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Afeto e inclemência

No futebol, há gestos belos, como os de Chapecó e regras estúpidas contra alegria no gol

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2017 | 06h00

O futebol não está à margem da vida, como supõem alguns desavisados; antes, cada partida reflete e esparrama dramas e alegrias, gestos bonitos e indignos, repressões e generosidades com os quais topamos sempre no nosso dia a dia, fora dos estádios e dos gramados. Dois exemplos fresquinhos ocorreram em início de noite, tanto no domingo como ontem.

Por ordem cronológica, vale a abordagem da inclemência travestida de regra do jogo, ou “recomendação de conduta”, para ficar no eufemismo. O Palmeiras visitou o Novorizontino, no fim de semana, pelas quartas de final do Paulistão. Duelo mais complicado do que imaginava a turma verde, que voltou para casa com vitória por 3 a 1, suada e de virada. O último gol foi de Roger Guedes, aos 44 minutos do segundo tempo. 

O rapaz empolgou-se tanto ao mandar a bola pra rede que foi festejar com a torcida. Para tanto, subiu no alambrado e dividiu a alegria com os fãs. Na volta ao gramado, o árbitro mostrou o amarelo. Como já fora advertido anteriormente, tomou o vermelho. Ou seja, a euforia, o momento sublime do joguinho de bola, foi premiada com a admoestação e a exclusão do atleta.

“Mas está na lei!”, advertirão os defensores das obviedades. “O jogador profissional tem de saber o que pode ou não ser feito”, emendarão os adoradores da dobradinha ordem/disciplina. “Ele já tinha o amarelo”, enfatizarão os cultivadores de redundâncias. “O juiz cumpriu o que lhe é imposto”, realçarão os apiedados de Sua Senhoria. 

Tudo correto, tudo cômodo para quem não quer botar a mão em vespeiro. Não se ataca, com ênfase, a cretinice que tal orientação embute. Boleiros, treinadores e dirigentes não erguem a voz para rebater a inconsistência dessa cláusula antialegria. A alegação de quem a elaborou é a de que a advertência serve para impedir abusos ao se festejar um gol, tais como retardar o reinício do jogo ou provocação a adversários. Para revestir o autoritarismo com verniz de compaixão, alega-se que alambrados podem ceder, com o peso da turba, e provocar acidentes graves.

BALELAS

Quantos incidentes ocorreram, na história do futebol, por episódios como esse? Contam-se nos dedos. Na verdade, pretende-se não “esconder” os patrocinadores, nos closes das câmaras, mesmo motivo pelo qual há punição para quem tira a camisa. Leva-se em conta mais o faturamento do que a integridade física de quem quer que seja. Fora o desejo incontornável de se querer controlar a espontaneidade (!). A praga de ter tudo sob controle...

Dessa maneira, nivela-se a explosão de júbilo com a canelada maldosa. Comete deslize tão grave o jogador que vai para a galera ou arranca a camisa na hora do gol com aquele que quebra a perna do rival ou lhe pespega uma cotovelada covarde. E dá-lhe aplausos para quem faz valer a regra, em vez de incentivar-se a Justiça, na vida e no futebol. 

Por falar em Justiça, esta verdadeira e alentadora: bonita a manifestação do torcedor da Chapecoense em relação ao Atlético Nacional. Desde a chegada em Santa Catarina, a delegação colombiana recebeu carinho generalizado. Não se tratou de hospedar um desafiante em uma taça, mas de receber amigos para um tira-teima protocolar previsto em tabela. 

Acima e além do jogo pela Recopa Sul-Americana, o que se viu ontem foi o reconhecimento à solidariedade dos colombianos no episódio que entristeceu o mundo, em novembro, com a queda do avião da Chape. Os vizinhos comportaram-se com respeito e fraternidade comovedores. Ultrapassaram, e muito, os rituais corriqueiros de educação em situações do gênero. Encantaram com a postura de civilidade e cortesia.

O Atlético de Medellin merece o afeto recebido em troca. O resultado dos confrontos pouco importa. A taça em pauta é mero detalhe. 

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