Adauto vira símbolo anti-racismo

No momento em que trocou o Atlético-PR pelo Slavia Praga, há três anos, o atacante Adauto sabia que estava apostando alto. Seria o primeiro brasileiro a atuar na República Checa ? um país marcado pela xenofobia, resultado de 41 anos de comunismo. Mais que isso: era o primeiro negro a jogar futebol no país ? que sofreu muito tempo com a truculência da ocupação nazista. Para infelicidade de Adauto, as previsões mais pessimistas se confirmaram. O brasileiro foi alvo de um feroz e persistente preconceito racial.Adauto chegou ao país em agosto de 2002 e logo ganhou vaga de titular no Slavia, um dos grandes do futebol checo. Mas os problemas não tardaram a aparecer. Em todos os estádios em que jogava, era, invariavelmente, hostilizado. Quase sempre, chamado de macaco. Ele conta que no começo mal entendia, achava que era ?mais um canto estranho dos checos?. Com o passar do tempo, no entanto, foi percebendo a ironia e a agressividade dos gestos de parte do público.?Quando percebi que eram mesmo ruídos de macaco, minha vida passou pela minha cabeça como um filme. Lembrei dos tempos de garoto, com dificuldade e vivendo num país muito mais pobre que esse aqui. E mesmo assim nunca presenciei uma ofensa como aquela?, conta Adauto. Deprimido, chegou a pensar em voltar para o Brasil. Mas o pior ainda estava por vir. Em abril de 2003, no jogo contra o Sparta Praga no maior clássico do país, Adauto foi submetido a um espetáculo degradante de humilhação. Os gritos e gestos imitando macacos partiam de grande parte das arquibancadas. As hostilidades eram tantas que o árbitro interrompeu a partida e pediu a intervenção da polícia. Pela primeira vez na Europa, uma partida havia sido interrompida em conseqüência de manifestações racistas. Mas os esforços foram em vão. Os torcedores não só não pararam, como passaram a atirar bananas no gramado. VIRADA - Mas começou aí uma reviravolta. A forma como Adauto tratou os insultos se transformou num marco. Disse em entrevistas após o jogo, que compreendia a atitude dos torcedores e que o comportamento ofensivo não representava o pensamento do povo checo. Foi o ponto de partida para uma campanha nacional contra o racismo no país.Governo, federação de futebol e organizações não governamentais de defesa dos direitos civis, deflagraram amplo debate no rádio, TV e jornais sobre o assunto. Camisetas, bonés e pulseiras foram distribuídos em jogos da liga nacional, das copas européias e nas partidas da seleção checa. No centro da campanha, o rosto de Adauto ao lado de Josef Kvapil, de 22 anos, torcedor preso por atitudes racistas.?Foi emocionante ver os jogadores da seleção apoiando a causa. Grandes nomes do futebol mundial e pessoas ilustres no país, vestindo a camisa estampada com meu rosto?, conta o brasileiro.No início do segundo semestre deste ano, o brasileiro chegou a pensar em deixar a República Checa. Pensava em jogar em algum outro país da Europa. Só que foi convencido a ficar. Vai repetir a campanha anti-racismo, desta vez, numa nova frente: será o primeiro jogador brasileiro a tornar-se selo postal dos Correios no exterior, ao lado das maiores personalidades do país ? como ex-presidentes, misses, atores e atrizes famosos e ídolos do esporte. Adauto é o único jogador de futebol da campanha.?Foi mais emocionante que o primeiro convite que recebi. Disse para eles que talvez fosse deixar o país, mas eles insistiram. Disseram que eu simbolizava a mudança de comportamento dos checos em relação ao racismo, e que a campanha não seria a mesma coisa sem mim?, contou. Resolveu ficar.

Agencia Estado,

31 de outubro de 2005 | 10h47

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