Alejandro Pagni/AFP
Alejandro Pagni/AFP

Advogado de enfermeira diz que Maradona foi 'morto' e aponta médicos como culpados

Rodolfo Baqué afirma que, ao mesmo tempo que tratava um problema cardíaco, recebia medicamentos psiquiátricos que aceleravam seu batimento

AFP, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 07h46

Advogado da enfermeira Dahiana Madrid afirmou que Maradona foi morto e  apontou os médicos que tratavam o ídolo do futebol argentino como os responsáveis por sua morte em 2020, enquanto ele se recuperava de uma cirurgia na cabeça. "Diego foi morto", declarou categoricamente a jornalistas o advogado Rodolfo Baqué, ao garantir que o eterno camisa 10 da seleção argentina estava sendo tratado para um problema cardíaco, mas, ao mesmo tempo, recebia medicamentos psiquiátricos que aceleravam seu batimento cardíaco.

Ainda segundo o advogado, Maradona sofreu uma queda e, quando a enfermeira pediu que fosse levado ao hospital para fazer uma tomografia, um amigo íntimo do ex-jogador descartou essa possibilidade para evitar comentários da imprensa.

A enfermeira, que estava de plantão no dia da morte de Maradona, foi depôr na quarta-feira ao Ministério Público em San Isidro, nos arredores de Buenos Aires. Ela é uma das suspeitas do homicídio do astro assim como outros seis membros da equipe médica que cuidava dele. Madrid, 36 anos, e o restante da equipe médica é investigada sob a acusação de "homicídio doloso", crime com pena de 8 a 25 anos de prisão.

O MP entende que Maradona recebeu uma atenção "deficitária" por parte dos integrantes da equipe médica que, embora sabiam que o paciente poderia morrer, nada fizeram para evitar a morte.

Madrid era a enfermeira de Maradona durante o dia. O enfermeiro que cuidava dele à noite, Ricardo Almirón, foi o primeiro interrogado na segunda-feira e revelou anomalias, ao garantir que nunca havia sido notificado que Maradona padecia de problemas cardíacos. Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, devido a uma crise cardiorrespiratória enquanto estava sozinho em sua cama em uma casa no bairro privado de San Andrés, ao norte de Buenos Aires, onde se recuperava de uma cirurgia na cabeça devido a um hematoma subdural.

"Há uma responsabilidade dos médicos que cuidavam dele. No fundo, houve muitos alertas de que Maradona, um dia antes ou um dia depois, faleceria. E nenhum dos médicos fez algo para evitar isso", acusou Baqué durante um intervalo da audiência de quase dez horas em que o MP ouviu a enfermeira Madrid. "O que Madrid fez foi cumprir as indicações dos médicos responsáveis", declarou o advogado à imprensa. "Era conhecimento de todos no entorno de Maradona que ela não poderia ter contato com ele porque ela a havia demitido, assim como os acompanhantes terapêuticos", garantiu Baqué.

O advogado revelou que pedirá a retirada das acusações contra sua cliente esta semana e denunciou que "foi orquestrada uma campanha" contra ela. Madrid foi uma das pessoas que encontrou Maradona sem sinais vitais e tentou reanimá-lo, de acordo com seu próprio depoimento como testemunha.

Na ocasião, a enfermeira também declarou não ter feito os controles rotineiros ao iniciar seu turno para deixar que Maradona descansasse. Mais tarde, surgiu um relatório escrito para seus superiores no qual ela afirmava que havia tentado controlá-lo, mas que Maradona a rejeitou.

Madrid admitiu em um segundo depoimento que este relatório era falso e que foi o seu superior que lhe pediu que o fizesse.

O enfermeiro Almirón declarou na segunda-feira que também tinha ordens de não acordar Maradona e que o astro respirava normalmente quando encerrou seu turno e deu lugar a Madrid, horas antes do paciente ser encontrado sem vida na cama.

De acordo com seu advogado, Madrid foi demitida por Maradona um dia após começar a trabalhar para o ex-jogador, mas recebeu ordens para seguir administrando seus medicamentos. "Todos sabem que ela só tinha que dar a medicação e estar lá no caso de uma crise. A medicação foi administrada, porque na autópsia aparece como tomada, e na crise ela fez as manobras (de reanimação cardiopulmonar)", enfatizou Baqué nesta quarta-feira.

A junta médica de 20 especialistas determinou que Maradona agonizou durante horas e "foi abandonado à própria sorte", afirmando que a equipe médica chefiada pelo neurocirurgião Leopoldo Luque aplicou um tratamento "inadequado, deficiente e imprudente". Além das duas enfermeiras, Luque e os demais integrantes da equipe médica devem testemunhar em audiências marcadas até 28 de junho. Após os depoimentos, o MP irá encaminhar o caso para o juiz com a recomendação de processá-los ou inocentá-los. Finalmente, após um processo que pode durar muitos meses e até anos, o caso pode ir a julgamento.

Além da convalescença da operação, Maradona sofria de outras doenças e estava em abstinência de álcool em seus últimos dias de vida. Admirado por milhões de torcedores em todo o mundo, Maradona fez sua última aparição pública, com a saúde debilitada, no dia 30 de outubro de 2020, quando completou 60 anos, no estádio do Gimnasia y Esgrima La Plata, equipe que treinava.

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