Fábio Motta/AE - 24/5/2008
Fábio Motta/AE - 24/5/2008

Abel Braga sonha em treinar um grande time de São Paulo

Técnico do Al Jazira de Abu Dabi revela saudade da família e diz que pode voltar no fim do ano

GLAUCO DE PIERRI e PAULO FAVERO - Jornal da Tarde,

29 de setembro de 2010 | 14h54

Desde 2008 no Al Jazira, de Abu Dabi, Abel Braga vê constantemente seu nome entrando na pauta de algum clube brasileiro. Com um título mundial e da Libertadores no currículo, o treinador conta os dias para voltar ao Brasil. Não que não tenha também conquistado o sucesso nos Emirados Árabes (ganhou um título e foi duas vezes vice), mas a saudade de casa pesa muito. E antes de encerrar a carreira, o treinador revelou que sonha treinar algum grande clube de São Paulo.

Confira a seguir a íntegra da entrevista, publicada nesta quarta-feira, na edição impressa do Jornal da Tarde

 

Como está sua situação no Al Jazira?

Tenho contrato até maio de 2011. Nesse ano, só recebi um convite, do Vasco, feito pelo Roberto Dinamite, mas que infelizmente não tive como aceitar por causa da multa contratual, que é de US$ 2 milhões. Em dezembro, esse valor cai para a metade. Vou esperar até o final do ano e ver se surge algum convite. Se isso acontecer, vou falar com o dono do time. Acho que eu consigo quebrar essa multa por tudo o que eu fiz pelo clube. Quando minha mãe morreu, o time tinha um jogo importante. Se eu fosse para o Brasil, iria perder um dia inteiro viajando, iria prolongar o sofrimento de meus familiares aí no Brasil... Decidi não ir. Aqui, no dia do jogo, o estádio estava cheio de faixas me agradecendo, eles nunca tinham visto nada igual. Então, por tudo isso, acho que se eu tiver uma proposta de trabalho concreta eu saio sem precisar da multa. Mas não posso garantir, porque isso é uma coisa que está no meu contrato... Já que eu assinei, tenho de cumprir.

 

Você foi procurado por alguém do São Paulo ou do Santos?

Até agora, nenhum dos dois clubes me procurou. Não posso falar muita coisa porque as únicas informações que eu tenho são as que aparecem na imprensa e eu vejo aqui pela internet. Mas é claro que seria muito bom defender tanto um quanto outro. Mas isso é um assunto que eu vou procurar mais para o final do ano. Quero ir embora, preciso ficar perto da minha família.

 

Tem muitas saudades de casa?

No ano passado, eu trouxe para cá meu filho Fábio, de 16 anos, que jogava nas categorias de base do Inter. Pouco tempo depois, ficou estabelecido que garotos menores de 18 anos e que fossem estrangeiros não poderiam mais atuar nos clubes daqui. Com isso, minha família voltou para o Brasil, minha mulher foi ficar com ele no Rio e eu fiquei sozinho. Meu filho foi para o Fluminense, está nos juniores, foi campeão carioca. É muito difícil ficar longe da família. Por mais que você seja querido no clube, dá vontade de voltar ao Brasil.

 

Como é sua rotina?

Olha, vou falar a verdade: estou há mais de dois anos aqui e a rotina é bem chata. Não tem nada para fazer. Nossos treinos são marcados sempre para as 19 horas porque antes não tem condição de se fazer nada por causa do calor. Faz 41ºC na sombra, não há quem aguente. No ano passado, no dia do meu aniversário (1º de setembro) fizemos um churrasco do lado de fora do condomínio onde eu moro. Fomos na piscina, foi muito legal. Neste ano, não deu pra fazer nada por causa do calor. Não tem como ficar fora de casa, sem ar-condicionado. É bem difícil. No fundo, eu vou para a academia fazer meus exercícios, vou dar o treino. Tem pouca coisa para fazer.

 

Você consegue ver as partidas dos times brasileiros?

Uma das únicas coisas que eu faço é assistir televisão. Aqui nós temos uns 10 canais na TV à cabo que nos salvam. Entro na internet, vejo quais são os jogos que vão passar da Liga dos Campeões. Eu vejo todos. E ainda assisto tudo o que passa do Campeonato Brasileiro. O jogo de domingo entre Internacional e Corinthians foi, para mim, o mais emocionante. É muito legal ver o estádio cheio, toda aquela emoção, pois aqui o problema é a torcida. Eu saí do Internacional com 50 mil pessoas em cada jogo, aquela energia e tudo mais... Aqui, são no máximo duas mil pessoas por jogo, não tem tanta responsabilidade, cobrança... Então, eu acabo sentindo a falta desse calor da torcida brasileira. O meu estádio é um dos mais modernos do mundo, é lá que vão ser disputadas as partidas do Mundial de Clubes. Perguntaram para mim se eu liberava o estádio para o Brasil... É claro que eu libero! Acho que é o lugar onde o Brasil vai jogar contra o Irã.

 

Quem você acha que vencerá o Brasileirão?

Pelo que eu vejo, acho que o título deve ficar com o Corinthians. Se bem que ainda faltam muitos jogos, mas acho que é o time mais preparado para isso. O bom do time é que ele joga parecido dentro de casa ou fora. Eu vi a derrota para o Grêmio no Pacaembu. Foi injusta, mas fazer o que se o Douglas fez aquele golaço. Vejo ainda o Fluminense muito forte. E uma coisa fundamental: o time está com sorte. O Muricy já achou um jeito para o Deco e o Conca jogarem, então, o Flu pode sim ser campeão. O Inter também é candidato, mas precisa vencer mais alguns jogos para chegar em cima mesmo. A reta final será emocionante.

 

Talvez na próxima temporada você trabalhe em algum grande time paulista. Passa isso pela sua cabeça?

Além de trabalhar na Ponte, a única vez que recebi uma proposta concreta foi do Palmeiras, em 2008, quando o Toninho Cecílio me ligou e fez uma proposta. Só que não dava para ir porque tinha acabado de assinar com o Al Jazira. Foi uma pena, porque conheço a estrutura do clube, seus dirigentes, e sei que tem uma grande torcida. Eu sempre sonhei em trabalhar em um dos grandes clubes do futebol de São Paulo, só que isso é engraçado. Sempre que aparece uma ótima oportunidade de ir, é o momento errado. Em 1979 eu jogava no Vasco. No dia em que eu assinei o contrato com o Paris Saint Germain, o Corinthians me fez uma proposta. Como é que pode? Eu queria me matar, já pensou? Jogar no Corinthians... Mas infelizmente não deu. Já treinei os quatro grandes do Rio e só não fui campeão pelo Botafogo. Treinei o Inter, Atlético-MG, Atlético-PR e ainda quero trabalhar em São Paulo. Para dizer a verdade, tenho até um pouco de inveja da estrutura do futebol paulista. Eu já estive nos centros de treinamento do Palmeiras, do São Paulo, soube que o Corinthians tem um agora, o Santos também. Os quatro oferecem ótimas condições de trabalho, têm força e representatividade no futebol nacional. Eu estou perto de parar. Tenho 58 anos, tudo tem dado certo na minha vida. Espero que antes de encerrar eu consiga treinar um grande paulista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.