Marco Bertorello/AFP
Marco Bertorello/AFP

Adoção, jogos do Palmeiras e técnicas de rádio: como Silvia e Nickollas ganharam o prêmio da Fifa

Mãe que narra os lances para filho deficiente visual aperfeiçoou locução só para contar as histórias dos jogos para criança adotada

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2019 | 10h32

Mensagens, ligações, pedidos para fotos e cumprimentos. Silvia Grecco e o filho Nickollas viraram celebridades mundiais após na segunda-feira a Fifa ter entregue aos palmeirenses o prêmio de melhor torcedor durante cerimônia em Milão, na Itália. O reconhecimento veio de personalidades do futebol, de parentes, amigos e demais pessoas que reconheceram o atuação dela em narrar as partidas para o filho de 12 anos, deficiente visual e portador de autismo.

Silvia conversou com o Estado por telefone do aeroporto de Milão, pouco antes de pegar o voo de volta ao Brasil, e demonstrou estar empolgada com a repercussão do prêmio e o reconhecimento ao discurso feito por ela na cerimônia da entidade. Nickollas aos poucos começou se dar conta também do que havia acontecido. "Por causa do autismo e da pureza dele, talvez ele ainda não tenha dimensão de tudo isso aqui. Mas eu contei cada passo para ele, sobre a grandeza da Fifa e do prêmio que ele recebeu", dissse.

Desde o fim do evento, dona Silvia já foi tietada por algumas personalidades da festa. "Encontramos com o Bebeto e ele nos cumprimentou. O Marcelo, do Real Madrid, pediu para tirar foto com a gente. O Felipão (Luiz Felipe Scolari) nos mandou uma mensagem linda por áudio. Tem sido tudo muito emocionante", afirmou.

Silvia e Nickollas moram em Santo André. A mãe trabalha na prefeitura de Mauá e tem a vida toda dedicada ao filho. Ela é a responsável pela comida, por levá-lo à escola e acompanhar também o garoto em atividades como natação, terapia e aulas de teclado. Aos domingo, a programação mais corriqueira é ir ao Allianz Parque para ver o Palmeiras, ou ao Pacaembu.

O caminho de Silvia e Nickollas Grecco rumo à conquista do prêmio de melhor torcedor começou bem longe da cerimônia de pompa na Itália ou dos estádios de futebol que mãe e filho frequentam há sete anos para torcer pelo Palmeiras. A história dos dois nasceu em um hospital de Mauá, na Grande São Paulo, onde se encontraram pela primeira vez e escreveram uma história que agora conquistou o mundo.

De parentes palmeirenses, Silvia decidiu anos atrás por aumentar a família. Além da filha mais velha, Marjorie, ela queria adotar uma criança e se inscreveu na Vara de Infância de Mauá, onde morava na época. Foram sete meses de espera até receber um chamado sobre a possibilidade de acolher um bebê de quatro meses, deficiente visual e nascido com apenas 500 gramas após uma gestação de apenas cinco meses interrompida por uma tentativa de aborto.

Antes de Silvia, 12 casais haviam pensado na adoção de Nickollas, mas só com ela deu certo. "Quando cheguei ao hospital, o médico trouxe o Nickollas e o colocou no meu colo, tive certeza absoluta de que ele seria meu filho. Eu digo que com a minha filha eu cortei o cordão (umbilical), mas com o Nickollas nós amarramos o coração. Naquele instante eu mal conseguia ouvir o que o médico dizia pela emoção de ter o filho no colo", contou Silvia nesta terça-feira à Rádio Eldorado, do Estado.

Mãe e filho se tornaram muito próximos desde aquele momento e passaram por períodos marcantes até o reconhecimento da Fifa. Aos cinco anos, o menino foi diagnosticado com um autismo leve, mas o problema não o impediu de estrear em estádios em março de 2012, no Pacaembu. A palmeirense Silvia quis transmitir a Nickollas a paixão pelo clube e o levou para acompanhar o jogo contra o São Caetano.

Confira a entrevista de Silvia Grecco para a Rádio Eldorado:

"Eu coloquei um fone de ouvido para ele ouvir o jogo no rádio. Mas ele tirava o fone a todo instante. Ele vibrava muito com a torcida, já pulava logo no primeiro jogo. Queria escutar a torcida. Por causa do autismo, ele ainda não se expressava muito bem e falava em terceira pessoa: 'O Nickollas é porco'", contou Silvia. Para fazer o filho entender o que se passava em campo, ela procurou trocar os fones de ouvido e se tornar a narradora particular dele sobre cada um dos lances da disputa.

Silvia decidiu observar atentamente narradores e radialistas para absorver técnicas de locução e como poderia transmitir a emoção da partida ao filho cego. "Quando estamos no estádio, os torcedores ao redor não gostam que se grite gol antes da hora. Mas eu tenho de me antecipar um pouco para contar para o Nickollas. Então, eu não ligo para isso", disse.  

A presença dos dois em estádios para jogos do Palmeiras foi frequente nos últimos anos, até que em setembro de 2018 a dupla foi descoberta por uma equipe de reportagem da TV Globo. A locução da mãe para o filho conquistou primeiramente a torcida do clube e agora, com o prêmio da Fifa, ganha repercussão mundial. No discurso após receber a honraria, Silvia destacou a importância da inclusão social do portador de deficiência.

"Esse amor entre a gente supera tudo. Eu mudei muitos valores em função do Nickollas em minha vida", disse Silvia à Rádio Eldorado. "O Nickollas foi um grande presente que a nossa família ganhou. Ele ensina muito para todos nós", completou. Silvia toca sua vida como qualquer dona de casa, mãe de filhos que ama. A menina, maior, já não mora mais com ela. É separada e dedica atenção quase que total ao filho.

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