Nilton Fukuda/Estadão
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Robson Morelli
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Aceitar ou resistir

Temos de escolher entre o futebol de resultados ou o futebol bem jogado

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 04h30

Os tempos são de resistência ou aceitação no futebol brasileiro. Todos nós, que vivemos o futebol com paixão e diariamente, vamos tomar um lado nesta história. Esse passo já foi dado pela maioria dos treinadores, reféns da necessidade cega de ganhar partidas e campeonatos para manter seus respectivos empregos. Entre ganhar e jogar bem, preferem ganhar, já que não conseguem fazer as duas coisas. A cegueira também atinge os dirigentes, que, da mesma forma, se apegam às fases boas de seus times para poderem andar nas ruas ao lado do público sem sofrer com as indelicadezas passionais do torcedor.

Junta-se a isso, claro, o papel preponderante da torcida brasileira, essa cada vez mais apegada às cores do seu clube, de modo a não reconhecer as qualidades dos outros. Ora, fosse assim no passado, o Santos de Pelé seria restrito apenas aos santistas de coração. Assim como inúmeras equipes que já nos encheram os olhos. A Máquina Tricolor do Fluminense, nas duas versões, do meu amigo Paulo Cezar Caju, ou ainda o Palmeiras, das Academias, do lendário Ademir da Guia, ou o São Paulo, mais recentemente, bicampeão mundial sob a batuta de Raí em campo e de mestre Telê fora dele, e tantos outros times, de todas as cores, que já encheram de glória o futebol brasileiro. Portanto, o torcedor também é responsável pela tensão que apavora o futebol.

O futebol vive a fase do “é proibido perder”. Sim, porque time que não faz jus à fama ou dinheirama que carrega na temporada, é cobrado por resultados positivos, pouco importando o futebol praticado em campo. Assustados, todos se rendem à necessidade única de ganhar jogos a qualquer custo. Porque senão, muros amanhecem pichados e treinadores, demitidos.

Pegue-se o exemplo da vitória do Palmeiras de 1 a 0 sobre o Internacional, sábado, no Allianz, com gol de Deyverson. O Palmeiras jogou mal, os reservas entraram mal, o time deu a bola para o rival (posse de 65%) e sofreu pressão durante todo segundo tempo. Mas ganhou e isso é o que importa para muitos, inclusive para Felipão, sua comissão técnica e o presidente do clube.

O resultado virou “Deus”. É o pão que a todos alimenta. O que houve em campo, as jogadas bisonhas, os arremates tortos, os passes errados, o trança perna comum aos palhaços em picadeiro, nada disso conta, nada disso importa. E ainda esse Palmeiras de sábado foi comparado à façanha que fez outro Palmeiras, com outro futebol, nos tempos da Academia, de não perder no Campeonato Brasileiro por 26 jogos.

A torcida saiu do Allianz contente. “Aqui é Palmeiras”, gritaram os mais animados, com orgulho e na certeza de andar pelos caminhos de nova taça.

Essa fórmula e cenário valem para todos os grandes em atividade na temporada. De Palmeiras a Flamengo, passando por Corinthians, Cruzeiro, Grêmio, Bahia... Talvez tirando o gol de Deyverson, qual outra jogada que os palmeirenses se lembram do jogo, que gostariam de contar para os amigos? O mesmo vale para o empate do Vasco com o Corinthians em Manaus. O gol de Mateus Vital foi um golaço, e talvez a única boa jogada dos 90 minutos, já que muitos questionam o pênalti marcado pelo VAR a favor do time do Rio de Janeiro.

Então, está chegando a hora de o torcedor, e todos os envolvidos, tomar uma decisão: resistir ao futebol de resultados jogado atualmente ou aceitá-lo. Exigir mais qualidade de jogo ou se render aos laterais na área como forma de atacar. Ficar com a bola ou entregá-la ao rival. Driblar, tabelar, inventar ou correr, tocar de lado e destruir. Treinar ou ganhar condicionamento físico.

Tudo está em jogo no futebol brasileiro, o praticado hoje e que veremos nos próximos dez anos. Vale lembrar que não ganhamos mais Copas. E isso pode ser um sinal.

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