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Agonia do moribundo

Federação Paulista de Futebol trata com cerimônia o principal produto dela - o campeonato da Série A-1. Faz solenidade para o sorteio dos grupos da próxima temporada, baixa normas modernosas, impõe-lhe ar de competição de primeira linha. Tudo como tentativa de mostrar que lida com torneio bem de saúde, vistoso, lucrativo e indispensável.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2015 | 03h00

Não é mais assim, infelizmente. Os estaduais assemelham-se a moribundos mantidos com aparelhos, portanto de forma artificial. A cada ano perdem prestígio, interesse e vitalidade. Todos sabem que mais tarde finarão, por causa das mudanças ocorridas no foco de atenção de público e agremiações mais poderosas. No entanto, dão os últimos respiros em nome da tradição e, sobretudo, para manter feudos dos cartolas regionais. 

Há bastante tempo a finalidade dessas competições, outrora as mais importantes do calendário, é a de manter o jogo de poder, na mesma proporção em que definha a qualidade técnica. Alguns as justificam como a maneira que os clubes pequenos têm de manter-se em atividade e não fechar as portas de vez. Meia-verdade, porque o interior padece de esvaziamento quase irreversível e é ilusória a sobrevida que recebe com os três meses de Estadual.

Alega-se que São Paulo é caso à parte, pela quantidade de cidades médias e grandes, por economia diferenciada, pelo peso esportivo das equipes. Negar a importância do Paulista seria tolice e desconhecimento histórico imperdoável. Mas ficou no passado. Foi-se a época em que formações de respeito surgiam em Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto, Araraquara, Piracicaba, Jundiaí e por aí afora. Ituano campeão apenas confirma a exceção à regra.

Virou lenda falar que São Bento, Paulista, Comercial, XV, Prudentina, União São João revelavam craques para o Brasil e o mundo. As promessas rareiam e todo rapaz com bom potencial logo cai nas mãos de empresários, que mantêm equipes próprias ou os repassa para compradores cheios da grana. Sem contar que muitos distintivos de peso desapareceram, viraram saudade. Outros se aguentam sabe-se lá Deus com quais sacrifícios e artimanhas. 

A FPF cria factoides, apregoa pujança para não ver escorrer a galinha que põe, ainda, alguns ovos... de bronze, porque de ouro não dá mais. Daí interfere na vida dos concorrentes, com a limitação dos jogadores inscritos (forma de evitar que se escalem times mistos) e agora com a proibição de treinador mudar de clube durante a disputa. Como se tais medidas contribuíssem para o desenvolvimento do futebol local.

Ora, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos são os atingidos pela camisa de força nos elencos rígidos; os técnicos não podem fazer testes com jovens ou com gente que talvez não prossiga ao longo da temporada. Ficam impedidos, assim, de observar alternativas, como se o Estadual não fosse etapa preparatória para Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil.

A mudança de comando também é problema interno. Nem vale alegar que na Europa é assim, porque aparece outra meia-verdade. Em vários países é vetada a ida de um técnico para time da mesma divisão no campeonato nacional; aqui é apenas o Estadual, torneio menor e, vale a repetição, com caráter preliminar para o amálgama das equipes. 

A sobrevivência dos pequenos é necessária, pelo tamanho do País; não podem sumir do mapa. Mas, definitivamente, não se chegará à fórmula salvadora só com estaduais. Ao menos não com o espaço de tempo exíguo em que são disputados só para contar com a presença dos grandes. 

Desse jeito se alonga impiedosamente a vida do moribundo. E não é bom para quem curte futebol.

Contrassenso. O Corinthians pode ser campeão neste final de semana sem direito a festa no campo. Tudo porque a CBF não colocou no mesmo dia e horários os jogos Corinthians x Coritiba (amanhã) e Figueirense x Atlético (domingo). Que falta de sensibilidade e inteligência. 

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