África mostra sua nova cara na Copa

Angola, Costa do Marfim, Gana e Togo. O continente africano vai se apresentar de ?cara nova?? na Copa da Alemanha. Dos cinco representantes da região, apenas a Tunísia já esteve em mundiais ? irá pela quarta vez. As outras seleções estréiam. Para isso, deixaram pelo caminho favoritos como Nigéria, Camarões e Senegal, mas não podem ser consideradas zebras. As classificações refletem a evolução do futebol desses países, embora em termos de estrutura ainda estejam a anos-luz das grandes potências.É o caso, por exemplo, dos ?palancas negras?? de Angola ? palanca é o nome de uma espécie rara de antílope que habita o país de língua portuguesa. A infra-estrutura do futebol local é sofrível. Faltam bons campos e centro de treinamento equipado com aparelhos modernos é apenas um sonho. Angola também não tem grandes destaques individuais. Os que se sobressaem vão jogar em Portugal ou na Ásia e começam a ganhar algum dinheiro, pois o futebol interno é amador.Mas o técnico Luís Gonçalves Oliveira encontrou a fórmula para levar o time à Alemanha, superando a poderosa (para os padrões do continente) Nigéria no grupo 4: manter a base e montar uma equipe disciplinada taticamente. E deu chance a alguns jovens valores que conhecia bem (treinou as seleções Sub-20 e Sub-23 do país).?Nossas condições (de trabalho) são difíceis, mas nos esforçamos para melhorar. Temos jogadores aplicados e montamos uma boa equipe??, diz Luís Oliveira. Seus principais jogadores são o atacante e capitão Fabrice Akwa (joga no Catar), o atacante Flávio e o volante Gilberto (ambos do Al Ahli, do Egito), além do atacante Mantorras, que atua no Benfica e voltou a jogar recentemente após longo afastamento por contusão.A classificação à Copa também teve uma importância especial para o alegre povo angolano, que tenta superar o trauma de uma guerra civil que durou 27 anos e matou 1,5 milhão de pessoas. E os jogadores perceberam isso. ?O povo sonha com o Mundial, não se fala de outra coisas nos bares, escolas, no trabalho??, atesta Gilberto. ?Estão todos mobilizados.?? O governo angolano também se mobilizou e destinou US$ 1,3 milhão para jogadores e comissão técnica dividirem como prêmio pela ida à Alemanha.Casa própria - Os jogadores da Costa do Marfim também engordaram o patrimônio por conta da vaga ? a seleção só entrou porque Camarões empatou com o Egito num jogo em que o zagueiro Wome perdeu pênalti aos 50 minutos do 2º tempo. O presidente Laurent Gbagbo, empolgado, presenteou cada um dos ?heróis?? com uma casa no valor de 45 mil euros. Mas a classificação dos ?Elefantes?? não pode ser considerada uma surpresa. A seleção comandada por Robert Nouzaret tem vários jogadores com a experiência de atuar no futebol europeu e isso foi decisivo na hora de brigar pela vaga.A grande estrela do time é o atacante Didier Drogba, que joga no poderoso Chelsea inglês e comemorou como criança a vaga no grupo 3. ?A Costa do Marfim tem revelado grandes jogadores nos últimos anos. Faltava ir a uma Copa do Mundo, finalmente conseguimos??, festejou o principal ídolo do país.Agora, a aposta de Drogba é que a seleção marfinense vai surpreender na Alemanha, passando pelo menos da primeira fase. Para isso, a equipe conta com a experiência do zagueiro Touré (Arsenal), do meia Kalou (Feyenoord) e do atacante Bakayoko (Osasuna).Enfim, a vaga - Gana conviveu por mais de uma década com uma incômoda realidade: vira-e-mexe conquistava um título mundial nas categorias de base, mas o time principal ?amarelava?? na hora de conquistar uma vaga na Copa. Este ano, a história sofreu uma reviravolta radical. A equipe Sub-17 não passou da primeira fase no Mundial do Peru. Em compensação, a seleção principal se garantiu no Mundial de adultos pela primeira vez na história ? o que valeu prêmio de US$ 8 mil para cada jogador.O segredo da campanha bem-sucedida no grupo 2? ?A união do nosso grupo??, disse Appiah, um dos ?estrangeiros?? da seleção, pois atua no Fenerbahce turco. União é um ingrediente básico em todo grupo que fez sucesso no futebol, mas não existia no futebol ganês. Os ídolos do passado, Abedi Pele e Yeboah, por exemplo, não se bicavam. E essa guerra de egos sempre foi apontada como razão principal para os fracassos da seleção de Gana.Agora tudo mudou, garante Appiah. Ele diz que entre os principais integrantes dos ?estrelas negras?? ? Michael Essien, por quem o Chelsea pagou 38 milhões de euros, e Amoah (Vitesse holandês) ? não há disputa de egos no elenco comandado pelo sérvio Ratomir Dujvokic. A dúvida é se o clima de camaradagem permanece até a Copa.A maior alegria - É assim que o povo de Togo define a classificação de sua seleção para o Mundial, desbancando o favorito Senegal no grupo 1. É deve ser mesmo, afinal Togo é um dos mais pobres países do mundo, com dificuldades imensas para sua população de 5,6 milhões de habitantes. Mas os ?gaviões??, comandados pelo nigeriano Stephen Keshi, fizeram campanha exemplar para chegar à Alemanha - sete vitórias, dois empates e uma derrota. Mas na Copa a história será diferente e a equipe de Adebayor, jogador do Mônaco, ficará feliz se não se tornar um saco de pancadas.

Agencia Estado,

16 de outubro de 2005 | 11h16

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