Abismo

Grandes clubes de São Paulo continuam a investir e os do Rio encolhem. Fla é a exceção

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 04h00

Os títulos, as multidões de torcedores, o reconhecimento internacional, os valores de contratos de publicidade e de vendas de direitos de televisão – enfim, a tradição e os fatos mostram como historicamente os times de São Paulo e do Rio estão no comando do futebol brasileiro. Com intervenções importantes, porém com menor frequência, de gaúchos e mineiros, que completam o quarteto dos poderosos centros da bola por aqui.

No entanto, aumenta o abismo entre cariocas e paulistas, com estes cada vez mais à frente, em ações, arrecadação, parcerias, investimento e, por extensão, nas conquistas. Não é por acaso que, nas duas últimas décadas, a taça do campeonato nacional 12 vezes foi levantada por equipes de São Paulo, contra 4 do Rio, 3 de Minas (Cruzeiro) e 1 do Paraná (Atlético). O Rio Grande do Sul não festeja desde 1996, quando o Grêmio bateu a Lusa.

A disparidade cai um pouco na Copa do Brasil, com 8 para SP, 4 para RJ e MG, 3 para RS e 1 PE (Sport), sempre ao se levar em conta as competições de 1998 para cá. Na Libertadores, o Brasil mandou em nove ocasiões, e de novo com SP à frente (4 títulos), RS 3, RJ e MG 1. Em Mundiais de Clubes, também vantagem bandeirante, com Corinthians (2) e São Paulo. O Inter honrou duas vezes o Rio Grande do Sul.

Essas curiosidades todas para dizer o quê? Que, salvo acidentes de percurso, os cariocas tendem a fazer figuração em 2018 nos principais desafios da temporada. Mais uma vez. A exceção, em princípio, fica para o Flamengo, o único que tem obtido mais recursos não só para manter o elenco como para gastar em contratações de peso. Os demais penam com orçamentos apertados e perda de talentos. Noves fora, os quatro grandes do Rio estão no alto das estatísticas de dívidas com a União, com a ilustre presença de Corinthians e Santos; a liderança é do Galo.

Fluminense e Vasco eriçam os cabelos dos fãs. De medo. Para diminuir despesas, ou por força de decisão judicial, o Tricolor perdeu dentre outros Deola, Henrique, Orejuela, Henrique Dourado e Scarpa, a estrela maior da companhia. Teve de abrir mão também do jovem Wendel, cedido para o Sporting, de Lisboa. E, em princípio, não deve ver a cor dos R$ 30 milhões, previstos para o dia 31; a grana foi embargada para o pagamento de dívidas. Abel Braga será obrigado a recorrer à base e dá sinais de desânimo crescente.

O Vasco viveu semanas de angústia em decorrência de briga política. E, antes de limpar as gavetas, o ex-presidente Eurico Miranda também fez um rapa no grupo, com a cessão de Anderson Martins, Madson, Mateus Vital e mais uma dezena de atletas. O recém-chegado Alexandre Campello não conseguiu reter Nenê, agora no São Paulo. Zé Ricardo terá missão de milagreiro.

O Botafogo manteve plantel modesto, semelhante ao do ano passado, tenta virar-se com veteranos ou jovens feitos em casa e entregou a tarefa de reconstrução para o técnico Felipe Conceição, uma vez que Jair Ventura bateu asas para o Santos. Outro ano de superação? Quem sabe...

O Flamengo foge ao padrão local, como consequência de mudança administrativa já de algum tempo, que inclui redução de débitos (já foram estratosféricos) e gastos menos intempestivos. Além disso, conta com cotas generosas de publicidade no uniforme e de direitos de tevê. Panorama que lhe permitiu reconfirmar o elenco e ainda investir algum. Faltam-lhe conquistas de impacto.

O Fla desponta como rival principal na eterna disputa com paulistas – que também não nadam em dinheiro, bem entendido. O Palmeiras é o que tem situação mais folgada, por uma série de fatores. Corinthians, São Paulo e Santos suam para manter o caixa equilibrado. Todos, porém (Rio e SP), longe de padrões europeus. Ou mesmo chineses. Outra conversa...

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