Cleiby Trevisan/Paramount
Cleiby Trevisan/Paramount

Adriano diz ter sido incompreendido no futebol: 'Não era tratado como ser humano'

Ex-jogador fala com a imprensa em evento de lançamento da série documental 'Adriano, Imperador', que aborda suas conquistas, dramas e o amor pela sua comunidade, a Vila Cruzeiro

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2022 | 13h49

Geralmente reservado e avesso a entrevistas, Adriano Imperador fez o que não gosta muito de fazer: falou por uma hora com a imprensa nesta terça-feira. O ex-jogador de 40 anos, no entanto, se sentiu à vontade em abordar diferentes assuntos conectados à sua vida e carreira, muitos felizes, outros nem tanto.

Ele sentou na cadeira da sala de imprensa do estádio do Morumbi para dar seu relato sobre "Adriano, Imperador", documentário produzido com a ideia de revelar um Adriano que poucos conhecem por meio de um relato em primeira pessoa do próprio ex-jogador, que está ansioso para ver a reação do público com a série documental. "Mas não quero seguir carreira como ator, não", brincou.

Na conversa ao lado da diretora do documentário, Susanna Lira, Adriano se recordou da infância feliz na favela, o período na Inter de Milão, a rivalidade com os Argentinos quando defendeu a seleção brasileira, comentou a respeito de sua relação com Ronaldo Fenômeno, relembrou a morte de seu pai, Almir Leite Ribeiro, falou sobre a depressão que enfrentou, as cobranças e pressão, elencou os motivos de ter se afastado do futebol por mais de uma vez e de ter abreviado sua carreira e afirmou ter se sentido um dos jogadores mais incompreendidos pela opinião pública em virtude de suas decisões.

"Eu era incompreendido naquela época", resumiu Adriano, a respeito das pessoas que lhe questionaram de ter pausado a sua carreira sem saber, na época, que a morte de seu pai, em 2004, quando vivia o auge na Inter de Milão, tirou a sua alegria de jogar bola.  

"As pessoas meio que não aceitavam que eu tomasse aquela decisão de me afastar do futebol. Mas para mim não importava. Importava realmente o que eu estava sentindo. Mas eu fico triste porque eu não era tratado como um ser humano. Só viam o lado do futebol", disse.

A proposta do documentário, que será lançado no serviço de streaming Paramount+, na quinta-feira, 21, é exibir as conquistas, lutas pessoais e familiares e, acima de tudo, o amor que "Didico", como é carinhosamente chamado, sempre sentiu pela Vila Cruzeiro, favela do Rio de Janeiro onde nasceu e foi criado e para onde retornou quando deu uma pausa no futebol.

"É um documento histórico sobre uma comunidade, sobre o Rio de Janeiro que revela muito da alma do Adriano", enfatizou Susanna Lira, a diretora da produção. Ela teve uma preciosa e inesperada ajuda de Pedro Paulo, um dos tios do ex-atacante.

"Tio Papau", como é chamado, documentou mais de 20 anos da vida de Adriano com uma câmera VHS. As valiosas imagens do ex-jogador e deu seus familiares e amigos na Vila Cruzeiro têm destaque na série documental. "É um tesouro que encontramos", reconhece a diretora. "O tio foi o grande documentarista porque cada frame traduz o Adriano".

Adriano quis voltar para seu povo, sua comunidade, para ficar com a família e os amigos que o conhecem desde quando era o "Adirano", apelido criado sem querer pela avó, dona Wanda, que não conseguia pronunciar o nome do neto. Antes, portanto, de ele surgir na base do Flamengo, de ganhar a alcunha de Imperador em Milão e de deixar em prantos os argentinos na conquista da Copa América de 2004 com a seleção brasileira.

"Não me arrependo de nada do que aconteceu. Se pudesse, faria de novo. Voltei à favela pela minha felicidade. Pô, saí da favela para ser Imperador na Itália. Precisava dar uma recuada na minha vida. Naquele momento foi uma decisão pensada que eu tomei", explicou.

A série documental tem depoimentos de Aloísio Chulapa, Dejan Petkovic, Javier Zanetti, Léo Moura, Ronaldo Fenômeno e Massimo Moratti, presidente da Inter de Milão na época e uma das pessoas mais queridas por Adriano. Foi o empresário italiano que ajudou o Imperador quando teve de lidar com a depressão que o acometeu principalmente em decorrência da morte de seu pai. Poucos, segundo ele, davam atenção ao ser humano Adriano. Só se lembravam do Imperador, um atacante forte e impetuoso e dono de um chute potente em seu pé esquerdo, mas que tinha suas fraquezas.

"As pessoas não veem jogadores de futebol como um cara normal. Na minha época, quando eu comecei foi mais pesado, digamos assim. Mas a gente tem que saber compreender uma pessoa, independentemente de ser atleta ou trabalhador normal. A gente passa por dificuldades, ainda mais com a perda de um ente querido", ressaltou Adriano, mais uma vez mencionando a morte de seu pai há 18 anos em decorrência de um ataque cardíaco, que o fez atravessar o Oceano Atlântico e sair da Itália para retornar ao Brasil. De acordo com a diretora do documentário, Susanna Lira, foi esse o ponto de virada na vida de Adriano e o assunto que mais lhe deixou emocionado durante a entrevista.

"Na época eu decidi fazer aquilo tudo porque eu não tava a fim, não estava com a cabeça legal. Ganhava muito dinheiro na época, mas pela educação que minha família me deu isso era totalmente errado".

A mãe, Rosilda, também tem papel importante na vida de Adriano. Logo, é retratada com destaque na produção. Aos risos, o ex-jogador contou um de seus momentos de ostentação quando era atleta que lhe rendeu uma bronca da mãe. 

"Nunca tive muito poder, mas teve uma vez na Inter de Milão, quando comecei a ganhar um dinheirinho, que comprei a casa da minha mãe e depois quatro carros. Antes disso eu tinha falado para ela: 'Mãe, se um dia eu mudar minha cabeça, me dá um puxão de orelha'. E ela me deu mesmo", contou, sorrindo. "Ela perguntou: 'Para que tu quer esses quatro carros? Vai sair com todos ao mesmo tempo?'".

Outros tópicos abordados na entrevista:

Arrepende-se de algo?

"Não me arrependo de nada. Porque eu fiz o que quis fazer. As coisas que aconteceram na minha vida foi aquilo que eu quis fazer, não tem porque ficar me culpando pelo que aconteceu. Era para acontecer. Como sempre digo, Deus sabe de tudo na nossa vida. O que fiz foi pensado, no momento em que eu precisava, por causa de coisas tristes. Acho que não me arrependo, não. Quer dizer, tenho certeza".

Aposentadoria

"Quando parei foi uma decisão porque não estava mais com a cabeça focada. Logo que vim da Roma para o Corinthians e meu tendão arrebentou no primeiro treino, veio a tristeza de antes e isso me abatia muito. Quando eu ficava triste me desligava, então é melhor deixar de lado, deixar o futebol. Foi uma tristeza para mim e todos os brasileiros, porque eu era considerado um dos melhores atacantes na época. Não foi fácil, mas naquele momento achei necessário".

Camisa 9 da seleção brasileira

"Tem o Hulk, tem o Gabigol, depende muito da forma que a seleção joga. Tem Neymar, que joga mais fora da área do que dentro. Se eu estivesse ali com certeza dava conta (risos), mas tem jogadores que se forem convocados vão fazer por onde e dar alegria para a gente".

Torcida pela seleção no Catar

"Infelizmente eu não pude ganhar uma Copa, mas o coração está junto com os jogadores, torcendo. Sei da responsabilidade de jogar uma Copa do Mundo e com certeza a seleção está bem preparada para conseguir o título".

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