Arte/Estadão
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Ademir da Guia: 'Os treinadores pensam em não levar gol; a técnica ficou para trás'

Na série FUTEBOL EM DEBATE, cérebro da segunda Academia do Palmeiras fala da necessidade de retomar origens

Entrevista com

Ademir da Guia, ex-jogador

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 04h30

Retomar o jogo ofensivo e dar espaço na seleção para jogadores que estão no País, para que ocorra identificação com o torcedor. Essas são algumas das sugestões de Ademir da Guia para o futebol brasileiro. O meia clássico que marcou época no Palmeiras é o entrevistado do Estado no 10.º capítulo da série especial Futebol em Debate. Para ele, a “volta aos bons tempos” passa pela mudança de mentalidade dos treinadores.

Cérebro da segunda Academia montada pelo Alviverde, integrante da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1974, Ademir da Guia é um incorformado com o momento atual. Ele não refuta os "tempos modernos", mas entende ser necessário manter a essência. Ou, no caso, recuperá-la. 

Ouça também o que pensam alguns dos maiores ex-jogadores do Brasil, como Paulo Roberto FalcãoRoberto RivellinoEmerson Leão, Muricy RamalhoCarlos Alberto Parreira, AlexCésar Sampaio e Roger Machado

Como vê o futebol brasileiro na atualidade?

Eu tenho visto mais o Palmeiras, e a gente vê que os seus adversários, e o próprio Palmeiras, se preocupam com a marcação. Hoje, os técnicos não colocam mais pontas, não colocam mais meias, o centroavante fica muito solitário. Eu jogava de meia-esquerda e tinha quatro jogadores na minha frente, facilitava muito para mim. Os pontas eram jogadores rápidos, que driblavam muito, iam na linha de fundo, cruzavam a bola. Hoje existem mais volantes, mais marcação. Nisso o futebol perdeu bastante, aqueles homens que tinham uma condição técnica muito boa, os meias que eram realmente jogadores de categoria.

O futebol mudou...

Nesse sentido o futebol mudou, porque existe a preocupação de marcar mais, todo mundo volta para marcar, quem cruza a bola hoje são os laterais. Os técnicos pensam mais na marcação, em não levar gol e às vezes (os times) conseguem fazer um gol ou dois e ganham a partida. São três pontos importantes, mas, na verdade, o futebol está bem mais defensivo. A técnica ficou para trás.

Isso mexe na essência do futebol brasileiro, nas características. É algo a lamentar ou é necessário se adaptar a essa realidade?

Eu entendo que está tudo muito mais moderno. Adaptar-se a essa realidade é importante, os grandes clubes do Rio, São Paulo, Minas e do Sul precisam estar sempre lá na ponta da tabela, precisam estar se classificando. É importante que estejam ganhando, porque são tantos os torneios que jogam... Você tem de ter um elenco muito bom, mas aquele futebol em que o torcedor ia (ao estádio) e saía satisfeito... Muitas vezes você via uma equipe perder e o torcedor aplaudir Isso não existe mais.

Em nível de seleção brasileira, essa nova realidade atrapalha? Temos jogadores que vão cada vez mais cedo para a Europa e isso acaba influenciando na formação deles.

Sem dúvida atrapalha. É uma maneira diferente de jogar na Europa, na China. A influência é muito grande, e a gente lamenta muito porque hoje em dia já não temos mais jogadores daqui do Brasil convocados. O Palmeiras foi campeão brasileiro e não tem um jogador na seleção. São os jogadores que jogam lá fora.  Na verdade a gente não torce por eles, não vê eles jogar. Fica essa coisa de você estar torcendo por um Brasil que você não conhece. Vários jogadores chegam na seleção e a gente nunca viu jogar, não sabe onde joga. Nisso também o torcedor fica prejudicado.

Você fez a sua carreira num time só, o Palmeiras. Hoje não se tem mais disso. Isso também influência no desempenho do jogador?

Hoje o jogador tem empresário, que consegue grandes contratos e às vezes o jogador talvez queira ficar, mas, com os valores, ele tem de ir embora. E cada vez mais cedo. Os clubes não conseguem mais ter os jogadores, com 16 anos,17, ele já pertence ao empresário. Antigamente eles pertenciam aos clubes. Hoje, os clubes não têm condições de ter os jogadores, de ter renda, principalmente os pequenos clubes do interior. Isso também dificulta muito.

O que poderia ser feito para melhorar o nível? Por onde passa essa retomada?

Deveria ser pelos técnicos, se eles chegassem à conclusão de que era importante ter os pontas, mais atacantes e deixar os times com mais técnica. Mas na verdade eles preferem defender melhor, defender mais. Então, isso teria de ser uma mudança radical.

Mas para essa mudança ocorrer dependeria de eles terem uma segurança maior para poder desenvolver o trabalho...

A segurança que eles têm são as vitórias. Quando o time está ganhando, o técnico trabalha melhor, com mais tranquilidade. Quando começa a perder, ele pode sair na próxima partida. Então essa segurança não existe. O técnico dependeria de fazer contrato que desse a ele alguma segurança, porque os grandes clubes dependem de vitórias.

A formação de jogadores também está sendo truncada, com os jogadores saindo cada vez mais cedo?

Acho isso lamentável, teria de ter uma sequência de coisas. Talvez estabelecer uma idade para que o jogador saísse, sei lá, 20, 22 anos. Depois disso o jogador poderia ser negociado, seria importante os clubes ter uma condição de permanecer com os jogadores até determinada idade. Se não fica muito difícil. Os clubes não conseguem segurar, eles (os atletas) podem sair com 13, 14 anos. Hoje têm essa ilusão de poder começar uma carreira distante (do Brasil). O menino tem esse sonho, também é uma coisa normal.

Administrativamente, o futebol melhorou? Está no bom caminho?

Acho que tem muita coisa melhor (em relação ao tempo em que ele jogava), mas tem muita coisa que poderia melhorar.  Por exemplo, você não pode também tolir o sonho de um garoto que quer ir embora (do País), que os pais querem ir, conseguir uma coisa espetacular, grandiosa, jogar fora. Você não pode terminar com isso. Mas, para o futebol brasileiro, para o torcedor, a CBF podia segurar um pouco. Seria importante.

Há muita reclamação sobre o calendário. Isso é cruel também, e interfere no rendimento técnico dos jogadores e na forma como os treinadores mudam os times?

Eu acho que é muito cruel. Porque também o torcedor, aquele que mora lá no Norte por exemplo, quando um Palmeiras vai lá, um Flamengo, ele espera ver os titulares e muitas vezes o técnico não consegue escalá-los. Porque são jogos seguidos, então têm de usar outros jogadores. Então esse é um problema muito sério, porque o torcedor vai aos estádio para ver o craque e chega lá o craque está no banco, está cansado. Então, isso também é muito ruim.

Na sua época, os times tinham muitos craques. Hoje, nós temos craques no futebol brasileiro?

Acho que temos. Mas na minha época nós tínhamos um Leão, um Luiz Pereira, César, Leivinha, Ademir... A equipe tinha cinco, seis craques. Tanto o Palmeiras, como o São Paulo, Corinthians, Cruzeiro. Não era um craque, eram vários. Hoje, a gente procura nos clubes um jogador que esteja na seleção e não tem. Isso para o futebol, para o torcedor, é ruim.

Quais os craques que nós temos no futebol brasileiro atual?

Como eu falei, eu tenho visto o Palmeiras. O Dudu tem se revelado muito. O Felipe Melo tem jogado muito bem. E depois é assim: há partidas em que a defesa se porta muito bem, em outras os atacantes sobressaem... Então muda muito também. Não é mais aquele negócio de ir ver o Pelé e o Pelé faz três gols, cinco, em todos os jogos. Isso também não existe mais. Dependendo do jogo, um sobressai, um faz os gols, outro defende. Então, muda muito também.

Pode-se dizer que temos como craque o Neymar?

Sim. O Neymar hoje é o jogador que tem se destacado mais, tem feito coisas muito próximas a um grande jogador, é aquele que as equipes procuram marcar. É na verdade o nosso craque, seria o nosso Pelé.

                            

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