Hélvio Romero/Estadão
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Acertou no que não viu

Scolari passa longe de ser o técnico dos meus sonhos, mas é amado pelos palmeirenses

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2018 | 04h00

O Palmeiras tinha a melhor campanha da Copa Libertadores em sua fase de grupos. O técnico era Roger Machado, que em maio de 2015, uma semana após a saída de Luiz Felipe Scolari, assumiu o comando de um Grêmio em crise e sem dinheiro para se reforçar como era necessário. Deu tudo errado e ele chegou a largar o banco de reservas no meio de uma derrota para o Veranópolis. 

Exatos três anos e dois meses depois, papéis invertidos, mas no Palmeiras. Tropeços na Série A e um certo distanciamento do seu caro elenco minaram Roger Machado, que cedeu o lugar a Felipão. Os resultados no Campeonato Brasileiro derrubaram o jovem treinador, mas a prioridade era outra. 

Scolari substituiu Roger por uma razão muito simples: apesar da boa campanha no certame internacional, os dirigentes percebiam que o time se afastava da possibilidade de ser campeão brasileiro e temiam também despencar na Libertadores, havendo ainda a opção Copa do Brasil. 

O velho técnico salvaria nos certames eliminatórios. Não por acaso, no dia da reestreia de Scolari, em visita ao América, o Estado publicou: “Nos torneios de mata-mata, Copa do Brasil e Libertadores, ele vai montar o time para ao menos empatar fora e engolir os rivais no Allianz”. Como sempre fez. 

A possibilidade de ganhar o campeonato nacional começando a reação na 17.ª rodada e a oito pontos do líder parecia improvável. E devido à fama de treinador bom em competições disputadas no sistema “perdeu, tá fora”, naturalmente os cartolas esperavam a Libertadores ou a Copa do Brasil. 

Curiosamente nesses dois torneios, o Palmeiras foi eliminado de maneira incontestável e jogando muito mal na maior parte do tempo. As velhas estratégias “scolarianas”, anteriores à sua aventura europeia, não bastaram. Assim o time caiu, eliminado diante de Boca Juniors e Cruzeiro. 

O que de bom então fez Felipão? Ao preservar seus titulares para as competições aparentemente mais viáveis, ele fez algo que é comum na Europa: revezou jogadores como Roger Machado não fazia. E com o melhor elenco do País, a equipe B se mostrou competitiva, eficiente nos pontos corridos. 

Ao contrário do Grêmio atual, de Renato Gaúcho Portaluppi, que também não hesita em poupar atletas, Scolari não sofria com desnível ao escalar os reservas. Funcionou melhor do que se imaginava. Se os titulares não avançariam em mata-mata, os suplentes pavimentariam o caminho na Série A. 

Em campo, o Palmeiras do velho treinador não apresenta novidades. Marcação forte, jogo no pivô, homens rápidos para o contragolpe e vitórias obtidas da maneira possível. É o campeão com menor posse de bola e número de passes trocados em pelo menos seis temporadas. Mas é campeão. 

Scolari passa longe de ser o técnico dos meus sonhos, mas hoje é amado por todos os palmeirenses. Porque levou o time a uma conquista relevante. E pouco importa, agora, o fracasso na competição prioritária. Fica para 2019 o sonho adiado de ganhar a segunda Copa Libertadores, e com o próprio à frente. 

Resta saber se na próxima temporada o estilo velho de guerra do ex-zagueiro será o bastante no âmbito internacional. Aqui, com o elenco repleto de “camarões”, como ele mesmo se refere aos bons jogadores, seus antigos estratagemas deram para o gasto. Mas além das fronteiras não funcionou. 

A conquista do Palmeiras é legítima, indiscutível como a de qualquer campeão em pontos corridos sem interferências de arbitragem ou outro tipo de irregularidade. Mas o fato é que Luiz Felipe Scolari voltou ao Brasil com uma missão. Mirou no que viu, acertou no que não viu. E em terra de cego...

 

 

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