tostão furado nele. Foi o melhor na campanha do hepta nacional.

Hernanes passou alguns meses no São Paulo e foi imprescindível para tirar o time do atoleiro em que se metera no Brasileiro. Lá atrás, Roberto Dinamite deu passada rápida pelo Barça, quebrou a cara e voltou ao Vasco para ser mais amado e decisivo do que nunca. Júnior foi campeão brasileiro com o Fla, no início dos 90, e Muller na segunda vez em que defendeu o São Paulo (entre 91 e 94) teve o auge da carreira. Fatos excepcionais, que não são a rotina.

Alguém pode achar que esqueci de Gabigol, outro que refaz trajetória e se reintegrou ao Santos. Foi proposital e entra à parte. O moço tem só 21 anos, o que lhe permite até desconsiderar o voo solo desastrado por Inter e Benfica. Tem tempo suficiente para reconstruir reputação e tentar a Europa mais adiante. 

 

ELEIÇÃO DO CORINTHIANS

A disputa para suceder Roberto Andrade está quente. Que São Jorge ilumine os alvinegros e não os faça votarem em candidato “cruz-credo crendospai”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.